Conversas com alunos

Tendo dado o testemunho de um professor do ensino público, resta ouvir os alunos. Transcrevo aqui, para quem não apanhou, o testemunho de uma aluna da Escola Secundária Gabriel Pereira em Évora. A peça foi transmitida pela SIC Notícias.

“Só esta confusão toda, as notícias, os próprios professores antes das aulas acabarem [que] estavam sempre com esta conversa… acho que isto perturba-nos um bocadinho. Eu, pelo menos, dou por mim […] estou a estudar para Português e penso.. será que vale a pena? Às vezes até fico com um bocadinho menos de motivação para estudar. Compreendemos o lado deles […], que se sentem injustiçados e com medo do que poderá acontecer no futuro […], mas pedíamos que compreendessem também o nosso.

E um outro testemunho de uma outra aluna da mesma escola

Perturba a nossa concentração, às vezes nós paramos para pensar se estamos a estudar e depois vamos chegar e não vamos ter exame e vamos ter de rever tudo outra vez. Acho que isso perturba bastante, […] acho que se houver greve isso vai perturbar o meu estudo para História. Se não fosse uma coisa preponderante na minha vida, se calhar eu não estaria tão nervosa. Mas como eu sei que preciso disto, que é uma coisa realmente importante para mim, custa mais um bocadinho.”

É verdade que não somos todos iguais. É também verdade que este discurso é muito dissonante da versão “altruísta” da Inês Gonçalves, que afirma, inclusivamente, que não sai prejudicada. Pelo contrário. Toda a gente beneficia com esta greve, afirma.

Mas é igualmente verdade que, por regra, o dogma doutrinário faz com que a defesa de programas ideológicos se sobreponha à legítima defesa dos interesses individuais. Daí que estas alunas estejam preocupadas com elas próprias e a Inês, não. A Inês ignora que a defesa dos nossos interesses não pode ser à custa do atropelo dos outros, embora isso seja uma condição sine qua non para o bem comum. O motto da esquerda republicana é que alguns terão de se sacrificar pelo bem dos restantes, da sociedade como um todo. Mas se a sociedade são os seus indivíduos, como é possível proteger uns, atropelando outros? Visão estranha, essa.

4 pensamentos sobre “Conversas com alunos

  1. Essa miúda não percebe que está em causa a salvação do ensino público. De certeza que é da JSD ou pior. Não há quem lhe ofereça um manual com os discursos do camarada Nogueira, para que ela perceba o que está em causa?

  2. joana

    Os professores falam em defesa do ensino público mas só vieram para a rua manifestar quando o governo lhes aumentou as horas de permanência na escola. Antes disso não davam a mínima importância a se a escola tinha boas condições para os alunos ou não. As 40 horas semanais que passarão na escola não vão ser todas a dar aulas. Se aproveitarem bem o tempo não têm necessidade de levar trabalho para casa. Se o levam é porque querem. Se o setor privado sempre trabalhou 40 horas, porque é que o setor público não pode? Haviam muitas classes profissionais mal habituadas neste país.

  3. Carlos

    Quando os professores são os que fazem as escolhas e são eles que recebem para prestar o serviço, é o fim da educação. Os pais, que pagam, não podem decidir o tipo de educação dos filhos, não podem escolher que escola o filho deve frequentar, nem fazer eles próprios o plano de educação que os filhos devem seguir, e muito menos retirar financiamento se esse serviço não for devidamente prestado. Enfim, a educação já acabou há muito tempo em Portugal (ou devo dizer formação, pois educação às massas acho que toda a gente sabe o que é).

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