as coisas não acontecem por acaso

A Maria João Marques tem toda a razão: a direita, pelo menos uma direita que se pretenda liberal e saudavelmente conservadora, não precisa da herança de Salazar para se definir. Tão pouco a ideia de que o salazarismo foi muito mais tolerante com a vida privada dos portugueses do que o actual regime nos deve consolar. Isso não aconteceu por qualquer respeito pelos direitos e liberdades individuais, mas porque era desnecessário fazê-lo para a conservação do poder. Este equívoco vem, de resto, de um antigo artigo do Vasco Pulido Valente, em que ele se confessava cansado do estatismo que se vive em Portugal e lembrava, com alguma saudade, os tempos de Salazar, em que o estado não queria saber de quem não se envolvesse em política. Isto é, de quem o não ameaçasse.

Estabelecido este ponto, vamos à segunda parte da questão. Se Salazar não serve – e, de facto, não serve – como referência histórico-política para a direita portuguesa, de quem nos poderemos socorrer? Em vão procurei nos últimos 250 anos e, muito francamente, não encontrei ninguém. Não encontrei um personagem com responsabilidades políticas que tivesse demonstrado sério apreço pela liberdade individual, pela economia de mercado, pelo crescimento económico sem despesismo público, por um governo controlado e respeitador dos direitos individuais. Ao contrário, salazaritos e salazarentos encontrei aos montes. É, infelizmente, do que não temos falta na nossa história pátria. As coisas não acontecem por acaso e a situação em que estamos, e que está longe de ser uma novidade, também não.

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15 pensamentos sobre “as coisas não acontecem por acaso

  1. Henrique Figueiredo

    Talvez nisso este governo não tenha sido mau de todo. Pode ser que se tenha inaugurado uma geração de responsáveis políticos de pendor liberal. Veja o actual Secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes.

  2. Talvez no século XIX e não sendo aí não será entre 1910 e 1945, a grande época dos caudilhos. Fontes? Passos? Saldanha? Cabral? Não importa tanto o que diz deles mas sim o estudo do pensamento e prática.

  3. Carlos Pacheco

    “Tão pouco a ideia de que o salazarismo foi muito mais tolerante com a vida privada dos portugueses do que o actual regime nos deve consolar”. Continuem, isto está a começar a ficar bem divertido.

  4. Temos de aprender aquilo que somos hoje e o que os outros foram mas na sua época.

    Saber dissecar bem as virtudes e defeitos mas enquadrados no espaço temporal.

    Para o presente devemos aproveitar o que havia de bom e rejeitar o que havia de mau.

    Se a ideia é bater no Salazar para desculpar a democracia qualquer dia acabamos também a chamar o Afonso Henriques de assassino e a concluir que Portugal não faz sentido algum como nação.

    Não faça o jogo da maçonaria Rui Amaral.

  5. Francisco Colaço

    Confesso que tenho uma admiração por Manuel Fernandes Thomaz, o único político que conheço que morreu de fome enquanto em exercício.

  6. A. R

    O legado de Salazar é tão grande e de tão grande sucesso e dignidade que ninguém o pode esquecer. Só os infames fascistas o poderão denegrir

  7. Hugo

    E internacionais? Conhece algum? É que com essas características não conheço nenhum governante no mundo.

  8. Miguel D

    creio que Herculano foi deputado… de qualquer forma, a intervenção política e o impacto em gerações faz dele o meu candidato.

  9. lucklucky

    “Isso não aconteceu por qualquer respeito pelos direitos e liberdades individuais, mas porque era desnecessário fazê-lo para a conservação do poder.”

    Não no sentido em que pomos a questão, mas porque não? o Estado Novo queria estender o seu poder ao controlo das galhetas de azeite? Não me parece.
    Se a extensão do poder é mais restrito por causa da concepção de poder que as pessoas do Estado Novo tinham então não se pode considerar apenas a não necessidade como razão.
    Se ao invés fosse um Regime Comunista este quereria acabar com as empresas privadas, forçar colectivização, ou seja controlar quase tudo na vida das pessoas.
    Logo violaria muito mais os direitos e liberdades individuais que o Estado Novo. Logo precisaria de controlar muito mais e obviamente fazer muito mais violência ilegítima que o Estado Novo. Porque a concepção do Poder Comunista é muito mais extenso.

    É no entanto plausível que o Estado Novo no presente fosse bem maior do que nos anos do seu fim., Basta evolução tecnológica para tentar os políticos e burocratas fazer mais, controlar mais. E novas gerações…
    Por exemplo com extensão de entidades criadas pela ditadura como a RTP bastante aumentadas no seu poder, A Internet estivesse suppostamente restrita por razões puritanas e eventualmente controlada pela RTP ou um eventual Ministério das Comunicações.
    É até possível que um aparatchik do Estado Novo de 2010 se lembrasse de proibir as galhetas de azeite, mas para isso o regime teria de entrar num activismo que não seria habitual.

  10. B

    A herança de Salazar – e que ele recebeu de Pombal – encontra-se, a cargo de parte do PSD e PS, que se apoderaram do estado. O estatismo continua e o actual governo, por exemplo, tudo faz para deixar o estado o mais intocável possível.
    Direita sem Salazar? Adelino Amaro da Costa e Sá Carneiro.
    Fora da religião estatista pouco há em Portugal. A direita com muita facilidade acaba em governos PS.

  11. Isto: — “sério apreço pela liberdade individual, pela economia de mercado, pelo crescimento económico sem despesismo público, por um governo controlado e respeitador dos direitos individuais.” — … é o referencial da direita portuguesa?? — Uma coisa é o “leitmotiv” da propaganda, outra (bem diferente) é a evidência na acção. Por exemplo, em matéria de “direitos individuais”, a direita (e a esquerda), tem um historial muito triste e normalmente construído no desrespeito pelos “direitos individuais” dos outros …
    Há quem pense que a direita prática portuguesa é mais uma pequena quinta de marialvas snobs, cínicos, e pouco esclarecidos do que um ideário político consistente… Nesta asserção o melhor “capo” da direita talvez seja o D. Miguel, de vaga memória e genética incerta entre marqueses e jardineiros…

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