Uma derrota em toda a linha

Os valores de adesão que se vão anunciando, e o caos instalado no primeiro dia de exames nacionais, são o culminar e o confirmar de uma derrota em toda a linha do ministro da Educação Nuno Crato.

Depois de meter todas as fichas numa estratégia de intransigência em relação a este processo, conjugada com garantias repetidas da realização dos exames, o cenário a que podemos assistir hoje de disrupção destes é o confirmar do falhanço total de uma estratégia, mas também o confirmar de dois problemas do titular da pasta.

O primeiro, um que partilha com o seu chefe de governo, é que o ministro é demasiado lesto a abrir a boca antes do tempo e a comprometer-se com questões cujo domínio os factos confirmam não estar ao seu alcance. Tornou-se aliás penoso assistir ao evoluir da situação durante o final da semana que passou (e que culminou no dia de ontem), com o ministro a desdobrar-se em aparições televisivas, com o recurso a argumentos de chantagem emocional tentando atingir pais e alunos, e até ao sucumbir da sua autoridade sobre o processo, ao deixar-se ultrapassar pelo anúncio em desespero do colega de governo Poiares Maduro de uma capitulação na vigésima quinta hora, bluff que, tendo sido chamado, agudizou ainda mais a posição do governo.

O segundo problema é, sem dúvida, a confirmação de quais são os resultados que se obtêm quando se tenta ficar de bem com Deus e com o Diabo. A tentativa de Crato de jogar em dois tabuleiros, mais uma vez assumindo garantias que não controla politicamente, é uma estratégia votada ao insucesso, e que cada vez mais compromete a titularidade no cargo do ministro. Crato encontra-se refém simultaneamente da vontade de ser visto como reformista, e da tentação de não afrontar e de apaziguar os interesses instalados na sua tutela, algo que só pode acabar mal – principalmente para o próprio.

Aliás, testemunho do total desnorte em relação a esta questão, é não ter havido qualquer planeamento em relação ao que fazer neste cenário. Confirmado que está o problema nos exames, é sintomático o até ao momento silêncio da tutela, a incapacidade de reacção e a ausência de uma resposta imediata, estudada e tranquilizadora ao problema que foi criado.

37 pensamentos sobre “Uma derrota em toda a linha

  1. tina

    Derrota em toda a linha da Fenprof, isso sim. Ficaram mal vistos por pais, alunos e pela população em geral e a adesão à greve foi muito limitada. No liceu aqui em frente, e em muitos outros, foi um dia normal como outro qualquer.

  2. Rui Sousa

    Não podemos dizer que foi um dia normal como tantos outros. Não foi. Na escola onde os meus filhos andam nenhum dos alunos fez o exame de 12ºano. E são 9 turmas, cerca de 250 alunos. Na minha opinião foi uma derrota para os dois lados: para a Fenprof pois desceu ao nível mais rasca da contestação, utilizando os alunos na guerra. Para o Governo, pois preferiu fazer fincapé e prejudicar milhares de alunos, em vez de adiar a prova para um dia menos carregado de exames. Todos perderam.

  3. tina

    “Para o Governo, pois preferiu fazer fincapé e prejudicar milhares de alunos, em vez de adiar a prova para um dia menos carregado de exames.”

    Bastava o Governo ceder uma vez, para ficar às mãos do sindicato. A partir daí, a Fenprof ameaçaria sempre com greve em dia de exames. Agora pensará duas vezes, as reações dos alunos mostraram que isso não se faz e puseram o público contra eles.

  4. Pisca

    Há que por as coisas no seu devido lugar, “mai nada”

    Diz Marcelo Caetano, num artigo de A Voz, de 26 de Janeiro de 1928:
    Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto, pode na profissão de seu pai ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte da escola da sua profissão e assim deve ser. Na mecânica da escola única, seleccionado por professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre intelectual.

  5. PeSilva

    “Bastava o Governo ceder uma vez, para ficar às mãos do sindicato.”

    E qual a diferença para: Bastava o sindicato ceder uma vez, para ficar às mãos do Governo.

  6. tina

    “Nuno Crato referiu que mais de 70% dos alunos fizeram o exame, segundo os dados provisórios do Júri Nacional de Exames. O Ministro da Educação anunciou que os que não fizeram realizam o exame de português no dia 2 de junho às 9.30. ”

    Grande derrota para a Fenprof.

  7. Surprese

    Foi giro ver duas entidades que considero fracas a degladiarem-se.

    Tenho pena dos danos colaterais (alunos), mas é um argumento para sairem deste campo de batalha e aceitarem que todos estaríamos melhor se o governo privatizasse todas as escolas públicas, celebrando contratos de associação.

    Ter o Estado como monopolista do ensino dá nisto: o supremo interesse dos actores do sistema (professores e políticos) está sempre à frente do interesse dos ‘utentes’.

  8. Alexandre Carvalho da Silveira

    Se o que o ministro Crato afirmou é verdade, mais de 70% dos alunos fizeram o seu exame, e então o título deste post é manifestamente exagerado. João Luis Pinto não conhece aquele ditado chinês com mais de 5 mil anos que diz que ” para se vender a pele do urso, é preciso primeiro matar o urso”?
    Mas também temos de admitir que quando fala em “derrota em toda a linha” se está a referir à nomenklatura que dirige o sindicato dos professores a partir da sede do PÊCÊPÊ!

  9. Joaquim Amado Lopes

    O Ministro fez o que tinha que fazer e, com isso, só merece o nosso respeito.
    Alterar a data do exame não serviria de nada porque a FENPROF marcaria greve também para esse dia e todos sabemos isso. Quem prejudicou os alunos e as famílias foram os professores que fizeram greve e, com isso, deixaram de merecer qualquer respeito.
    .
    Só espero que o Ministro marque nova data para os alunos que não fizeram exame hoje e que a mantenha, independentemente do que a FENPROF faça.
    E, a partir de agora, a FENPROF não tem qualquer autoridade moral para exigir negociações com o Ministério.

  10. “João Luis Pinto não conhece aquele ditado chinês com mais de 5 mil anos que diz que ” para se vender a pele do urso, é preciso primeiro matar o urso”?”

    Também conheço aquela do “vizinho”: que uma morte é uma tragédia, mas que uns milhares delas é uma estatística.

  11. “Alterar a data do exame não serviria de nada porque a FENPROF marcaria greve também para esse dia e todos sabemos isso.”

    “Só espero que o Ministro marque nova data para os alunos que não fizeram exame hoje e que a mantenha, independentemente do que a FENPROF faça.”

    ??

  12. Na escola onde estou todos os alunos realizaram os exames, apesar de ás 8.20 ainda lá andar uma sindicalista a apelar à greve.

  13. dervich

    Mas qual é essa ideia mirabolante de haver um 2ª exame a 2 de Junho (devem querer dizer Julho)?!
    Devem se estar a esquecer que são exames NACIONAIS – têm de ser iguais, para toda a gente e à mesma hora. Bastava um só aluno apresentar-se hoje para fazer exame e não poder fazê-lo para todo o sistema estar inquinado.
    A única forma como se vai sair disto é dar uma nota administrativa qualquer (tipo 12) a toda a gente…

  14. Joaquim Amado Lopes

    João Luis Pinto,
    Oa alunos que não puderam fazer exame hoje têm que o fazer. O Ministro terá que marcar data para essa “2ª chamada” e não deve aceitar sequer a hipótese de a alterar mesmo que seja marcada nova greve para esse dia.
    É assim tão difícil de perceber?

  15. Manel

    Acho que alguém está com medo de perder o tacho e o “emprego”…

    João Luís Pinto, é professor de quê?

  16. Rafael Ortega

    Como é que se vai descalçar a bota de haver alunos que fizeram e outros que não fizeram exame?

    Um exame exclusivo para aqueles que não puderam fazer a prova terá sempre o problema de os alunos que fizeram se queixarem no caso de ser mais fácil ou os que não fizeram se queixarem se for mais difícil.

    Mais uma chatice, como se já não houvesse muitas

  17. DavC

    Crato tem que se demitir, isto é a maior balburdia que já vi em educação em toda a minha vida. Agora haverá alunos com mais quinze dias para se prepararem enquanto outros tiveram que fazer o exame hoje, muitos em cantinas e pavilhões.

  18. JoaoMiranda

    ««Depois de meter todas as fichas numa estratégia de intransigência em relação a este processo, conjugada com garantias repetidas da realização dos exames, o cenário a que podemos assistir hoje de disrupção destes é o confirmar do falhanço total de uma estratégia, mas também o confirmar de dois problemas do titular da pasta.»»
    .
    João Luís Pinto,

    Qual era a estratégia alternativa?

  19. “Qual era a estratégia alternativa?”

    Se calhar demonstrar logo do início que era solidário com as decisões do restante governo, não torpedear as suas iniciativas e corroborar quais são e que serão tomadas independentemente da posição dos sindicatos era um começo.

  20. tina

    “Aparentemente prefere essa redacção à de que 30% dos alunos não fizeram exame. É uma questão de escolhas semânticas.”

    O que eu prefiro é a verdade e se 70% dos alunos ainda fizeram exame isso é uma clara derrota para a Fenprof. O João Luís é que acreditou no charlatão do Nogueira logo de manhã a falar em 90% de adesão dos profs.

  21. tina

    “Segundo Crato, que avançou dados provisórios do júri nacional de exames, “mais 70 por cento dos alunos do ensino secundário realizaram hoje exames nacional de português e 70% das escolas com provas marcadas realizaram-nas a 100 por cento”.”

  22. JP Ribeiro

    Alberto Gonçalves, Diário de Notícias 16/06/2013
    Ninguém ensina os professores?
    “A greve dos professores suscitou um manifesto de apoio por parte de 22 autodesignados artistas, do cançonetista Carlos Mendes ao filhote de Lucas Pires. O manifesto começa com uma relativa evidência: “Sem Educação não há país que ande para a frente.” Infelizmente, prossegue com generalizações diversas, umas difíceis de provar, outras fáceis de desmentir. O tom geral é o de que a classe docente constitui uma entidade abstracta, sempre maravilhosa, incansável e esclarecida. Em Portugal, o sabujismo rende.
    Donde a proliferação dos sabujos. Além de subscrever o texto, o escritor José Luís Peixoto alinhavara, em 2011, um texto pessoal no qual desenvolveu os arrebatamentos líricos e que o site do Bloco de Esquerda agora resgatou: os professores, garante a promessa da ficção nacional, trazem consigo “todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu”. Além disso, os professores “não vendem o material que trabalham, oferecem-no”, visto que “o trabalho dos professores é a generosidade”. Os professores, com “as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás” são, jura o sr. Peixoto, “os guardiões da esperança”. Os professores “ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar”. E quanto a nós, antigos alunos, “basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores”.
    Bonito, porém improvável. Se me inclinar ao tal esforço mínimo, e máximo, da memória, não abundam os “plims” (?) pequeninos de gratidão. Ao contrário do sr. Peixoto, homem de sorte, nunca tive professores que trabalhassem de borla, tive poucos carregados de conhecimento, ignoro os modelos dos automóveis que conduziam e, ao que me lembro, a função da maioria consistia justamente em encher-nos de certezas rígidas e opacas. Comecei a espernear no dia em que me arrastaram para a “primária”. Parei de espernear no dia em que concluí a licenciatura, de longe o maior alívio que senti na vida.
    É claro que, da primeira à quarta classe e à custa de salvíficas reguadas, a dona Julieta me ensinou a fazer contas (da leitura e da escrita os meus pais e avós trataram antes). É claro que, no liceu, recordo meia dúzia de almas competentes e uma dúzia de almas esforçadas. E é claro que não esqueço um certo professor de história económica na faculdade. O resto foi uma imensa perda de tempo, às vezes uma tentativa de desvitalização do cérebro e, muito por feitio meu, uma longa tortura, que nem as benesses escolares alheias às aulas resgataram. Levei com gente que nos forçava à escuta de “Zeca” Afonso, gente que presumia a familiaridade de adolescentes com Schrödinger, gente convencida de que Pierre Bourdieu era um pensador, gente parcialmente analfabeta, gente que corria para a janela a cada avião, gente que sumia o ano inteiro mediante “baixa” (juro que não me importava), etc. Fabricar uma imagem idílica da docência é equivaler as fraudes aos profissionais sérios – e caluniar estes.
    Pior: nivelar os professores por cima é uma burla idêntica à padronização por baixo que há décadas se aplica aos alunos e que, de resto, torna anacrónica a conversa acerca das virtudes e defeitos do ensino. A época em que, bem ou mal, os professores ensinavam morreu. Hoje, procuram sobretudo escapar das agressões verbais e físicas que alunos e famílias de alunos lhes dedicam. As criaturas que por oportunismo louvam em tons absurdos o papel dos professores são as mesmas que se calam quando um professor apanha uma sova por ousar sossegar a irreverência das criancinhas. Com frequência, o Ford Fiesta aparece sem pneus a título punitivo.
    E se não são delinquentes a humilhar os professores, os próprios tratam do assunto por via sindical: marcar uma greve que se pretende incómoda para as datas dos exames é assumir que já só são imprescindíveis nas funções de vigilância, tarefa que uma câmara de 50 euros ou um contínuo com o salário mínimo desempenhariam com brio similar. E o Governo, que não accionou a câmara nem o contínuo, dá-lhes razão fingindo não a dar. Para quem acumula todo o conhecimento do mundo, impressiona o desconhecimento que tantos professores têm do seu. Ninguém é capaz de os ensinar?”

  23. Pingback: Pai, ensina-me a cantar a Grândola, Vila Morena | Mario.Ruivo Blog

  24. Vivendi

    Moderação na defesa da verdade é serviço prestado à mentira.

    70% é maioria venha lá quem vier.

  25. Joaquim Amado Lopes

    dervich,
    “Devem se estar a esquecer que são exames NACIONAIS – têm de ser iguais, para toda a gente e à mesma hora.”

    Rafael Ortega,
    “Um exame exclusivo para aqueles que não puderam fazer a prova terá sempre o problema de os alunos que fizeram se queixarem no caso de ser mais fácil ou os que não fizeram se queixarem se for mais difícil.”

    DavC,
    “Crato tem que se demitir, isto é a maior balburdia que já vi em educação em toda a minha vida. Agora haverá alunos com mais quinze dias para se prepararem enquanto outros tiveram que fazer o exame hoje, muitos em cantinas e pavilhões.”

    Vocês não pensam um bocadinho antes de escrever?
    Todos os anos há alunos que fazem exames depois dos outros. Ou julgam que um aluno que esteja doente na data de um exame fica necessariamente um ano “de molho” porque “todos os alunos têm que fazer o mesmo exame ao mesmo tempo”?

    Façam uma pesquisa no Google por “calendário exames nacionais” e deixem de escrever disparates.

  26. Bento Norte

    Se a matemática não é uma batata, com uma enorme percentagem de exames realizados e uma adesão grandiosa á greve, então há carradas de professores a mais.

  27. dervich

    Joaquim Lopes,

    Tudo nesta vida pode ser simultaneamente muito simples e muito complicado:
    O ministério pode emitir uma justificação para que todos os alunos que ficaram impedidos de realizar exames poderem apresentar-se à 2ª chamada, mas estes alunos poderão sempre vir dizer (e com razão) que não tiveram hipótese de tentar melhoria de nota ou que, em caso de chumbo, não tiveram oportunidade de uma 2ª hipótese. Esta situação é semelhante a uma situação de falta por doença à 1ª chamada só que, nesse caso, ninguém pode ser obviamente responsabilizado por isso…

    Bento Norte,
    Ainda não foi confirmado mas se, de facto, existiram exames com 30 alunos por sala vigiados por pais e auxiliares de cozinha, então é natural que sobrem professores, sim…

  28. dervich e Bento: desde quando é que o número de professores necessário para leccionar tem de ser o mesmo que o número de pessoas para vigiar salas durante exames?

    Nunca fui professor do ensino obrigatório, mas já estive em várias situações em que os vigilantes de exames não eram professores (o que é perfeitamente legal numa serie de exames e países), e noutras (muito mais frequentes) em que era apenas necessário um número reduzido de docentes para vigiar os exames, mas muito mais para ensinar efectivamente as disciplinas.

    Já agora, lembre-se que se convocaram TODOS os docentes para vigiar UMA disciplina, pelo que para ter havido 2/7 de exames que não se realizaram, a percentagem de grevistas tem efectivamente ter sido muito grande (penso que devem ter sido convocados provavelmente cerca de 5 vezes mais do que os habitualmente necessários para vigiar esse exame).

  29. Joaquim Amado Lopes

    dervich,
    Afinal, parece que os alunos podem mesmo fazer exame na 2ª fase caso não tenham podido fazê-lo na 1ª fase e até, vejam lá, tentar uma melhoria de nota.
    Mas não foi o dervich que escreveu que os exames “têm de ser iguais, para toda a gente e à mesma hora”?

  30. Pingback: A Greve dos Professores – Ousar Lutar, Ousar Vencer, sem Nacional-Tótósisses | cinco dias

  31. Pingback: A Greve dos Professores – Ousar Lutar, Ousar Vencer, sem Nacional-Tótósisses | Arquivo 5dias

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.