Educai-os senhor, que eles só sabem o que ensinam

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A escola patriótica da União Soviética.

Quando afirmei que um liberal pode estar a favor de uma greve, o objectivo não era o de demonstrar o mérito da minha proposta educacional, tarefa para a qual existem pessoas melhor qualificadas que eu, mas provar que as manifestações ainda não foram, tanto quanto sei, monopolizadas pela (extrema) Esquerda. Aliás, estou estão convicto da capacidade reivindicativa dos liberais que, fosse hoje uma greve em defesa de menos intromissão do Estado nos bens do comum, prontificar-me-ia a ocupar um lugar cativo, a orgulhosamente erguer o punho em riste e, crucial à praxis do manifestante profissional que se preze, ostentar uma qualquer t-shirt ou bandeira de um qualquer sanguinário de outrora. Tudo isto, enquanto bato com os tachos nos fachos. Ou em quem quer que seja, que o sujeito não ofusca a causa.

Posto isto, e até porque a discussão que se gerou foi muito interessante, cabe-me explicar, então, a motivação da minha proposta educacional. […]Não é que ela seja muito relevante — afinal, temos uma enorme elite intelectual diariamente preocupada com estes problemas, relegando as pequenas minudências para a vox populi e inundando o espaço público com propostas interessantíssimas de reforma do ensino público, propostas essas que de tão abundantes, espantam tudo o mais. Tanto que teria dificuldade em citar apenas um punhado delas.

Assim, não havendo melhor, fica a minha. O sistema de ensino focar-se-ia em três importantes pilares, dos quais derivaria tudo o resto. Descentralização, autonomia e experimentalismo.

Descentralização. Se hoje se torna impensável uma economia planeada, com os meios de produção controlados por uma iluminada minoria e os desígnios da população à disposição dos itinerantes dos comités e dos conselhos, também o deveria ser, presumo, a ideia de uma educação centralizada, decidida de Montblanc preta. Cada cidade, cada região, cada terra tem as suas especificidades e as suas próprias necessidades. O seu clima, as suas intempéries, a sua cultura. Os seus gostos, as suas vontades. Não compro a ideia de que alguém no Ministério da Educação seja capaz de reunir todos estes desejos e vontades e arquitectar, centralmente, um plano para cada um dos seus subordinados. As escolas, os professores, os alunos, pois claro. Nós.

Autonomia. Decorre de forma lógica e natural que um sistema descentralizado atribua o ónus da decisão aos seus satélites. Caso contrário, não seria descentralizado. Dotar as escolas de autonomia significa que depositaríamos na escola a responsabilidade de se organizar. Livremente contratar e despedir professores, fazer uma aposta numa ou outra determinada área, privilegiar determinado desporto ou actividade extra-curricular, definir o seu programa pedagógico e metodologia de ensino. Ensinar yoga. Ou rugby. Ou aulas de teatro. Enfim, todas as demais atividades afectas ao ensino. Diferenciar-se. Evidenciar-se. Por contraste à homogeneização do atual sistema, em que um programa comum faz emergir uma mediocracia comum.

Experimentalismo. Grande parte da ciência progride numa processo ininterrupto de tentativa e erro. Assim o é e assim o será. É um processo heurístico, gradual, iterativo, de aperfeiçoamento contínuo. No entanto, o atual sistema de ensino não tem qualquer permeabilidade a novas tentativas. Os programas são rígidos e impostos, a metodologia é estanque e monótona, e os professores revolucionários — leia-se, os que tentem algo novo — são rapidamente absorvidos pelo pensamento monolítico do status quo. Se a autonomia é a irmã da descentralização, o experimentalismo é o filho adoptivo. Algumas escolhas iriam falhar, alguns programas iram fracassar, mas tantas outras, fruto de uma salutar competição e inovação, iriam expor novos métodos e novas pedagogias. Os melhores serviriam de exemplo, os piores seriam reformados. Mas o sistema evoluiria. Como está, o mau continua mau e o bom fica pior.

Para que estes três pilares sejam exequíveis, seria necessário um novo modelo de financiamento. Em alternativa ao financiamento universal da escola em função do número de alunos que abarca, o financiamento seria, antes de mais, discricionário. Competirá ao Estado ajudar aqueles que verdadeiramente precisam. Como tal, o financiamento seria atribuído ao aluno, competindo a este (e aos seus pais) tomarem a decisão de escolher a escola que será melhor para ele. É também uma questão de equidade. Atualmente, os alunos pobres estão reféns da sua própria condição, podendo somente sonhar, mas não alcançar, uma escola que os permita singrar e não sangrar. Somente os ricos podem escolher. Mais ainda, as escolas privadas estão sujeitas a uma competição injusta, dado que a escolha é sempre, em última análise, financeira. O não-pagamento na escola pública (upfront, porque ele está lá, todos os anos, no OE) e a propina no privado. Um diferente modelo de financiamento daria a liberdade de escolha e a possibilidade de todos, independentemente da sua condição socioeconómica, almejarem a estudar num sítio melhor.

No final, e estas palavras não são minhas, o Ministério da Educação implodiria. Ficaria somente uma secretaria de Estado cuja competência se limitaria à elaboração de exames nacionais, ao financiamento selectivo, à concepção de um plano base de educação (exigir que se ensine Matemática e Português, por exemplo) e a assegurar que não existiria nenhuma situação inconstitucional, como aquelas que são frequentemente referidas pelos opositores deste modelo — o ensino e prática do neonazismo, por exemplo. Curioso, contudo, que esses mesmos opositores não se sintam igualmente importunados quando muda o ator e, em vez de Hitler, se enaltece Stalin. São escolhas. E para aqueles que constantemente alertam para a eventual “guetização” das escolas (processo, ainda assim, melhor que uma eventual “guterrização”), deixo algo para pensar. No colégio privado que esteve em primeiro lugar nos rankings públicos nos últimos anos, 80% dos alunos entra com 3 anos, idade que, diria, é difícil perceber se estamos perante um narcotraficante de cariz hooligan em part-time na Frente Nacional e com honoris causa no KKK, o que levaria a escola a rejeitá-lo. Aliás, seria precisamente esta liberdade de escolha, e a liberdade da escola de poder aceitar o aluno, que provavelmente o retiraria do círculo da pobreza e da escola institucionalizada e abandonada que, essa sim, o abandonaria à sua sorte. Ou azar.

Adenda: com experimentalismo quero dizer, por exemplo, os programas KIPP, que têm tido um enorme sucesso nos EUA e que não seriam possíveis no atual enquadramento rígido das escolas públicas portuguesas. Para quem quiser saber mais sobre o programa KIPP e sobre charter schools, este artigo da The Economist é esclarecedor. Quanto aos teoréticos do segregacionismo, os suspeitos do costume, deixo-os com esta citação

The worst fears of sceptics (that charter schools would siphon better teachers and better prepared students away from traditional public schools; that the result would intensify economic and ethnic segregation) have not been realised.

57 pensamentos sobre “Educai-os senhor, que eles só sabem o que ensinam

  1. Hugo

    Bem MAL,

    Não esperava ver esse tipo de clareza de espirito aqui neste blog. Gostei de ler.

    Aproveito para deixar um texto adequado ao tema, que, embora não partilhe da mesma visão redutora do estado, também não o defende.

    1) QUAL O PROPÓSITO DO SISTEMA EUCATIVO?

    Existem duas visões principais e totalmente dispares sobre este assunto. A saber:
    – a tradicional, que defende que o maior propósito é iluminar as pessoas. Nesta visão o maior objectivo da vida é inquirir, criar, aceder às pontes do passado procurando internalizar os pontos que são importantes para si e lhe permitam continuar a sua vida de uma forma independente. O grande objectivo é ajudar as pessoas a aprender por si próprias. Dependerá, portanto, de si para determinar o que irá aprender e que objectivos perseguirá ao longo da vida.

    – o outro conceito da educação é a doutrina. As pessoas têm uma ideia que desde a infância os jovens devem ser introduzidos numa estrutura onde aprenderão a seguir as regras, a aceitar as estruturas existentes, a não as questionar. Por exemplo, na ressaca do 25 de Abril constatou-se que em determinadas instâncias as estruturas doutrinais (as escolas, universidades, as igrejas, etc) não estavam a funcionar de forma correcta, porque havia demasiada liberdade e era preciso que estas estruturas recuperassem a ordem e o controlo da doutrina. Desde então que tem havido um percurso percorrido em direcção a uma cada vez maior doutrina e controlo, a vocações profissionais, impondo uma ‘divida’ aos estudantes por forma a evitar que se questione o sistema.

    Estes são as duas principais visões do sistema educativo. Existe uma luta constante entre estas duas perspectivas. E uma pergunta ilumina claramente este assunto: nas escolas ensina-se a passar nos exames ou ensina-se a questionar de forma criativa, perseguindo interesses que nascem do material apresentado, seja de forma individual ou colectiva?

    Não podemos negar que existem sistemas poderosos na nossa sociedade que preferem a doutrina, a que não se questione o poder instituído, a que os indivíduos ocupem o seu lugar designado e que não questionem nada.

    É uma opção que todos temos de fazer, quer sejamos alunos, professores ou pessoas no exterior do sistema educativo. O que queremos para a nossa sociedade?

    2) O IMPACTO DA TECNOLOGIA

    Certamente que o nascimento da internet é um marco na história da tecnologia, pelo modo como modificou a comunicação e a cultura do mundo, mas devemos ter presente que os avanços tecnológicos mais recentes pouco se comparam com outros avanços tecnológicos na história do mundo. Por exemplo com a invenção do telegrafo no séc. XIX, por Samuel Morse (e a necessária invenção do código Morse), o tempo necessário para uma mensagem percorrer as distancias entre dois pontos foi reduzido drasticamente.

    O mesmo se passa com outros tipos de tecnologia. Por exemplo, a invenção da canalização foi mais determinante para a saúde humana que a descoberta dos antibióticos.

    Relativamente à relação que existe entre a educação e a tecnologia, a tecnologia é, em si, basicamente neutral. Tal e qual um martelo. O martelo não se importa se é utilizado para fabricar casas ou utilizado como meio de tortura: partir a cabeça a alguém. O martelo pode fazer ambas as coisas com eficácia.

    O mesmo se passa com a internet. A internet é extremamente valiosa quando sabemos o que estamos à procura. Toda a gente a utiliza para pesquisar. Se soubermos o que estamos à procura temos uma estrutura que nos permite perseguir o nosso interesse e colocar de parte as coisas que não estão relacionadas com o que queremos. É uma ferramenta extraordinária. Obviamente, que temos de estar aptos a questionar-nos se a estrutura que temos é correcta e se estamos a ir na direcção desejada; se necessário, saber adapta-la face a novas informações que recebemos.

    É fundamental ter um objectivo que guie a nossa utilização da internet. Não se pode esperar que alguém se torne um Biólogo, dando-lhe acesso à biblioteca de Biologia de Harvard e dizer-lhe: transforma-te num Biólogo. O mesmo se passa na internet, exponenciado imensamente.

    Se não se souber ou compreender o que se procura, se não se possuir essa estrutura, ressalvando sempre a sua constante atenção e supervisão, então navegar na internet é apenas ir ao encontro de factoides ao acaso que não significam nada. Portanto para a correcta utilização dos novos métodos tecnológicos é imperioso ter uma estrutura sem a qual os benefícios da tecnologia se podem transformar em malefícios. Por exemplo, navegar sem rumo na internet é uma forma de gerar cultos, apanhando um factoide aqui, outro acolá, sendo influenciado pela opinião de alguém e de repente temos uma perspectiva do mundo que tem alguma relação com factos mas que nada tem a haver com o mundo.

    Tem que se saber como avaliar, interpretar e compreender. Voltando ao exemplo da biologia, a pessoa que ganhou o prémio Nobel da biologia não foi quem leu mais estudos científicos, foi quem sabia o que estava a procurar.

    Cultivar essa capacidade de pesquisar o que é importante, questionando sempre se se está no caminho certo é o papel da educação, quer seja na utilização da internet ou utilizando papel

    3) CUSTO OU INVESTIMENTO

    Custa a crer que ainda hoje se discuta se a educação é um investimento que valha a pena, se será útil para o crescimento e desenvolvimento económico de um país. É uma forma muito estranha e restrita de observar o papel da educação. Queremos uma sociedade de indivíduos aptos a aprender com os avanços passados e que sejam capazes de resolver os problemas actuais ou queremos uma sociedades de indivíduos capazes de melhorar o nosso PIB? A educação deverá servir para formar melhores indivíduos.

    Se pensarmos por exemplo, no nascimento e desenvolvimento da era informática, observando sobre o prisma de ‘custo ou investimento’ chegamos a uma resposta fácil. Muitas das ferramentas que hoje tomamos como habituais e certas, nasceram em laboratórios universitários do MIT, que juntavam as diversas perspectivas de estudo (ciência informática, filosofia, sociologia, matemáticas, engenharias, etc), financiadas publicamente pelo estado Norte Americano e que se debatiam com questões até então nunca experienciadas. Ou as artes clássicas por exemplo, que vêem nascer novos mestres que, apoiando-se sobre os ombros dos mestres antigos, conseguem ver mais longe e criar coisas novas e maravilhosas.

    Nada disto nasceu do nada. Se não houver um sistema educativo e cultural vivo, que esteja direccionado para o encorajamento da exploração criativa, o pensamento independente, a disposição para quebrar barreiras e fronteiras e questionar crenças aceites… Se não tivermos isto não vamos conseguir obter os frutos culturais e económicos resultantes.

    4) AVALIAÇÃO vs AUTONOMIA

    Existe uma tendência no sistema educativo actual, desde a educação primária aos estudos superiores, em torno da capacidade de superação dos exames.

    Fazer testes pode ter alguma utilidade. Tanto para a pessoa que está a ser avaliada, de forma a perceber em que ponto está, como para o avaliador, por forma a modelar a formação e adequar os processos de ensino mas, para além disso, os testes não servem para mais nada.

    Uma pessoa pode se dar maravilhosamente bem em todos os exames sem entender nada do estudo. Todos nós já passámos por esta situação, seja no secundário ou na faculdade: podes ter tido uma matéria pela qual não tinhas interesse, mas em que tinhas de passar um exame. Então estudas duramente para o exame, tens boa nota e passado duas semanas já não te lembras de nada sobre a matéria. Tenho a certeza que todos nós já passamos por esta situação.

    Os exames podem ser um instrumento útil se contribuírem para os objectivos construtivos da educação, mas se forem apenas uma série de barreiras que tenham de ser ultrapassadas, podem se tornar, não só insignificantes, como nos desviarem de outros caminhos que devíamos estar a percorrer.

    Todos os dias estas situações acontecem com os professores ‘obrigados’ a advertir os seus alunos a concentrarem-se na matéria dos exames; face a outras que estes poderiam querer perseguir, tanto porque isso implica a avaliação final nos exames nacionais dos alunos como no futuro trabalho dos professores, que são avaliados quanto ao sucesso dos seus alunos (e podem ser despedidos). O sistema está desenhado para que ultrapassem estas barreiras dos exames, mas não para aprenderem, investigarem, questionarem e perseguirem os seus interesses.

    Estes estudantes poderiam se dar melhor na vida, caso os professores os ensinassem a perseguir os seus gostos, mesmo que não tenham avaliações tão positivas nos exames, sobre assuntos nos quais não têm tanto interesse.

    Não acho que os testes devam ser eliminados, pois têm o seu papel importante na construção de uma educação, mas a sua importância deve ser questionada e observada por outro ponto de vista além do presente.

    Passar nos exames não se consegue sequer comparar à aprendizagem que deriva da investigação e da pesquisa que acontecem quando derivam de assuntos que prendem o nosso interesse. A memória funciona melhor quando nos interessamos genuinamente por algo e é isso que será útil caso prossigamos por uma profissão relacionada com essa curiosidade.

    Educar deveria ser sobre inspirar os alunos a descobrirem por si mesmos, a desafiarem caso não concordem, a procurarem alternativas se eles pensam haver melhores, a trabalharem nos grandes feitos do passado e a tentarem domina-los sozinhos porque têm gosto nisso.

    Educar é ajudar os alunos a atingirem um ponto em que conseguem aprender por si próprios, porque é isso que irão fazer pelo resto da vida, em oposição à absorção de matérias que lhes são estrangeiras para passar os exames.

  2. Jónatas

    A decisão de todo o custo de educação recair sobre os pais implica que, num País pobre como Portugal, muita gente não tenha capacidade para escolher escola nenhuma para os seus filhos. Acham mesmo que é possível tornar a educação num mercado sem que os preços subam? E acham mesmo que a grande maioria dos pais em Portugal tem dinheiro para pagar a educação dos filhos dessa maneira?

    O vosso grande plano resultaria numa e numa coisa só : nem toda a gente vai ter educação básica. O vosso grande plano resultaria num Portugal menos educado. É isso que quer dizer tudo o que está aqui.

  3. Hugo

    Pelo que entendi estamos a defender o acesso universal à educação. Ninguém aqui, pelo menos até agora defendeu a transferencia do investimento educacional do estado para os pais.

  4. Hugo, em relação ao ponto 1), penso que não duvidará que defendo uma perspectiva iluminista e crítica do ensino e tudo menos doutrinária. Atualmente existe uma doutrina vigente. A da média. Tudo majorado pelo menos mau dos maus.

    Quanto ao ponto 2), a tecnologia é fundamental, mas ditar como e onde deve ser usada acaba por rebater no problema do costume. A formatação das crianças. Dizer o caminho é uma coisa, obrigá-las a seguir, é outro. A exploração é fundamental, como é expô-la à crítica racional. Se uma criança um dia defender o neonazismo, compete ao professor contrapor devidamente.

    Relativamente ao ponto 3), acho que toda a gente vê a acumulação de capital humano como um valioso investimento. A questão não é essa. É como esse investimento deverá ser feito. Se pelas famílias ou se, de forma universalista, pelo Estado. Eu acho que, em última análise, o acesso à Educação deve sempre ser assegurado, pelo que quem não tenha recursos financeiros para o fazer deverá ser auxiliado. Mas todos os outros dispensarão certamente o paternalismo.

    No ponto 4), autonomia e avaliação não são mutuamente exclusivas, pelo contrário. A avaliação é importante para definir uma escala meritocrática. Não somos todos iguais, não é tudo igual, e dar incentivos a quem se esforça é uma recompensa que se reflecte em resultados. Permitir o ócio não costuma dar bons resultados.

  5. Jónatas

    Foi o que percebi quando o Mário refere que “competirá ao Estado ajudar aqueles que verdadeiramente precisam”. Não vejo nada de universal nisso.

  6. Jónatas, pensei que tinha deixado isso claro no texto. As famílias carenciadas terão sempre acesso a financiamento para que a educação dos seus filhos esteja sempre assegurada. Podem é escolher onde os colocar.

  7. Jónatas

    Foi isso que percebi também, Mário. A questão é : onde é que no País real das famílias que não são pobres (ou seja, onde os pais ganham entre 600 e 1000 euros), há espaço no orçamento para introduzir mais esta despesa? É tão simples quanto isto.

    Sou razoável, acho que esta vossa ideia deve ser debatida. Mas não acho que seja possível, com a vida como está, fazer isto de outra forma senão com o Estado a financiar. Você tem noção da quantidade de crianças de classe média (repito, classe média) que chega às escolas sem pequeno almoço tomado porque não há nada em casa?

  8. Hugo

    Quanto à disposição dos alunos pelas escolas, defendo um acesso meritocrático (com limites geográficos naturais) em oposição ao acesso por geografia (com divisões meritocráticas nas turmas).

    Quanto ao financiamento, defendo o financiamento total da educação: manuais escolares (que teriam de acabar com esta palhaçada de cada ano cada programa novo), transporte, alimentação, mensalidade para o estudante do ensino superior fazer face a despesas.

    Basicamente defendo uma educação ao estilo “Nórdico”.

    Quem já me ‘conhece’ sabe que não sou liberal, mas talvez não saibam que tenho objectivos maiores acima das inclinações políticas. É mais importante para mim o equilíbrio entre as classes sociais, que é garante de uma sociedade saudável e equilibrada, que qualquer outro assunto. Se se atingir esse objectivo com um estado reduzido, de mim só obterá apoio.

    A educação é um dos maiores pilares da mobilidade social e como tal deve ser o maior investimento da sociedade.

  9. Epic fail?

    “Você tem noção da quantidade de crianças de classe média (repito, classe média) que chega às escolas sem pequeno almoço tomado porque não há nada em casa?”

    Atrevo-me a dizer que o MAL deve ter. E depois? É para isso que a Tia Jonet serve. *rimshot*

  10. Hugo

    Acho que estamos de acordo em muito mais do que em desacordo, embora me pareça que o Mário não o tenha compreendido.

    1) estamos na mesma página certamente.
    2) eu defendi que se deva ensinar a pescar. O Mário depreendeu outra coisa? No exemplo que deu, sobre o nazismo, acho que se deve dar a liberdade do aluno estudar o assunto, mas sempre com a base moral que é também o papel do professor. Deixa-lo pesquisar não quer dizer que concorde. Quer dizer que está a estudar os problemas do passado e a forma como se lidou com eles.
    3) se todo o ensino for público de qualidade não haverá paternalismos. Aqui é onde discordamos 🙂
    4) não exclui a avaliação, reduzi a importância que tem hoje em dia. A primeira pergunta amigável que um adulto faz aos miúdos, sobre a escola, muitas vezes é: tens boas notas? Deveria ser: qual a matéria que gostas mais? É uma diferença de base filosófica muito importante.

  11. Hugo

    Jonatas, pois. Tens razão. O caso português não nos permite reduzir o estado social mantendo a qualidade de ensino… Bem como a qualidade da saúde (cof, cof)

  12. Ricardo Monteiro

    Gosto tanto da última parte do texto sobre a criança de três anos. E parece que foi escrita para ela também. E vai haver tantas crianças de Chelas a ir estudar para Campo de Ourique e vice versa. Tantas. Viva a útopia! Abaixo a realidade!

  13. Hugo

    MAL não existe forma de comunicação de baixo para cima neste blog? Isto está bem ao jeito dos shareholders mas os stakeholders têm algo a dizer também! Estava na altura deste blog dar uma guinada do estilo americano para o estilo alemão, digo eu.

    Gostaria de propor um desafio aos Insurgentes e não encontro forma de o fazer num espaço comum, daí que estou a utilizar este espaço.

    Consegues entrar em contacto comigo através do mail que disponibilizo para me autenticar aqui? Obrigado!

  14. Jónatas, uma família que ganhe 1000 Euros certamente que incidiria nas famílias que necessitariam de financiamento para a Educação. Já, sei lá, uma família verdadeiramente média (600 e 1000 Euros é pobre, não é média) que aufira 30k/ano certamente que pode, se a carga fiscal o permitir, optar entre uma escola pública e uma privada, sendo que pagaria por qualquer uma delas.

    Uma reforma destas não pressupõe os níveis bárbaros de tributação atualmente em vigência em Portugal.

  15. Fábio

    Dizer que se a educação não for pública muita gente não consegue adquiri-la faz estranhamente lembrar o mesmo argumento para a alimentação que era usado há uns anitos nalguns regimes: “Se não for o estado a garantir a distribuição de comida tanta gente vai passar fome!”. Diz-se que um dirigente soviético uma vez em Nova Iorque terá perguntado quem era o responsável pela gestão do fornecimento àqueles cafés e padarias todas, querendo conhecer quem e que sistema de gestão conseguia garantir tal aquela abundância àqueles preços. O homem naturalmente ficou chocado ao saber que era o “mercado” que geria.

    Se o financiamento que agora é dado ao sistema de ensino for dado aos alunos em vez de às escolas, os mesmos alunos que já tinham apoios continuarão a tê-los, apenas ganham a possibilidade de escolher e as escolas ganham a motivação de fazer algo para captar os alunos. Dizer que um sistema público tem que ser necessariamente mais barato ou melhor que um de mercado não só não faz sentido como não é comprovado por nenhuma estatística, antes pelo contrário.

  16. Francisco Colaço

    As únicas áreas em que a União Soviética se esmerou foram aquelas em que estava em competição internacional: na defesa e no espaço.

    No resto foi uma hecatombe. A competição gera a melhoria. Deem um peixe a um homem e ele simplesmente irá deixar de saber pescar. No caso da educação, a competição entre escolas é saudável, desejável e fantástica.

    Quanto ao que o Hugo disse que há novas componentes de despesa: não há despesa adicional. basta dizer que:

    1) O cheque-ensino deve cifrar-se em 75.000 euros por turma (mais ou menos o custo real de uma turma pelos dados do próprio Mentistério). Cada escola recebe esse valor, capitado ao aluno, estando sujeita a:

    1.1) Condições educativas (alunos por turma, qualificação dos professores, estado das instalações);
    1.2) Obrigação de realizar exames anuais a todos os alunos, se necessário em duas épocas (e valendo a melhor das notas, por causa de os alunos poderem ter um azar numa das épocas);
    1.3) Obrigação de cumprimento de um programa mínimo, podendo estendê-lo ou complementá-lo como acharem por bem;
    1.4) Obrigação de manutenção de registos pormenorizados e da sua facilidade aos auditores de escola;
    1.5) Obrigação de produzir os livros escolares necessários, ou manter um serviço de empréstimo dos mesmos às famílias (e e aqui que os editores me queimariam vivo).

    2) O financiamento é para o aluno, que leva à escola onde se matricula o dito cheque, sem sequer tocar em dinheiro, ou mesmo no dito cheque (que nem precisa de existir).

    3) Para evitar fraudes, todas as escolas serão auditadas periodicamente (uma vez por dois anos). Visitas surpresa devem também ser realizadas sem aviso prévio. As famílias devem confirmar na Junta de Freguesia a matrícula dos seus filhos, com o respectivo número de identificação fiscal, na referida escola (há que evitar falsas crianças, e crianças duplamente matriculadas).

    Completem, se quiserem. Mas no fundo basta isto. Mais digo, ponham-me uma escola nas mãos, e vão ver se 1) não sobe a qualidade e 2) não desce custos, no prazo de um ano lectivo completo. É exactamente por isso que defendo que os professores não devem ser directores administrativos e financeiros de escola. Devem estar nestas posições quem já tem experiência em empresas privadas, onde o financiamento não é adquirido.

    Uma escola, para ter alunos, tem de ser excelente nos exames nacionais. Afinal, é para isso que lá está. Uma escola «fácil» seria preterida pelos pais, os primeiros interessados em que o rebento singre. Um professor ébrio (já caso real aqui na Beira Interior) ou pedófilo (estamos fartos destes casos) seria afastado pelo director, e nunca tolerado. O dito professor traria mau nome à escola e, por arrasto, o seu meio de sustento, que está na captação de novos alunos.

  17. lucklucky

    “Acham mesmo que é possível tornar a educação num mercado sem que os preços subam? ”

    Uns sobem outros descem. Com o dinheiro gasto por aluno seria possível pagar a um perceptor para ensinar um ou dois alunos sem precisar de escola sequer. Para algumas crianças seria o melhor.
    Seria possível ter escolas especialisadas em alunos difícieis, alunos inteligentes, masculinos e vs femininos, alunos que gostam mais de teoria ou mais de prática. em vez do “one size fits all” da mediocridade. Aulas com 15 min , 20 min 30 min 40 min 50min 60 min.

    Este texto mais a maioiria das respostas não contam para muito, quando a educação chegar a sério à internet esperem para ver o que acontecerá, teremos os mesmos argumentos daqueles a quem o status squo agrada hoje. Tudo mudará se a escola suiça/americana/singapura tiver cursos na net que tenham reputação de dar emprego.
    Quem que pode impedir a empresa xyz de aceitar alguém com um curso destes?

    Porque é que todos os alunos têm de estar 12 anos da escola? são todos iguais?
    Porque é que se passa de ano sabendo 50% da matéria em todas as disciplinas?
    Não há algumas que precisam de 80% para se fazer alguma coisa de jeito?

    Desde o Sec. XX que um professor ensina o mesmo número de alunos, desde o Séc XX que um trabalhador produz muito mais carros.
    O mundo avançou até ao séc. XIX sem Escola Publica. A Revolução Industrial não precisou da Escola Pública.
    Sem comida morremos mas a produção de comida é privada. Só baixou de preço com o mercado. É o estado da Educação. Um falhanço completo de destruição de crianças.

  18. Hugo

    O problema em Portugal é que a grande maioria tem esse género de ordenados e dificuldades.

    Reparem na página 11 e na página 20 deste estudo da FFMS.
    75% dos trabalhadores portugueses recebem menos de 1000€ brutos por mês.

  19. Jónatas

    Não sei se sabe, Mário, mas o salário médio líquido em Portugal para 2012 é de 805 euros. E que quase 40 por cento da totalidade de quem trabalha por conta de outrém recebe isso. Pelas suas contas, 40 por cento dos que trabalham são pobres.

    Para além disso, mais de 60 por cento dos agregados familiares não têm uma criança dependente e não é difícil perceber porquê. Acrescente-se mais uma despesa a este orçamento e pode ter a certeza que Portugal terá cada vez menos gente. E esse é um problema bem mais grave do que a escolha das escolas. O que o Estado está a fazer é a tirar este peso de cima das pessoas.

    Quanto à possibilidade de escolha de escolas mas com o Estado a garantir todo o financiamento e continuar a ser gratuito para todos, acho que terá questões logísticas complicadas de resolver mas ultrapassadas. Mas é um modelo que pode ser discutido. Com uma salvaguarda : tem que implicar melhoria de salários às boas escolas e baixa de salários às más. De que é que serve seres a melhor, trabalhares para conseguir os melhores alunos, estar à frente dos rankings e ganhar o mesmo que o pior professor, o pior gestor ou o pior contínuo?

  20. jhb

    “Cada cidade, cada região, cada terra tem as suas especificidades e as suas próprias necessidades. O seu clima, as suas intempéries, a sua cultura. Os seus gostos, as suas vontades. ”

    A isto acrescentaria: as suas leis da Física, Química, Biologia, etc etc.

    Realmente é difícil conceber que um burocrata no ME possa decidir sobre que lei da gravitação universal cada cidade acha que deve ensinar aos seus alunos.

    Veja-se o exemplos dos Estados Unidos. Alguns estados querem ensinar o criacionismo nas aulas de Ciência. Outros a teoria da evolução. Respeitem-se as suas vontades. Isso é que é liberdade.

  21. Carlos Duarte

    Acho que é óbvio que existiria um núcleo de disciplinas obrigatórias (Português, Matemática, História, Ciências Naturais, etc.), com linhas programáticas definidas centralmente, até pela necessidade de os exames serem igualmente centralizados.

  22. jhb

    Só não consigo ver como é que as especificidades de Viseu em relação a Évora podem justificar programas de ensino diferentes nas duas cidades, ou a descentralização educativa que você defende.

    Se quiser elaborar sobre esta questão, agradeço.

  23. jhb, imagine que em Évora é muito quente durante a tarde (que é, no Verão). Porquê forçar os alunos a ter aulas das 14h às 16h? Permitir que, por exemplo, as aulas sejam dadas das 16h às 20h, coisa que atualmente não pode acontecer porque os horários dos contínuos são fixos. É um exemplo, mas mais haveria. Ou então, dado que Évora faz parte do Alentejo, uma região fértil em plantações, permitir que, imagine-se, haja uma disciplina introdutória de agricultura e cultivo. Pode ser do interesse de uma escola em Évora, mas não no Porto ou em Lisboa.

  24. Jónatas

    E quem é que trata dos alunos das 13 às 16? Ficam em casa sozinhos? Vão para um ATL (mais um custo)? As aulas têm os horários que têm porque são compatíveis com os horários de trabalho dos pais. Às vezes, basta sairem uma hora mais cedo e complicam a vida toda aos pais.

  25. Carlos Duarte

    Só é pena esse pensamento estar absolutamente errado. Escolas NÃO SÃO depósitos para alunos.

  26. António Fernando Nabais

    Ainda me está a doer o único abdominal que me resta, de tanto rir. O João José Cardoso comentou este texto no Aventar e custava-me a acreditar que pudesse ser verdade. Este é mesmo o país dos treinadores de bancada e dos pedagogos de sofá. Fico a aguardar pelas lições que o Mário Amorim Lopes irá dar ao José Mourinho.
    Já agora, veja lá se decide se usa o acordo ortográfico ou não.
    Enfim, sem querer abusar e transformar este comentário em divulgação de um blogue que está praticamente desactivado, aqui ficam dois textos sobre o mundo fantástico de um país em que toda a gente percebe de Educação:

    http://osdiasdopisco.wordpress.com/2009/09/13/educacao-e-suas-falacias-amestradas-toda-a-gente-percebe-de-educacao/´
    http://osdiasdopisco.wordpress.com/2009/10/16/educacao-e-suas-falacias-amestradas-toda-a-gente-percebe-de-educacao-parte-2/

  27. ShakaZoulou

    Você tem noção da quantidade de crianças de classe média (repito, classe média) que chega às escolas sem pequeno almoço tomado porque não há nada em casa!!!

    Não hà nada em casa? Nem telemoveis, nem plasmas, nem automoveis diesel de cinco lugares, nem produtos alimentares transformados, nem tabaco atè o jardineiro è pobre, a empregada domestica è pobre, o mordomo è pobre

  28. António Fernando Nabais, pelo tom e conteúdo do post do JJC, ele foi uma vítima de uma má escola.

    Sabe, vivemos num país onde historiadores falam de economia e sociólogos de gestão. Pior ainda, tomam decisões por mim. Portanto, dar-me-ei ao tento de sugerir — sujeito a toda a racionalidade crítica, naturalmente — como eu perspectivo uma melhor Educação.

    Naturalmente que vocês, iluminados homens de esquerda, são sempre os detentores da informação, assim como dos desejos e vontades dos desígnios da população. Não almejo a tanto. Apenas a uma educação melhor (que a nossa ainda continua ao nível da Venezuela [1]) que o JJC tanto carece, e acho que nada que possa ser dito piora o que já temos.

    Por fim, e porque a boa educação assim o exige, esta discussão é melhor conduzida sem ataques ad hominem. Quer contribuir com algo construtivo, refute a ideia. O melhor de si (ou o pior, é uma questão de face) é que o único juízo que conseguiu emitir foi aquele referente a eu deambular entre acordo e não acordo ortográfico. Talvez o JJC não tenha sido a única vítima da nossa escola pública.

    [1] – http://en.wikipedia.org/wiki/Education_Index

  29. António Fernando Nabais

    Ora lá está: como toda a gente fala daquilo que não sabe, o Mário quer usufruir do mesmo direito. Já eu prefiro limitar-me às minhas poucas áreas de conhecimento.
    Se sou relativamente iluminado no que se refere a Educação, isso deve-se ao facto de ser professor e não a ser de esquerda. Aliás, tenho a certeza de que o seu alegado experimentalismo faria rir qualquer professor de direita. Para além disso, não gosto de uma boa parte das ideias que a esquerda tem para a Educação.
    Enviei-lhe duas hiperligações que talvez não se tenha dado ao trabalho de ler.
    Ataques “ad hominem”? Escrever mal é um facto, não é um defeito pessoal. Já agora: é “mais bem” conduzida e não “melhor” conduzida.

  30. AFN, duas notas. A primeira é, permita-me que lhe ensine, uma das primeiras lições de Retórica. A mensagem não depende do mensageiro. Todas as associações lógicas que daí decorram são falácias do tipo straw man, ad hominem, etc. Portanto, para qualquer dos efeitos, o mérito da minha proposta não depende das minhas qualificações. Embora, no entanto, tenha co-fundado uma empresa que (ainda) desenvolve software educativo e, no processo, eu tenha contactado com bastantes escolas, alunos, professores e ainda especialistas educativos por forma a acomodar as necessidades de todos. Mas isso tudo é irrelevante — a mensagem vale por si mesmo.

    Em segundo lugar, veja este meu singelo contributo como a materialização da preocupação de um comum cidadão que ambiciona que os seus filhos tenham uma educação melhor que o JJC e o AFN tiveram. E, pelos vistos, que os seus alunos irão ter.

  31. E, já agora, quando falo de experimentalismo, refiro-me a, por exemplo, os programas KIPP. Aprenda algo aqui [1] ou aqui [2].

    Termino com esta citação

    “The worst fears of sceptics (that charter schools would siphon better teachers and better prepared students away from traditional public schools; that the result would intensify economic and ethnic segregation) have not been realised.”

    [1] – http://www.nber.org/papers/w15740
    [2] – http://www.economist.com/blogs/democracyinamerica/2013/03/education-reform

  32. Hugo

    Acho que todos podemos concordar que dado os exemplos o ensino Nórdico bate aos pontos o ensino Americano.

  33. Hugo,

    http://www.economist.com/news/leaders/21571136-politicians-both-right-and-left-could-learn-nordic-countries-next-supermodel

    “On public services the Nordics have been similarly pragmatic. So long as public services work, they do not mind who provides them. Denmark and Norway allow private firms to run public hospitals. Sweden has a universal system of school vouchers, with private for-profit schools competing with public schools. Denmark also has vouchers—but ones that you can top up. When it comes to choice, Milton Friedman would be more at home in Stockholm than in Washington, DC.”

  34. António Fernando Nabais

    A Retórica dá-nos mais lições e contempla, entre outras figuras, a “auctoritas”, porque o mensageiro também pode ter importância, mesmo que, evidentemente, a qualidade da mensagem seja o factor decisivo. Dito isto, não se pode desvalorizar, repito, o mensageiro. Ora, tenho a certeza de que a sua proposta mereceria a crítica da maioria dos especialistas em Educação, o que inclui os professores, ou seja, os técnicos que lidam, no dia-a-dia, com os alunos, com os programas, enfim, com o terreno.
    Assim, a ideia, entre outras, de que não se deve intervir em quase nada, nomeadamente no currículo, é delirante, mesmo nos aspectos mais comezinhos. Imagine-se o absurdo que seria uma escola constituída por uma maioria de professores comunistas que resolvesse transformar a disciplina de História numa glorificação de Estaline ou uma outra em que, por circunstâncias várias, aparecessem saudosos de Salazar que quisessem obrigar a repor o retrato do senhor das salas de aula ou uma outra em que se acreditasse que todos os homens de descendem de Adão e Eva. Imagine-se, ainda, que um aluno, por qualquer razão, mudava de escola a meio do ano, passando para uma outra com programas baseados em crenças completamente diferentes.
    O seu singelo contributo é ridículo e está de acordo com o experimentalismo que, mais à direita ou mais à esquerda, tem sido imposto às escolas.
    De resto, estou bastante satisfeito com a educação que tive, apesar da propaganda salazarista a que fui sujeito na Primária e apesar do caos provocado pela agitação pós-revolucionária. Estou satisfeito por ter frequentado uma escola pública, em que me foi permitido, por exemplo, estudar Latim e Grego no secundário, quando não havia a obsessão economicista de só permitir abertura de turmas com um número mínimo de alunos. Estou satisfeito com uma escola que me permitiu conhecer razoavelmente um “corpus” bastante alargado de autores portugueses, desde a Idade Média até Agustina Bessa Luís. Estou satisfeito com uma escola que me deu a possibilidade de ficar a saber História, a grande mestra da vida. Estou satisfeito por ter frequentado uma escola que me obriga a ser humilde, por saber que, antes de mim, pobre anão, já muitos gigantes se exprimiram sobre tantos assuntos, como, por exemplo, a Educação. É isso que me permite não fazer figuras tristes a pensar que descobri a roda. Estas são algumas das ideias que procuro transmitir aos meus alunos, procurando que sejam críticos e informados, ao mesmo tempo, até porque, independentemente das suas escolhas, gostaria muito que não fossem parecidos com gente que confunde preconceitos com ideias.

  35. Hugo

    Reitero o que digo: a mim tanto me faz que seja um estado grande ou um estado pequeno, escolas publicas ou privadas desde que assegurem a equidade social, no principio de igualdade de oportunidades e acessos.

    In fact, since academic excellence wasn’t a particular priority on the Finnish to-do list, when Finland’s students scored so high on the first PISA survey in 2001, many Finns thought the results must be a mistake. But subsequent PISA tests confirmed that Finland — unlike, say, very similar countries such as Norway — was producing academic excellence through its particular policy focus on equity.

    That this point is almost always ignored or brushed aside in the U.S. seems especially poignant at the moment, after the financial crisis and Occupy Wall Street movement have brought the problems of inequality in America into such sharp focus. The chasm between those who can afford $35,000 in tuition per child per year — or even just the price of a house in a good public school district — and the other “99 percent” is painfully plain to see.

    http://m.theatlantic.com/national/archive/2011/12/what-americans-keep-ignoring-about-finlands-school-success/250564/

  36. Hugo

    Não se pagam mensalidades nas escolas finlandesas (1ª classificada no PISA), a alimentação é assegurada, os manuais escolares fornecidos e o transporte facilitado nos casos necessários.

    Obviamente que isto implica uma carga de impostos mais alta, mas o resultado é evidente, uma mobilidade social superiores uma igualdade de oportunidades real!

  37. Hugo

    O problema é que nós somos um país de ordenados baixos com empregos de baixo valor acrescentado.

    Logo o nível de impostos que teríamos de considerar para reformar o nosso sistema ao estilo nórdico seria incomportável.

    Quero fazer uma chamada de atenção a alguém que afirmou que segundo dados do MEC o valor por turma é de 75.000€. O privado recebe por turma 85.000€ do estado desde que obedeça a um critério de qualidade que obriga a que duas turmas tenham de ter pelo menos 24 alunos (12 por turma) – ressalvo que isto são dados de 2011.

  38. Hugo

    Ao António Fernando Nabais,

    Também é interessante descobrir que o sistema finlandês (1º nos testes PISA) Nápoles tem exames nacionais. Os exames são feitos a nível local pelos professores adaptados às suas turmas e métodos de ensino.

    O exame nacional eatá altamente sobre valorizado, na medida em que limita a descoberta individual do aluno e a atuaçao dos professores (como meros mensageiros de ensinamentos) face às avaliações pelo sucesso dos alunos.

  39. António Fernando Nabais

    Hugo, não sou um defensor do centralismo absoluto e admito que cada escola tenha, como acontecia, aliás, até Maria de Lurdes Rodrigues, um crédito de horas para projectos específicos de cada escola, o que poderia passar por várias actividades mais ou menos afastadas do currículo nacional. Ao retirar às escolas esse crédito, o tempo dos professores para isso diminuiu, o que quer dizer que a autonomia das escolas diminuiu. Na minha opinião, o currículo essencial e a organização curricular devem ser controlados/fiscalizados centralmente, o que faz ainda mais sentido num país pequeno e com algum atraso.
    Relativamente aos exames, sou, por assim dizer, agnóstico. Penso que o exame nacional é preferível ao exame a nível de escola, de uma maneira geral, porque coloca, em princípio, os alunos em pé de igualdade. De qualquer modo, há, em Portugal, muitos casos em que os exames são feitos nas escolas e corrigidos pelos professores de cada escola: é o caso dos exames de equivalência à frequência.
    O perigo dos exames consiste em levar os professores a exagerar o treino, descurando outros aspectos do ensino, o que é, ainda, consequência de um sistema obsoleto de acesso à universidade, que não deveria passar apenas pelas médias obtidas ou pelos resultados dos exames, porque um bom aluno universitário não se mede apenas por isso (sem querer transformar isto numa crítica aos colégios, houve um estudo da Universidade do Porto em que se concluiu que os alunos dos colégios conseguiam tirar melhores notas nos exames, mas os alunos das escolas públicas estavam mais bem preparados para singrar no ensino universitário).
    A tónica colocada nos exames pode, ainda, prejudicar o percurso dos alunos, patente na chamada avaliação contínua. Por isso, antigamente, e bem, na minha opinião, era possível dispensar de exame, quando se tirava 14 na frequência. Nestes casos, ia a exame quem quisesse subir as notas.

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