Poder na rua?

Há pelos ares deste país à beira mal plantado muitas confusões. A última é entre o direito a livre expressão e o direito à invasão da propriedade privada ou à interrupção da livre actividade alheia.

O que anda a acontecer no parlamento é, no entanto, mais grave. De facto é uma falta de respeito pela democracia parlamentar considerar que 10, 20, 100 ou 200 indivíduos, quer sejam avos, jovens, comunistas ou nazis, tenham o direito de interromper as actividades dos parlamentares eleitos pelo povo. A democracia directa, baseada na regra de que quem berra mais alto ou quem tem a moca maior é quem manda por felicidade não ganhou no pós 25 de Abril.

Não sendo o maior apreciador desta constituição, que dá poderes ilimitados e deveres impossíveis e intermináveis ao Estado, quando devia ser exactamente ao contrário, pelo menos não tem o defeito de dar o direito a manifestantes tentarem condicionar votos ou de invadirem propriedade privada.

A rua e a violencia como caminho para o poder é uma arma de partidos extremistas de esquerda e de direita. Não podemos todos, muito menos os parlamentares, ficar reféns do terror de quem não respeita os poucos direitos constitucionais que realmente importam.

29 pensamentos sobre “Poder na rua?

  1. FilipeBS

    Que exagero. Invadir propriedade privada? Desde quando o parlamento é propriedade privada? Além do mais o parlamento não foi invadido.
    Segundo, há os “partidos extremistas de esquerda e de direita” e depois há também os partidos extremistas de centro, que são aqueles que empenharam e continuam a empenhar extremamente o país, arruinando-o também extremamente.
    Perante este extremo endividamento do país, perante a extrema irresponsabilidade dos políticos dos partidos extremista do centro, realmente há que respeitar o sistema.
    Terceiro, você fala em terror. Mas que exagero novamente. Pois eu sinto-me aterrorizado com a classe política que temos e com todos ou quase todos os protagonistas políticos que temos tido.

  2. Ricardo G. Francisco

    Caro FilipeBS,

    Não entendo. Acha normal em geral que trabalhos parlamentares possam ser definitivamente interrompidos por quem assiste ou só na situação particular em que não gosta dos partidos que têm a maioria?

  3. PeSilva

    Visto de outro prisma:
    Os eleitores só possuem “voz” no acto eleitoral, tendo de se “calar” durante toda a legislatura?
    E no caso de os eleitos não cumprirem o que prometem, devem os eleitos “calar-se”?

    Ou será que os eleitores unicamente podem participar em discussões em que nada mudam o curso do regime?

  4. Miguel Noronha

    Parece que a única forma de os tais eleitores se exprimirem é aos urros nas galerias da AR.

  5. Ricardo G. Francisco

    PeSilva,

    Os eleitores têm voz sempre. 1, 10, 100 ou 500 eleitores é que não podem impedir deputados eleitos por milhões de eleitores de trabalhar.

    Entre eleições o poder dos eleitores é de facto limitado pela lei constitucional. Podemos tentar influenciar quem elegemos a vários níveis, no limite para que participem em iniciativas que levam à antecipação de eleições. Já cancelar a democracia não parece boa ideia.

  6. Folha58

    Quando trabalhos parlamentares são interrompidos ou condicionados por pessoas estranhas ao serviço , a democracia é posta em causa . Não há que discutir as razões ou as causas , é muito simples . Impensável que qualquer pessoa ou grupo , organizado ou espontâneo possa ir para as galerias manifestar-se porque se está a discutir a função publica, futebol ,cinema ou outro assunto qualquer . Assumir o contrário é revelador do respectivo sentido democrático . Já houve tempos em que a Assembleia da Republica foi cercada por manifestantes e os deputados (excepto claro os do Partido) foram mantidos sequestrados …. Se é para voltar ao PREC ………

  7. FilipeBS

    Caro Ricardo G. Francisco,
    Concordo que, numa situação normal, no actual quadro político/institucional/constitucional, os trabalhos parlamentares não podem e não devem ser interrompidos desta forma. Sei bem também que as almas que interromperam os trabalhos não representam o povo. Representam-se a eles mesmos, aos seus interesses pessoais, e muito provavelmente a sua ideologia extremista de esquerda.
    No entando, apenas achei o seu post exagerado no sentido em que tem um tom demasiado desculpabilizador e protector da classe política actual, e exageradamente culpabilizador daqueles que protestaram (independentemente do background sócio-politico de que são provenientes). Se a forma como aquele protesto de desenrolou deve ser condenada — e deve, pelo menos no abstracto! –, simultâneamente considero também que chegados a este ponto, a classe política está a colher aquilo que andou a semear. A classe política, no seu global não se deu ao respeito, e por isso porque haveria de continuar a merecer respeito das pessoas?
    O sistema político está totalmente degradado. A imagem das suas instituições também. Os deputados do parlamento a pedirem para serem respeitados faz lembrar prostitutas de um bordel a pedirem respeito. Desculpe-me a analogia.

  8. FilipeBS

    As prostitutas que me perdoem, pois realmente não merecem ser comparadas com a classe política. Aquelas podem ter um trabalho sujo, mas não mentem nem ganham ninguém. Toda a gente sabe o que elas fazem, e cobram pelo seu serviço. Quem não gosta não tem de frequentar.
    Já os políticos… raramente dizem a verdade, todos lhes pagamos (e de que maneira) pelo lindo serviço que prestam à sociedade, e as suas acções afectam-nos a todos.
    Como perguntava um comentador aí a cima, o que pode fazer o eleitor quando descobre que o político em quem votou mentiu durante toda a campanha eleitoral?
    Obviamente a mim não me enganam, mas é natural que a maioria das pessoas seja enganada.
    Esta democracia é um embuste, por favor! Todos sabemos disso.

  9. Francisco Colaço

    Filipe BS,

    Ainda bem que clarificou a sua posição. Estava a pensar que se tinha convertido ao vermi-capital jeronimesco! Quase lhe recomendava que não deixasse de usar protector solar e de beber muitos líquidos quando escreveu algo com que não se pode deixar de concordar.

    As prostitutas de um bordel são seres humanos, e merecem, mau grado a sua profissão picaresca, respeito enquanto membros putativos da espécie símia superior. Quanto aos nossos parlamentares, deles supomos merecer respeito enquanto eleitos pelos putativos espécimes da espécie símia superior, mesmo se entoldados na sua capacidade de escolha. Se alguém os pode arrochar, são os que o elegeram, e nenhuns outros. No meu caso (círculo de Castelo Branco), são Carlos Costa Neves, Carlos São Martinho, Fernando Serrasqueiro, Hortense Martins e Jorge Seguro Sanches, completas nulidades, mas supostamente albicastrenses ou amorados deste distrito.

    Se alguém que não seja de Castelo Branco quiser levantar a mão a estes deputados, terá de se haver comigo. Quanto aos outros membros do republicano deputedo, para esses estou-me a lixar! Não os elegi. Estes (do PS e do PSD), se alguma vez levarem nos lombos, pois que levem de mim e dos meus conterrâneos. Porém, se algum dos meus conterrâneos lhes quiser fazer umas nódoas negras, em seu bom direito, cá na terra resolveremos a questão com esses tais conterrâneos, se as razões aventadas não nos forem atendíveis.

    Portanto, Lisboetas, tenham cuidado com esses cinco, que estão a nosso cuidado. Quanto ao resto, que Lisboa trate de Lisboa, que esta coisa da Nação (capitalização intencional!) tem muito que se lhe diga. ;D

  10. PeSilva

    Miguel Noronha,
    Ricardo G.,

    Independentemente de eu concordar ou não com as formas de expressão, conseguem-me dizer uma forma de expressão que possa condicionar o “regime” que não seja por aqui condenada?
    Impressionante como em teoria se advoga maior liberdade e na pratica se condene qualquer manifestação contra o “poder” (mais uma vez, independentemente de eu concordar ou não com essas manifestações).

  11. PeSilva

    Vejamos:
    “O acordo que Cavaco Silva quer ver os partidos a assinar deverá definir metas para o défice, dívida, despesa e nível de tributação durante os próximos 20 anos em Portugal, cumprindo ainda o objectivo de assegurar as condições exigidas pelas autoridades europeias para, no fim do actual programa de ajustamento, concederem um apoio ao país no seu regresso ao financiamento nos mercados.”
    http://www.publico.pt/destaque/jornal/acordo-deve-incluir-definicao-de-metas-para-o-defice-e-divida-nas-proximas-decadas-26814341

    Então, nas próximas duas décadas, as eleições servem exactamente para quê?

  12. Francisco Colaço

    PeSilva,

    «conseguem-me dizer uma forma de expressão que possa condicionar o “regime” que não seja por aqui condenada?»

    Não há liberdade de associação, IMPRENSA LIVRE, BLOGUES? Não há manifestações de rua, liberdade de fazer outros partidos, audiências com parlamentares, eleições, tribunais fiscalizadores? Não há comícios políticos? Não há campanhas políticas? Não se permite a disseminação de mensagens políticas pela Internet? Não há colagens de cartazes, elevação de mupis e comunicações livres entre eleitores?

    Não vejo com bons olhos interromper aos zurros e berros o trabalho de um parlamento livremente eleito, enquanto os outros modos nos forem permitidos. Quando nos cercearem as manifestações de rua, a liberdade de associação e a imprensa livre e os blogues e não puderem ter lugar audiências livres com parlamentares, nesse dia urrem, zurrem e gritem.

    É claro que quem urra porque pode urrae, zurra porque é burro e sabe e pode e grita porque não sabe fazer outra coisa não se dá bem com imprensa livre nem com o facto de os outros eleitores, a sua maioria, não gostar de quem organiza zurros, urros e gritos e votar sempre nos outros.

  13. Miguel Noronha

    “conseguem-me dizer uma forma de expressão que possa condicionar o “regime” que não seja por aqui condenada?”
    Podem fazer manifs, escrever em jornais, blogs, fazer petições, etc

    E eu também devo ser livre de criticar essas tomadas de posição.

  14. PeSilva

    – Manifs sempre aqui foram condenadas.
    – Se escrever em blogs ou jornais, fazer petições condicionasse fosse o que fosse, provavelmente já muito teria mudado.
    Mas a minha preferida é mesmo a liberdade de fundar um partido, se sou contra este sistema de imposição de poder tenho de obter o poder, magnifico.

    Claro que deve ser livre de criticar todas as tomadas de posição, mas não deixa de ser irónico que por aqui sempre se condene qualquer beliscadela ao “poder”.

  15. Ricardo G. Francisco

    João,

    Acho que não estamos a discutir referendos;) Estamos a discutir a democracia directa à la partido revolucionário.

    E do meu post: “à invasão da propriedade privada ou à interrupção da livre actividade alheia”.

    E o parlamento sendo propriedade púbica não deixa de ter regras de utilização de direito, ou achas que não? Que cada um devia ser livre de bloquear os trabalhos do parlamento?

  16. Ricardo G. Francisco

    Manifs, condenadas?

    Eu próprio continuo a pensar em co-organizar em uma manif para cortarem o peso do estado em metade. Bem sei que é pouco mas temos de começar por algum lado.

  17. Ricardo G. Francisco

    FilipeBS,
    Não desculpabilizo os partidos nem os dirigentes destes. Este país está onde está por alguma razão. E se fossem do PCP teria a mesma posição. Estamos ainda longe de ter como única solução uma revolução. Há cada vez mais pessoas em posição de responsabilidade a dar este regime como caduco. On vera.

  18. Francisco Colaço

    Tenho uma estúpida ideia, mas daquelas que pode ter pernas para andar.

    Que tal organizar um Dia da Liberdade Económica, com apresentações curtas acerca de redimensionar o estado e proporcionar um ambiente económico para a prosperidade e o investimento? Poder-se-ia fazer algumas apresentações por Skype do resto do país e vistas em Lisboa, convidados os jornalistas e os telepasquineiros para relatar/assistir.

    Era um modo se se tirar o pulso ao país. Com o André Amaral, o Ricardo Arroja e alguns outros nomes a fazer de âncora, abrindo e fechando o congresso, e alguns anónimos ou quase anónimos como eu, o Filipe e outros a realizarem apresentações curtas (no máximo dez minutos), defendendo o estado mínimo DO RESTO DO PAÍS, haveria causa para sermos criticados pelo poder, notoriamente interessado e corrupto, o que é sempre o início da notoriedade.

    Na Silly Season, estando os jornais interessados em quase tudo o que mexa, há hipótese de se ser ouvido. Se ocorrer a sorte de alguém nos dar como neo-ultra-hiper liberais e carrascos do Estado Sucial (!), upa!, todos notarão o que se fez!

    Estou aberto a que discutamos esta ideia. Ou podemos mais uma vez treinar a lusa habilidade de queixar sem agir e lamentar a nossa sorte. Na última vez que verifiquei ainda tinha pulso e voz. E tendo pulso e voz temos que fazer ouvir a voz.

    Como digo, há sempre que fazer. Bendita democracia!

    (Espero não me arrepender deste acto de voluntarismo! Estou no fundo a tirar o pulso aos nossos insurgentes. Espero não estar na república dos Zombies).

  19. Tiradentes

    Nenhum eleitor tem de se calar após o voto.
    Nem os que nunca passaram dos 20% desses eleitores, a não ser que os restantes 80%, um dia….esgotada a paciência com atitudes fascizantes (ainda que de esquerda) quiserem impor a sua voz por cima da maioria.
    Engraçado como já na Russia fizeram o mesmo quando perderam as eleições, aqui em Portugal sequestraram a AR em 1975 e agora acham-se no direito ou oportunidade de o fazer novamente.
    E chamam eles isso de democracia.

  20. JPT

    Não se perturbam os trabalhos de um Parlamento, como não se perturbam trabalhos de um Tribunal. As pessoas que estão nesses locais a trabalhar (por muito mal que o façam) estão a trabalhar em nome e representação de TODO o Povo e no interesse (abstracto) de TODO esse Povo, pelo que não pode vir um determinado segmento desse povo impedi-los de o fazer, em nome dos seus interesses próprios. Os Tribunais e Parlamentos são casas do Povo TODO, e não do escasso segmento do “povo” que lá vai (supostamente) assistir às sessões. Noto que este é um princípio básico do funcionamento da sociedade ocidental civilizada e que, se o circo de ontem tivesse sucedido na Câmara dos Comuns, o nome certo para os indivíduos que ontem atiraram lixo no Parlamento e insultaram os deputados eleitos por todos nós era, hoje, “arguidos” e “detidos”. Mais: imaginem, por um momento, que a nossa rua não era só vermelha, mas, tal como a rua grega, tínhamos por aí os amigos do Mário Machado a mostrar os peitorais, e que eram eles os autores da “baderna” de ontem. Quem, hoje, de entre os que se mostraram tão incomodados com as palavras da Presidente do Parlamento, não estaria a exigir a prisão e julgamento desses perigosos agitadres? E, melhor ainda, imaginem o dia em que estivessem, cada um na sua bancada, os vermelhos e nossos putativos “auroras dourados”? Era giro, então, defender o direito à manifestação do “povo” na sua “casa”

  21. PeSilva

    JPT,

    A mim não me representam e decididamente não trabalham no meu interesse (antes pelo contrário).

  22. Francisco Colaço

    Tiradentes,

    «sequestraram a AR em 1975 e agora acham-se no direito ou oportunidade de o fazer novamente.»

    Em 75 bem se lixaram. Consta que por esses tempos o Verão andou muito quente.

    Fruto do que é perene na inconstante natureza humana, a história repete-se mais vezes que não.

  23. Francisco Colaço

    JPT,

    Baderna é uma palavra legítima, significando balbúrdia, caos. Está dicionarizada. Não precisa, portanto, ficar entre aspas. Ficará melhor entre revolucionários, bestas quadradas de quadrantes esquerdo e direito, e de comentadores da Quadratura do Círculo.

  24. Bento Norte

    Triste povo que tais figuras faz. A democracia da gritaria é para se fazer na rua, mas tem gente com assento parlamentar que ocupa os dois palcos com igual e elevada desfaçatez. Mais triste ainda é palpitar que muitos dos furiosos ditos populares, que a soldo lá se vão agrupando para onde os mandam, seriam mesmo nossos carrascos ou lacaios ajudantes, se os deixassem na espontaneidade dos fretes para onde e quando lhes pagam a excursão com farnel aviado. As saudades do cerco ao parlamento ainda ocupam muitas cabeças que se valem da democracia para a tentar enterrar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.