Jogo viciado

O Estado tem de reduzir custos e o Governo lá chegou à conclusão que não reduzirá suficientemente sem redução de funcionários. Parece que pelo caminho vão fazer uma ou outra reforma.

Para reduzirem os funcionários têm de alterar as regras processuais, facilitando o despedimento.

Os sindicatos de funcionários públicos, entendendo que as alterações como a alteração da lei da mobilidade e o aumento de hora são os primeiros passos para este processo, vão fazer tudo o possível e ao seu alcance para o parar. Greves e contestações, o mais dolorosas o possível. Existem para defender os seus associados. Os associados não são as Escolas ou os Hospitais. Muito menos a Educação ou a Saúde. Os associados são os funcionários. Competirá aos sindicatos tornar o mais dolorosa possível qualquer alteração que implique um prejuízo dos seus associados. É o seu papel e não podem ser demonizados por isso.

Qual o papel do Governo? Implementar as medidas para as quais foi votado. se isso implicar reduzir benefícios ou reduzir o número de funcionários públicos isso passará por não ceder à pressão dos sindicatos, das suas manifestações e greves. Terá de minimizar o impacto destas manifestações e greves. O sucesso deste processo depende da rapidez com que for capaz de implementar as alterações e de as tornar irreversíveis e da qualidade da comunicação do que estão a fazer. Não podem perder de vista a razão das medidas, o povo que os elegeu.

Se o Governo não acredita nestas medidas, o que é indiciado por terem levado 2 anos para avançarem com elas, e mesmo assim só em último recurso, não é de esperar que sejam rápidos e eficientes a implementá-las.

Tendo o Governo perdido a base de apoio do eleitorado que os colocou lá, a quem foi prometido a redução do Estado e dos seus custos, ao longo de 2 anos de aumentos de impostos, torna-se agora difícil qualquer esforço de comunicação, por mais fácil de explicar que seja uma medida ou uma posição.

E é por isto que, apesar de este Governo estar perante uma greve contra o aumento do horário de trabalho para horas normais no privado (que segundo os professores já são cumpridas de qualquer maneira) e contra uma lei que permitirá tirar do erário público quem recebe mas não trabalha; uma greve no momento crítico para o sucesso dos alunos que deve ser o objectivo último dos professores; terá uma pressão pública tremenda para ceder aos sindicatos. Ganhará a Corporação por falta de comparência do Governo. Porque o Governo, à partida, não queria ganhar.

14 pensamentos sobre “Jogo viciado

  1. Elmano

    Nada contra o artigo porque os factos aí estão para o demonstrar. Mas temos um problema para resolver. Chama-se o bem estar de Portugal. Com gente desta como vamos resolver? Alguém vai ter de perder.

  2. fernandojmferreira

    “[Os sindicatos] existem para defender os seus associados. Os associados não são as Escolas ou os Hospitais. Muito menos a Educação ou a Saúde. Os associados são os funcionários. Competirá aos sindicatos tornar o mais dolorosa possível qualquer alteração que implique um prejuízo dos seus associados. É o seu papel e não podem ser demonizados por isso.”

    Muito bem, concordo. Ja nao concordo com a segunda parte: “Qual o papel do Governo? Implementar as medidas para as quais foi votado. Se isso implicar reduzir benefícios ou reduzir o número de funcionários públicos isso passará por não ceder à pressão dos sindicatos, das suas manifestações e greves.”

    Aqui mora a grande ilusao. Tal como muitos (ainda acreditam) que os sindicatos existem para defender “todos os trabalhadores” ou a “escola publica” ou a “saude publica”, ainda existem muitos mais que acreditam que o estado e’ essa entidade “supra-humana” que existe para defender os “direitos” a “justica” e as “regras do jogo”, como se o estado nao fosse, na realidade, os seres humanos que na altura detem o poder.

    So quando se compreender que nao e’ assim, que o estado Que sao os politicos, nao “somos todos nos”) so existem para defender e beneficiar os grupos de interesse que lhes possa garantir a re-eleicao, e’ que alguma coisa podera mudar. O estado so existe para favorecer uns em detrimento dos restantes. E’ esse poder imenso que tem de acabar.

  3. Ricardo G. Francisco

    Fernandojmferreira,

    Escrevo sobre o “dever”, não sobre o “ser”. Na mesma medida que escreve sobre o Governo pode escrever sobre os dirigentes sindicais que defendem interesses de parte dos associados ou apenas usam os sindicalizados para promover os interesses de partidos ou outros grupos. Isto com a agravante de o processo de escolha ser muito menos transparente e mais facilmente capturável.

  4. Maria

    Não se pode privatizar o Estado? Queremos saber para onde vai todo o dinheiro que nos roubam, literalmente, numa base de dados clarinha e limpinha com dados anuais; educação, saúde, reformas, PPPs, banca, gabinetes, ministros, juros de dívida, tudinho…depois falamos de cortes equitativos.

  5. Surprese

    Ó Fernandojmferreira, aqui não há confusão nenhuma! Sabemos muito bem do que se trata.

    O ‘Estado’ não existe, existe o governo, conjunto de pessoas eleitas para satisfazer quem os elegeu (e não o país, ou Estado).

    Acontece que este governo não está a satisfazer quem os elegeu. Cede a grupos de pressão que tinha prometido combater, aumenta impostos para ficar tudo na mesma, não implementa as reformas prometidas.

    Não agrada a gregos nem a troianos.

  6. Maria

    A maioria dos professores está a borrifar-se para os sindicatos, estes, se não quiserem perder mais associados, têm que os acompanhar. Os professores são perseguidos desde 2005, por governos mentirosos e incompetentes, depois de cortes sucessivos, iniciados há 8 anos, a justificação é sempre a mesma, como se não tivesse havido corte nenhum.

  7. jorge

    “Qual o papel do Governo? Implementar as medidas para as quais foi votado.”

    Ricardo… com o devido respeito aconselho uma leitura do programa com que este PSD se apresentou a eleições. .. Aconselho também, se possível, uma leitura das entrevistas dadas pelo na altura candidato a primeiro ministro PPC.

    Quanto ao resto, totalmente de acordo com o seu artigo.
    Cumprimentos
    Jorge

  8. fernandojmferreira

    O Surprese,
    e satisfazer a quem os elegeu da-lhes mais legitimidade ou torna a accao do estado mais justa ou moral? Quem e’ que garante que, so porque algo e’ pretendido por uma maioria de votantes, entao e’ essa a coisa certa que tem de ser feita?
    Enquanto houver um conjunto de individuos que detem, por um periodo de tempo ou permanentemente, um poder imenso sobre os restantes (poder de criar leis, poder de exigir impostos), vao ser aparecer grupos de interesse que querem tirar vantagens desse mesmo poder, vantagens que nunca conseguiriam de outro modo. So o estado cria gregos e troianos.

  9. rmg

    fernandojmferreira

    Então como é que se faz para acabar com “esse poder imenso” ?
    É que o mundo inteiro está cheio de Estados desses de que fala , nem estou a ver outra coisa por aí , até há Estados dentro de Estados .
    E a História conta-nos que , cada vez que se acabou com um poder desses , foi para logo o substituír por outro igual .

  10. fernandojmferreira

    RMG,
    so porque nao ves “outra coisa por ai”, nao quer dizer que o colectivismo coercivo seja o “melhor que pode haver”. A Historia tambem nos conta outra coisa. Tenho a certeza que, para cada ideia diferente houve alguem que disse? “Isso nunca foi experimentado, nao vejo nada por ai que se assemelhe a isso”. A escravatura, por exemplo. Ja houve um tempo em que todos os governantes e individuos faziam uso da escravos como principal meio de trabalho. Deve ter havido alguem que deve ter dito: “E que tal acabar com a escravatura?”. Essa pessoa deve ter ouvido: “Isso e’ impossivel! Existe, por ventura, algum pais que nao use escravos? Nunca foi tentado, nao funciona!”.
    O que se pode fazer para acabar com esse poder imenso? Bem, o que cada um pode fazer e’ dizer NAO ao colectivismo nao votando. Quando houverem eleicoes cujo resultado seja 99% de abstencao, entao assim, alguma coisa podera mudar.

  11. Ricardo G. Francisco

    RMG,

    Tanto negativismo. Olhando para a História do Homem pode ver que os indivíduos têm cada vez mais liberdade, que existe cada vez maior respeito pela pessoa e pela propriedade privada. Isso não quer dizer que a evolução tenha sido contínua e/ou homogénea pelo mundo fora. Sociedades mais livres prosperam…as outras falem. Acaba por ser um processo simples.

  12. Manuel M.

    Há cada vez mais liberdade e respeito pela propriedade privada? Onde? Não será em Portugal, onde tem havido uma regressão histórica sensivelmente desde 2003.

    Podia citar mil exemplos, mas escolho um de actualidade: Num país em que o IMTT não cumpre a missão de registar um abate de um carro abatido e o Estado, através do fisco, ameaça com uma penhora de casa por causa do valor (não devido) em questão?

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