Untermenschen?

Ontem um grupo organizado do PCP, controlado por Ana Avoila e Mário Nogueira, interrompeu ilegalmente a sessão do Parlamento. Este grupo organizado do PCP foi descrito em alguns órgão de comunicação como “cidadãos”, “povo” e “pessoas”.

E eis que chega o dia em que se começa a defender que os sindicalistas, militantes e simpatizantes do PCP deixam de qualificar como “cidadãos” e como “pessoas”.

21 pensamentos sobre “Untermenschen?

  1. Não João. Sendo certo que um grupo do PCP são pessoas; pessoas, em geral, não são um grupo do PCP. Logo, é mais relevante identificar um grupo pela sua característica mais importante (ser do PCP), do que pelo atributo geral de serem pessoas, que é patentemente óbvio…

  2. Migas,

    “pessoas, em geral, não são um grupo do PCP”

    Este género de juízo de valor só perpetua o estereótipo de que as massas, “as pessoas”, os “cidadãos”, só o são como grupo anódino de anónimos desprovidos de ideologia, de opinião e de iniciativa.

    Qualquer carácter distintivo que adoptem parece desse modo excluí-los rapidamente desse qualificativo e empurrá-los para uma classificação que os distinga, como se essa tomada de posição os desqualificasse e os colocasse à parte. Deixaram de ser “puros” e “inócuos”, portanto tem que se lhes chamar bem os nomes, para os isolar das grandes liberdades e direitos que foram concebidos para os bem comportados.

    Chamar nesta caso cidadãos ou pessoas a quem se manifestava não lhes confere nenhum particular reconhecimento nem mais valor aos seus actos. Não vejo portanto que seja um facto assim tão relevante que tenham que ser separados desses qualificativos e levarem a chancela de “tipos do PCP”.

  3. Concordo com o MGM e deixo um termo de comparacao: se fossem grupos de extrema direita, os média nao deixariam de usar o carimbo de “neonazis”, “fascistas”, etc.. Como era um grupo de extrema esquerda, toca a esconder as suas verdadeiras cores politicas e dizer que eram “pessoas”, “cidadaos”.

    É o “jornalismo” que temos.

  4. Luís Serpa

    É relevante identificar um grupo de pessoas numa acção política pelo nome do partido a que pertencem.

    (É irrelevante, mas impossível não se pensar que se as pessoas fossem do CDS o nome do partido teria sido mencionado)

  5. Rui Sousa

    Não interessa nada se são do PCP ou do clube recreativo da Musgueira. Preocupou-me mais a reacção da Presidente da Assembleia do que a de um grupo de manifestantes inconsequentes.

  6. “se fossem grupos de extrema direita, os média nao deixariam de usar o carimbo de “neonazis”, “fascistas”, etc.. ”

    Isso é o jornalismo a falar para a clientela que tem, que parece viver bem (e de forma entusiástica) com a extrema-esquerda, mas que cerra fileiras quando se trata de algo que seja visto como sendo extrema-direita. O que é tão mais curioso quando se vê a curta distância que separa as propostas de uns e outros em Portugal.

    De qualquer forma, não me parece que neste caso terá havido alguma intenção de envolver os manifestantes nalgum manto de “apartidarismo”. Se não, não se perceberia que os mesmos jornalistas tivessem noticiado a presença da Ana Avoila e do Mário Nogueira no exterior da AR. Também me parece que nenhum espectador ou leitor das notícias em relação ao sucedido estivesse enganado quanto às preferências ideológicas (e mesmo partidárias) dos manifestantes.

  7. “É irrelevante, mas impossível não se pensar que se as pessoas fossem do CDS o nome do partido teria sido mencionado”

    Parece-me que nesse caso a questão teria uma natureza substancialmente diferente. Assim como se fossem comunistas a manifestar-se contra o grupo parlamentar do PCP.

  8. JMS

    Quero deixar um elogio a este post que me parece bastante lúcido.
    A valorização dos indivíduos enquanto tal por oposição à catalogação em grupos que têm mais ou menos valor social é uma característica basilar do liberalismo.

  9. PT

    E de manifestação “espontânea” organizada pelo “povo”, qualquer dia voltamos aos saudosos cercos a S. Bento. Mas isto sem catalogações, claro, porque afinal é tudo povo.

  10. João,

    Portanto para ti é equivalente uma determinada acção colectiva ser conduzida por um grupo organizado (implicando planeamento ou coordenação) ou por pessoas isoladas mas conjunturalmente unidas. De igual modo presumo que aches igualmente descaracterizador e esterotipador identificar que os vândalos que deitaram fogo ao McDonalds nas manifs em Londres há uns anos eram um sub-grupo de extrema-esquerda e não parte do povo em geral. Não posso concordar. Eu acho que é sempre informação relevante distinguir atributos específicos (quando relacionados com a acção em si) de atributos gerais. Neste caso concreto então ainda mais, pois “cidadão”, “povo” e “pessoas” é do mais geral que há…

    Imagina por exemplo uma notícia cujo título era: “Pinto da Costa apupado por pessoas na Avenida dos Aliados”. As implicações da notícia seriam muito diferentes se essas pessoas fossem totalmente genéricas, se fossem adeptos do Benfica, ou se fossem adeptos do Porto. A clarificação destes atributos é essencial para se entender a notícia correctamente. Não é diferente no caso acima. O facto de ser uma coisa organizada por um partido da oposição é importante.

    Além disto, a forma como citas o João Miranda é em si mesmo falaciosa. Não há nada no que ele escreve que possa servir para lhe apontares a intenção inerente ao termo “untermenschen”… E também, da minha afirmação óbvia e “commonsensical” de que nem todas as pessoas são do PCP é falacioso concluir que estou a estereotipar as massas como desprovidas de ideologia. Justamente por existir uma pluralidade de ideologias nos diversos elementos das massas é que é relevante clarificar os atributos comuns específicos que unem quem esteve no parlamento. Como sabes bem, eu devo ser das últimas pessoas no mundo a quem se possa acusar de negar a individualidade de cada um…

  11. Pingback: Tiro de .458 Westley Richards | Declínio e Queda

  12. Comunista

    Mais um que tem a espantosa ideia de que um país, no caso Portugal, pode apodrecer enquanto o povo se mantém em casa tranquilamente sem gerar ondas. É preferível aquele grupo de pessoal que vai lá pressionar os deputados assim, à vista de toda a gente, do que os engravatados que se movem nas sombras pelos telemóveis dos políticos a inclinar as deciões dos governos a seu favor e contra o interesse público.

  13. caramelo

    Posso, já agora, perguntar porque se toma como certo que era um grupo de militantes do PCP? Que eram de esquerda, não tenho dúvidas. Que fossem só do PCP, ou mesmo que a maioria fosse do PCP, já não sei. Por mais estranho que pareça a todos, os militantes do PCP misturam-se com pessoas, que frequentemente concordam com eles. A Ana Avoila e o Nogueira, por exemplo, já foram vistos a almoçar e a cavaquear com pessoas. Deveriam os jornalistas, antes de noticiar, e para não correr o risco de lhes chamar “cidadãos”, ou “pessoas” (deus nos livre), ter verificado a filiação de cada um deles? Talvez chegassem à conclusão de que para além de 10 filiados no PCP, oito no BE, havia cinco pessoas.

  14. Ricardio

    Cavaco Silva é uma pessoa e pertence ao povo. Cavaco Silva não quer eleições. Logo, o povo não quer eleições.
    É esta a lógica a que se chega quando se toma a parte pelo todo.

  15. Migas,

    Vamos lá a ver se me consigo fazer entender… 🙂

    Dizer que não basta afirmar que a manifestação foi feita por um grupo de cidadãos ou pessoas, e que se tem que nomear explicitamente a facção, o clube, a ideologia que professam ou o tipo de opiniões que tem não me parece particularmente relevante. O que é que “tinha que ser dito” neste caso para a coisa ser “bem feita”? Que eram sindicalistas, comunistas, funcionários públicos, lisboetas ou todos os anteriores? Quantos é que bastavam para que tudo “ficasse bem”?

    Mais: o dizer-se que os manifestantes têm que (ou deviam) ser identificados como sendo sindicalistas ou militantes de um partido, tem claramente associada uma carga e uma intenção de menorizar a manifestação pelo facto de essas pessoas fazerem parte de um grupo organizado de cidadãos. Subitamente, se a manifestação fosse feita por cidadãos “dos bons e legítimos”, sem filiação partidária e sem clubismo, tudo ganharia uma nova justificação e mérito. Mas “são os comunas”, ou “são os sindicalistas”, portanto já não são verdadeiros cidadãos (pelo menos “cidadãos” já não basta) e tudo tem que ser tomado em conta, subitamente, com um grande tijolo de sal. À falta de melhor, um dia destes têm que ser todos rotulados como “anarquistas” como nos tempos idos.

    Acho que é óbvio que um “sub-grupo” de extrema-esquerda que deita fogo a McDonalds faz parte do povo em geral. E que são cidadãos e pessoas, como o são (pelo menos em Portugal) os presos e os piores párias. Poderá ter interesse informativo tentar dar mais informação relativa ao grupo de manifestas. Mas criticar e rasgar as vestes quando estes são simplesmente descritos como cidadãos ou pessoas, parece-me ser meio caminho andado para cair num cenário em que, se estás associado à defesa de alguma causa ou protestas em relação a algo, és um grupelho que deve ser imediatamente “named and shamed” como tal; se não te interessas e deixas andar, aí és um bom cidadão, mas és também uma triste massa deslavada, remetida nas palavras da senhora presidente da AR à tarefa de ir tratar da tua vidinha.

    “Além disto, a forma como citas o João Miranda é em si mesmo falaciosa. Não há nada no que ele escreve que possa servir para lhe apontares a intenção inerente ao termo “untermenschen”…”

    Há uma sub-mensagem que tem implícita a necessidade de serem identificados como comunistas ou sindicalistas, porque em alternativa, da maneira como foram apresentados, estão como que a usurpar o conceito de cidadania e de serem vistas ilegitimamente como “pessoas”. De “vejam lá agora tratar aqueles sindicalistas como cidadãos e pessoas honestas”. Há uma intenção de algo do género de “chamem-lhes comunas e não os deixem ser vistos como cidadãos ou pessoas”, como se colocar-lhes esse rótulo corrompesse alguma eventual legitimidade com que são apresentados e permitisse por esse facto imediatamente julgar do demérito da sua iniciativa.

    Claro que isto são análises subjectivas de intenção, consciente ou não. Mas acho que não são uma leitura assim tão transviada do que foi escrito.

    “Como sabes bem, eu devo ser das últimas pessoas no mundo a quem se possa acusar de negar a individualidade de cada um…”

    Acho que podes estar descansado 😉

  16. João,

    Já te conheço há muitos anos e sei bem que és o exemplo paradigmático do tipo que fica a argumentar até a décima terceira derivada porque tens mesmo de levar a bicicleta 🙂

    Hoje estou do contra e também não largo 🙂

    «O que é que “tinha que ser dito” neste caso para a coisa ser “bem feita”?»

    A verdade, basicamente. E neste caso nem sequer é polémica. Há para aí manifs organizadas por grupos de cidadãos, que se apresentam como tal, e que todos sabemos serem grupos apoiados por este ou aquele partido ou sindicato, que tentam usar esse estatuto de “cidadãos” (leia-se independentes), justamente para escapar ao juízo natural da opinião pública de que são uma parte directamente interessada ou partidária. (É evidente que também são cidadãos, claro. Mas também são o resto.) Esta manif na AR nem sequer fez um grande esforço para aparentar tal coisa. As ligações eram óbvias. Parece-me, assim, que uma notícia bem dada devia afirmar esse facto e não esconde-lo. Admito que é uma questão subjectiva. Nota que o jornal é livre de fazer o frete e fingir que foi tudo uma coisa independente e espontanea. E quem sabe o contrário é livre de apontar e criticar sem ser conotado ao estilo “untermenschen” (o que como referi acaba por ser uma falácia argumentativa de culpa por associação de ideias).

    Já agora, imagina o que seria se a manif de professores grande que houve no tempo do Sócrates fosse apresentada como uma manif de pessoas. Isto de definir claramente atributos não tem de ser só quando convém aos manifestantes.

    «Acho que é óbvio que um “sub-grupo” de extrema-esquerda que deita fogo a McDonalds faz parte do povo em geral. (…) mas és também uma triste massa deslavada, remetida nas palavras da senhora presidente da AR à tarefa de ir tratar da tua vidinha.»

    Não questiono que a presidente da AR foi infeliz na escolha de palavras. Mas não é isso que está em causa. Como comecei por dizer, o grupo pode fazer parte do todo mas não se pode confundir o todo com o grupo. Isto parece-me tão óbvio que não percebo a tua objecção. Não é uma questão de “name and shame”. É uma questão de não mascarar a verdade focando apenas uma parte dela (óbvia e por isso irrelevante). Claro que o interesse dos atributos específicos variam com o contexto. Se um benfiquista apupa o Cavaco isso não é relevante, à partida. Mas se um sindicalista critica uma política laboral, um comunista exige a demissão do governo, um sportinguista chama nomes ao Bruma ou um “centrista” defende o Portas, então já é.

    Num exemplo mais extremado: Imagina que um terrorista islâmico se explode no metro e mata meia dúzia de pessoas. A notícia normal seria essa “Terrorista Islâmico mata meia dúzia”. Podia ser apenas “Terrorista mata meia dúzia”, menos informação mas ainda assim correcta. Se fosse “Islamita mata meia dúzia” seria misleading e muita gente ficaria legitimamente ofendida. E se fosse “Pessoa mata meia dúzia”? Não dizia quase nada.

    Esta mania de esconder atributos por correcção política leva ao disparate. Como o que li recentemente não sei onde sobre uma proposta para que o registo criminal não indique a cor da pele ou etnia. Não tarda mandamos polícias procurar criminosos sem informação.

  17. “Já te conheço há muitos anos e sei bem que és o exemplo paradigmático do tipo que fica a argumentar até a décima terceira derivada porque tens mesmo de levar a bicicleta :)”

    😀

    Neste caso acho que não tenho muito mais a dizer, e acho que as posições já são suficientemente claras e irredutíveis. De qualquer forma, só duas pequenas achegas, ou seja, a 14a e 15a derivadas. 😀

    “Há para aí manifs organizadas por grupos de cidadãos, que se apresentam como tal, e que todos sabemos serem grupos apoiados por este ou aquele partido ou sindicato, que tentam usar esse estatuto de “cidadãos” (leia-se independentes), justamente para escapar ao juízo natural da opinião pública de que são uma parte directamente interessada ou partidária.”

    É exactamente essa sobreposição, que qualificas como natural mas da qual discordo, que eu critico. Mas vemos dois caminhos separados: tu preferes que se identifique o mais possível o grupo envolvido; eu, prefiro que as pessoas se habituem a separam “cidadãos” de “independentes” ou “apartidários”, e acabar com essa sobreposição. Acho que é muito mais saudável do que promover “blame games” e dedos apontados a grupos específicos da sociedade.

    “Esta mania de esconder atributos por correcção política leva ao disparate.”

    Aí estamos ambos de acordo, mas não é o que estou a defender. Também com certeza que concordamos que essa obrigação de omissão é mais vezes forçada do que voluntária.

    Não digo que não se pode dizer que são comunistas, ou o que seja. O que digo é que nem sempre isso é necessário, ou que nem sempre a sua omissão é perder algo de imprescindível para perceber o que está em causa.

    “Como o que li recentemente não sei onde sobre uma proposta para que o registo criminal não indique a cor da pele ou etnia.”

    Também tens aquela de as ofertas de emprego também não poderem descriminar em função do sexo. Um dia destes temos ofertas por “o/a ama de leite” ou por “o/a dador de esperma”.

  18. p D s

    1 pessoinha do PSD, acusou um grupo de pessoas do PCP, chamando-lhes “carrascos” e metaforicamente : “NAZIS” !

    é isto certo ?

    (o facto de a 2ª figurinha do Estado ter mostrado claramente não estar á altura das responsabilidades, parece que é insignificante…)

  19. Joaquim Amado Lopes

    João Luis Pinto,
    Uma acção política, organizada e levada a cabo por membros de um grupo político, no âmbito de uma campanha política desse grupo, pode mas não deve ser caracterizada uma acção “de pessoas”.
    É claro que todos os participantes daquela acção são pessoas e cidadãos. Assim como o são todos os deputados, agentes da autoridade, jornalistas e funcionários do Parlamento. Classificar quem participou naquela acção como “pessoas” não diz nada sobre elas.
    Usar essa classificação deliberadamente para evitar apontar o aspecto do grupo que é mais relevante para o que está a ser noticiado (a motivação política) é esconder informação de forma a transmitir uma ideia que se sabe ser errada. Por outras palavras, mentir.
    Como o Miguel Botelho Moniz escreveu, ao relatar a acção de um grupo, deve-se destacar o aspecto distintivo desse grupo que seja mais relevante para a acção que esteja a ser relatada.

    “agentes da autoridade retiraram do Parlamento um grupo de militantes e simpatizantes do PCP que interromperam os trabalhos com gritos de ‘demissão’ e ’25 de Abril sempre; fascismo nunca mais'” também pode ser escrito como “um grupo armado impediu um grupo de cidadãos de expressarem livremente a sua legítima opinião de que o Governo devia demitir-se ou ser demitido”. Mas não deve.

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