FAQ sobre a Greve Geral

Para quem hoje procure algumas respostas liberais sobre a Greve Geral de hoje, aqui ficam as minhas:

1. Quantas pessoas aderiram? Portugal tem mais de 4 milhões de trabalhadores (a população activa passa de 5, mas 1 está no desemprego real – mesmo que não esteja no estatístico). Destes 4, menos de meio milhão participou em alguma greve nos últimos 5 anos, e a de hoje não deve ter passado dessa barreira. A UGT sonhou com 2. A CGTP tem uma lista com menos de 0,1% dos empregadores do país.

2. Porque foi convocada a greve? Segundo sites especializados – por ex, CGTP e o seu Manifesto – para pedir eleições antecipadas, para substituição constante dos governos até que o Presidente seja obrigado a nomear um governo vermelho. Como foi feito na Alemanha em 1932, mas com greves em vez de saídas do Parlamento
A UGT também fala em pedir a demissão do governo.

3. E qual seria a política de um governo vermelho? De acordo com a mesma literatura – Manifesto, 2ª página – seria: terminar com corte nos direitos adquiridos de todos os trabalhadores, aumentar os salários e as pensões, diminuir impostos sobre estes últimos, aumentar a produção nacional e diminuir importações para criar emprego, melhorar as condições de trabalho e a legislação laboral, assegurar melhor protecção social de trabalhadores, desempregados e reformados, obter receita a partir da taxação adicional dos lucros dos grandes grupos e da banca, fim dos benefícios fiscais e das offshore, romper com a troika e “renegociar” a dívida.

4. Parece tudo muito bom. Porque não? A dívida do Estado Português em 1974 era de 15% do PIB. Hoje aproxima-se dos 130% e a um ritmo que se está a constatar ser impossível abrandar.
A taxação adicional é a especialidade do Gaspar e, como vou dizer aqui amanhã, é filão que se está a esgotar. Essencialmente, grandes grupos já não têm assim tanto lucro e podem sempre passar mais negócio via as sedes no estrangeiro, que neste momento já todas as empresas do PSI-20 têm. E mesmo que se ataque os offshore, mesmo que se tenha sede na Irlanda ou na Holanda já se poupa imenso e ainda com os níveis de hoje. Como eles são países da UE, é impossível evitar isso e assim fura-se a única fonte de receitas adicional.
Renegociar a dívida… só se planearem ter orçamento equilibrados a partir de agora.

5. Mas não é mesmo possível? Infelizmente não. Gostaria eu que fosse – também gosto de direitos e de ganhar mais – mas se fosse concretizável, o governo já o teria feito, pois qualquer governo gosta de fazer coisas populares, como dar benefícios a todos os possíveis eleitores. Basicamente, é um plano infantil e impossível de concretizar por falta de dinheiro. E por isso mesmo que seja pedido na rua e por pessoas primárias, e sem grande jeito para a matemática.

6. Devo então assumir que está tudo bem, é isso? Longe disso! O país está a viver a maior crise desde o fim da Monarquia e este governo de facto não está a dar conta do recado. Faltam medidas de corte na despesa. Falta coragem de enfrentar os lobbies.  Por Daus, falta mesmo a união dentro do executivo! E falta um sentimento de justiça nas medidas que estão a ser tomadas, que têm de ser sentidas também por quem mais têm.

7. Quais seriam então as medidas mais urgentes a serem tomadas, de uma perspectiva liberal? Essa é a pergunta de 1.000.000. Aqui ficam algumas sugestões (e vou evitar baixar impostos, pois esta lista visa equilibrar o défice):
I – Denúncia dos contratos das PPP. Alternativamente, taxação de uma elevada parte dos benefícios assim concedidos às construtoras.
II – Salvamento dos bancos pelo BCE e não pelo Estado. Alternativamente, falência dos mesmos e aplicação restrita do Fundo de Garantia dos Depósitos até ao limite deste.
III – Venda imediata de todo o sector de transportes ao melhor perço, para permitir concentrar o Estado nas funções mais essenciais.

5 pensamentos sobre “FAQ sobre a Greve Geral

  1. Isto é demasiado para a compreensão de comunas e afins (onde incluo certa extrema-direita). Dê-se uma vista de olhos pelos blogues comunas e o que há ali é uma incapacidade de perceber a realidade que é de uma dimensão assustadora. Querer argumentar racionalmente com esta gente é como querer argumentar com um calhau – a diferença é que este, ao menos, não diz disparates. Insistem na tecla de que este governo é ilegítimo porque não teve a maioria dos votos dos portugueses (há que tornar então o voto obrigatório), comparam-no constantemente ao do Estado Novo, repetem a ladainha de “Abril” e dos “direitos”. É gente que tem contribuído alegremente para a destruição do país desde 1974, mas que vai tentando passar entre a chuva sem se molhar fazendo crer que a culpa é só da tríade PS/PP/PSD. É impossível falar com gente que ainda não percebeu que estamos em 2013 e não em 1974, parou com as leituras em 1953 e sonha com Portugal a ferro e fogo como prelúdio para o paraíso socialista.

  2. A sua medida I pode riscá-la porque seria o equivalente ao “Renegociar a dívida” mencionado em 4. Não há nesta altura “benefícios assim concedidos às construtoras”! O bem bom já ocorreu na altura da construção, agora sobra apenas um project finance muito alavancdo e com trafego mt abaixo dos cenários de trafego feitos na altura. Ou seja, não há cash-flow disponivel para o accionista que possa ser objecto de renegociação, pelo que quanto muito haveria serviço da dívida para renegociar, mas com um efeito mortal no pricing dos financiamentos (que obviamente seria revistos, pois foram definidos no tempo da maria caxuxa. Já para não falar na desmontagem das estruturas de hedging acopladas, que devem ter valor negativo (não tenho a certeza).
    E seria sempre visto pelo mercado como um equivalente a um default soberano.

  3. Agora faça um exercício semelhante e verá que o mito dos 6 milhões é igualmente uma treta, nem 3 milhões são…

    E também não se pode conversar com essa gente…
    Já dizia um amigo meu: “Herança de Salazar: pobres e benfiquistas”.

  4. Comunista

    “III – Venda imediata de todo o sector de transportes ao melhor perço, para permitir concentrar o Estado nas funções mais essenciais.”

    – ou seja, o principal não é o serviço de transportes mas sim vendê-lo, pouco importando se fica uma bela merda ou não. Isto é o liberalismo.

  5. Pingback: João Cravinho, liberal ou lafferiano? | BLASFÉMIAS

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