À ordem de: Portugal

scheck-griechenland

Se há exercício que não me apraz fazer, é o da previsão. Mas nada é tão certo, tão expectável, quanto a recorrência ao argumentário de que a solução para Portugal está lá fora. No Banco Central Europeu, na solidariedade europeia, na federalização, na mutualização da dívida, num cheque em branco à ordem do país.

O discurso ancora-se no que o Banco Central Europeu pode fazer por nós. Permite resolver crises de liquidez? Sim. Permite ganhar algum tempo? Claramente.

Mas o crucial nesta discussão é o que o BCE não pode fazer por nós.  O BCE não pode corrigir o excesso de endividamento das famílias, empresas e Estado. O BCE não pode garantir a sustentabilidade das finanças públicas. O BCE não pode alterar a estrutura produtiva do país — tornando Portugal um país mais competitivo, com produtos de valor acrescentado e alto nível de tecnologia. O BCE não pode reorientar uma pequena economia aberta com um mercado interno esclerótico para o mercado internacional de bens transacionáveis. O BCE não pode reformar a justiça. O BCE não pode reduzir a despesa pública, rara tarefa na qual o Estado é, de facto, exímio: a de gastar.

Em suma, o BCE não pode efetuar as reformas estruturais que têm impacto na taxa de crescimento de longo prazo do país. Pior ainda, as políticas de facilitação monetária mantêm o Estado no seu estado habitual, o de coma induzida. Adiam as tão necessárias reformas. Adiam a necessária desalavancagem. Adiam a consolidação fiscal. Dinheiro fácil e taxas de juro baixas desintegram o equilíbrio entre aforradores e investidores: torna-se mais fácil pedir emprestado do que emprestar. E isso tem data de expiração.

Esta é, aliás, a opinião do Bank for International Settlements, no último boletim emitido. Em boa verdade, já outros o haviam dito (escrito, aliás), incluindo William White da Reserva Federal de Dallas.

Tal como Martin Wolf na coluna desta semana do Financial Times, não concordaria com uma saída abrupta do BCE e um aumento brusco das taxas de juro. No entanto, e penso ser esse o objectivo do BIS, a tónica tem de estar não no que os BCs podem fazer por nós, mas o que nós podemos fazer por nós mesmos, opinião também partilhada pela coluna Buttonwood da The Economist. Um cheque em branco é sempre bem vindo, mas não iria resolver (quase) nada.

Um pensamento sobre “À ordem de: Portugal

  1. Surprese

    Nós fazermos por nós???? Que disparate, então conquistámos o direito de voto para quê???

    Queremos votar nos políticos que nos prometem resolver tudo sem problemas para nós, e SEMPRE com o dinheiro dos outros.

    Ou seja, alguém que consiga roubar legalmente. Aliás, um caloteiro seria o ideal.

    De facto, no final deste raciocínio apenas posso concluir que este governo tem de ir embora, e vir algum que seja capaz de fazer o que acabei de escrever.

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