Preconceito ideológico

O que é que há de errado no que o RAP diz, aqui, sobre o Martim e o seu negócio? É que todo este raciocínio assenta numa coisa que “trama” tudo: a análise é abstracta, cega pelo preconceito ideológico. O facto do rapaz se chamar Martim, e morar na “Linha”, faz com que o RAP conclua precipitadamente que o miúdo não se fez à vida, e que o seu sucesso se deve em boa parte ao facto de se ter “encostado” aos pais. Complexo de classe em estado puro. “Se fosse Zé Manel, o Martim estava literalmente quilhado”, é esta a base do sofisticado argumento do RAP. Azar dos azares, o miúdo chama-se Martim, mora na Linha de Cascais, mas as suas “origens” familiares estão longe de ser as que conduzem aos clichés em que o RAP assenta: se a família do Martim, a mesma, tivesse ido para a Margem Sul, e tivesse optado por escolher um nome para o miúdo um pouco mais “étnico”, tipo Akwá, ou Mantorras, por exemplo, nesse caso, aos olhos do RAP, o nosso Martim seria rapidamente elevado à categoria de grande “empreendedor”.

O raciocínio do RAP falha ainda em imensas outras coisas, imagine-se, o Martim também não recorreu ao apoio dos pais para lançar a “Over It”, fez tudo com os recursos que foi ganhando ao longo do último ano. A família apenas o ajudou, como gente responsável, a enfrentar a burocracia fiscal e legal que se lhe colocou à medida que o negócio foi evoluindo.

RAP em vez de ajudar à clarificação, trouxe ruído. Preconceito… Quem diria

38 pensamentos sobre “Preconceito ideológico

  1. Jónatas

    Em vez de se porem com questões ideológicas, vejam como é na prática. E na prática, é como o RAP diz. Exactamente como o RAP diz.

  2. Jónatas

    Para confirmar o que digo, vejam a resposta de Marco Barbosa, que criou o Bewarket. É um Zé Manel e não um Martim, que esteve à procura de investimento por cá e não conseguiu.

    “Os Estados Unidos são um país completamente diferente: lá, tenho um investidor disposto a pagar 100 mil dólares para ver o que consigo fazer nos próximos seis meses. Depois, se tudo correr bem e atingir determinados patamares, terei a garantia de capital para prosseguir”, conta o jovem empreendedor. “Por cá, só querem saber qual é a faturação prevista para os próximos dois anos e, mesmo que acreditem no negócio, demora alguns seis meses – e com muita burocracia pelo meio – para conseguir o investimento”, acrescenta. “E a faturação nem interessa nada, comparada com o valor da empresa”, diz, recordando como a Google ou o Facebook só começaram a faturar “muito depois de já serem valiosos”.

  3. Na prática, Jónatas, o Martim arrancou com o seu negócio, com o que foi ganhando da venda das t-shirts, montou um fenómeno de moda com poucos recursos, cresceu, e não pediu nada a ninguém. Como eu conheci imensa gente que tem singrado por si, sem pedir nada a ninguém. O preconceito é lixado, e vejo que tu também não sabes como foi na prática, nem procuraste informação sobre isso.

  4. Jónatas

    Estou, como é óbvio, a tornar a coisa abstracta e a, provavelmente, ser injusto com o Martim. E aceito o teu reparo com fair play. Como sei que aceitas, no fundo, a conversa do RAP quando diz o que diz, que há toda uma maneira de conseguir dinheiro dos bancos que é incorrecta. E nem quero ir buscar o exemplo do BPN e dos empréstimos loucos que fazia por causa de nomes. Mas percebe-se o que estou a dizer usando aquela leviandade a dar dinheiro.

    Como se percebe que se vai dinheiro só porque se é amigo cá da malta, não sobra para o Marco Barbosa, que tem, coitado, de provar tintim por tintim que não vai gastar dinheiro à toa. E, coitado, vê uma boa ideia ir à vida porque não tem os fiadores certos ou os contactos que lhe dão credibilidade. Todos sabemos que é assim e todos sabemos que não é uma questão ideológica. É, isso sim, uma questão de mentalidade.

  5. Jónatas, mas por que raio um negócio de t-shirts para crescer precisa de financiamento bancário? Aliás, porque raio em Portugal não se poupa e cresce com base em capitais próprios? Alguém acha que o Facebook ou a Google nasceram de financiamento bancário? E que a Zara recorre aos bancos para alguma coisa? O Senhor Ortega vendia e poupava, e é avesso a passar a sua margem para o sistema financeiro. O vício do raciocínio é esse, é achar que os empreendedores só podem florescer se tiverem acesso a dinheiro barato.

  6. Bruno

    Eu deixei de ouvir ou ler o RAP no que diz respeito a política/ideologia. Como se trata de uma pessoa muito inteligente, tem a capacidade de ridicularizar quem tem uma opinião contraria à sua fugindo da argumentação. Acaba por ser pouco honesto intelectualmente. Como vivemos num país onde os media privilegiam o bitaite e o sound byte cómico, ele está como peixe na água.

  7. Jónatas

    Não, nasceram de financiamentos em ideias por parte de investidores privados que viram potencial na ideia. Mas é esse o problema do Marco, Rodrigo. Ele teve a ideia, poupou para a desenvolver. E esbarrou no facto de não haver investidores privados em Portugal capazes de investir. E como não existem, ou os há em pouca monta, foi ao banco.

    E o banco, que não é, de todo, o parceiro indicado para isto (porque come juro logo do princípio quando devia-se pegar nesse dinheiro para reinvestir na empresa) só que é o único sítio em Portugal onde se pode arranjar dinheiro para fazer ideias crescerem. O que o RAP diz é que se ele tivesse outro nome ou outros contactos, se calhar o banco emprestava. Fazia mal na mesma mas ao menos fazia a ideia crescer. Como não tem, tem de ir para os Estados Unidos, pegam na ideia, percebem o valor dela e dão-lhe o dinheiro que ele precisa para a colocar em acção. E depois logo se vê, partilhando o risco entre quem tem a ideia e quem vê valor nela, como deve ser nesta fase tão inicial da empresa.

    E agradeço que me diga que estou errado e que não é nada assim em Portugal que vou já pegar em tanta gente que conheço que está na situação do Marco, que tem ideias e não as consegue financiar com capitais próprios, seja porque têm salários baixíssimos e não conseguem poupar nada, seja porque a família não os pode ajudar, seja porque estamos em crise em Portugal e ninguém está para comprar produtos novos que não conhece de lado nenhum e, assim, não permite ao negócio subsistir por si só nesta fase.

  8. Rúben Lopes

    O Ricardo Araújo Pereira, é por sua vez, a cinderela do establishment intelectual português. Repete as mesmas merdas comuno-bloquistas, típicas de gente que se assumem como uma minoria oprimida, mas que são claramente mainstream. Entretanto, ele anda a “explorar” a audiência com a sua publicidade nauseante da Meo.

  9. Carlos Duarte

    Caro Jónatas,

    Aconselho-o vivamente a dar uma volta pelo (mal amado) Vale do Ave e vai descobrir dezenas de “patrões” (daqueles com BMW e Mercedes) que começaram por ser tintureiros, vendedores, empregados de salário mínimo e que se fizeram à vida. Quer outro exemplo? Vale de Cambra e a indústria do Inox… saiu (quase) tudo da mesma fábrica, montaram os seus negócios com o que aprenderam e não são todos “engenheiros”. Mesmo na Construção Civil – que considero ser actualmente um sector parasitário do País – muitos dos “patrões” começaram por serem trolhas e depois mestres de obras antes de serem grandes companhias.

    O que não falta em Portugal são empreendedores que nunca dependeram de dinheiro de terceiros. Aliás, o “bom” empreendedor não depende de empréstimos, financiamentos (sejam bancos ou particulares) para singrarem. Dependem de sorte (muita!), trabalho (muito também) e um clima (leia-se Estado e Sociedade) que não atrapalhem. O principal problema hoje em dia é que estes dois últimos atrapalham e não é pouco. Seja pelos licenciamentos, pela mania do “patrão explorador que paga salário mínimo), pela rapace do Fisco, pelos sindicatos esclerosados (a culpa não é deles, convenhamos, mas da legislação), em Portugal vale pouco a pena no Séc. XXI ser empreendedor e arriscar.

  10. Pinto

    Jónatas, não conheço o projecto do Marco Barbosa mas aconselho-o a não tomar partido simplesmente porque ele, coitado, não é conhecido nem da “linha”. Recordo-o que a banca recusou recentemente financiamento a José Roquete e a Alexandre Alves (presidente da (Renewable Power Projects Solar). A banca não recusa ou aceita unicamente pelos nomes. A banca estuda os projectos e a sua viabilidade antes de colocar dinheiro nas mãos de quem pede.

    Ao contrário do Ricardo Araújo Pereira (que se soubesse separar o humor do bitaite ideológico só tinha a ganhar) naquele programa eu vi um sujeito entusiasmado a tentar dar nome a uma empresa que acabara de criar e uma fulana empenhada em demolir esse entusiasmo. A um movia-o o crescimento do negócio (o lucro), ao outro (ou à outra) a notoriedade política.

  11. Pinto

    Mal o Martim começou a falar em empreendedorismo e em sucesso empresarial, aos olhos da Raquel surgiu ali um leitãozinho capitalista que deveria ser rapidamente abatido. A moralista de serviço saiu-se mal. Mas pelo menos tem agora milhares de advogados a defender-lhe a honra.

  12. Jónatas

    Carlos Duarte, está-me a falar de sectores tradicionais. Industriais, vários deles, se quiser. E absolutamente necessários ao País. E a quem os bancos, tradicionalmente, dão o seu apoio, apresentado o projecto com alguma cabeça, tronco e membros. Como toda a área que você fala comprova.

    Também podemos falar dos restaurantes e cafés que estão em todo o País. Ou padarias. Ou tantos outros locais e estabelecimentos onde a banca, por tradição, é amiga. Porque sabe calcular, mais ou menos, a coisa. E sabe que o risco, nalguns casos, era baixo.

    Só que agora estamos com a crise em cima, os empregos foram todos para a China ou para o Leste, as casas não se vendem, os cafés e os restaurantes estão vazios porque não há dinheiro e as padarias não vendem o que vendiam que o trigo duplicou o seu preço. E a banca tem todo aquele dinheiro empatado e não tem forma de o recuperar. Mais um que não consegue recuperar.

    Onde a porca torce o rabo é exactamente nestes outros sectores criativos, digitais, de ideias, de risco maior, onde a banca portuguesa não tem tradição nenhuma. Infelizmente, tem sido este sector que tem levado grande parte do PIB de outros Países, como os E.U.A., para a frente. E onde Portugal tem tanto para dar. Mas os bancos continuam, impávidos e serenos, a assobiar para o lado neste campo. E não há investidores privados que valham. Está mais que visto que temos de ir por aqui também mas ninguém faz nada. Fartam-se de pedir empreendedores. Eles existem. Mas não há dinheiro para eles porque as ideias são criativas e o gestor de conta não quer fazer asneira porque não percebe nada de internets para lá da Amazon e sabe que houve uma bolha e tal. Repito o que disse, o problema aqui não é ideológico. É de mentalidades. E, à falta de investidores privados (que não os há), só há a banca. E a banca portuguesa é demasiado conservadora para aquilo de que o País também precisa.

  13. Carlos Duarte

    Jónatas, o sector é irrelevante para o caso (existem, obviamente, excepções para produtos de elevado valor). O que eu lhe tentei dizer é que não se pode estar à espera de bancos e investidores. Sim, em muitos casos ajudam, noutros só afundam mais depressa o projecto (e esta segunda parte é por conhecimento próprio). Eu não estou a desvalorizar as pessoas que foram obrigadas a arranjar apoios noutros lados e concordo que em Portugal eles são poucos ou nulos. No entanto, estar a depender a economia da existência de “crédito” é um erro crasso que estamos agora a pagar. Porque mesmo as indústrias tradicionais habituaram-se a viver do dinheiro dos bancos – o negócio dava para tudo, até juros – e agora que não há, não têm liquidez e estagnam. Portanto, com ou sem investidores, o que faz falta é quem arrisque. O seu. Os seus bens se for preciso.

  14. Jónatas, concordo em parte com o que dizes, mas não me parece que o que tu dizes seja o mesmo que o RAP diz. Esse é o ponto. Há em Portugal aversão ao risco e pouco capital para investimento? Sim, é verdade, muitas ideias não saem do papel por falta de uma cultura de venture capital por parte de quem podia dar corpo às ideias dos outros: a banca não é solução. Mas também há imensos casos de sucesso – e, infelizmente, muita falta de capacidade de sacrifício de quem tem boas ideias, mas não quer sofrer no corpo o peso de ser empreendedor. Steve Jobs recolhia garrafas para entregar como vasilhame, e dava explicações, e dormia em casa de amigos, quando fundou a Apple, se estivesse à espera de “investidores”, hoje de certeza que não haveria iPhones.

    André, esse é mesmo o ponto, há uma valorização do trabalho intelectual – desde que permita recitar os chavões da esquerda – e uma desvalorização de quem trabalha, e não se assume como “proletário” chic.

  15. Existe apoio explícito (investimento) e existe o conceito de risco. O Martim, que não conheço nem conheço a família, provavelmente aplicou o seu trabalho e as suas poupanças. Não sei qual foi o investimento inicial, nem sei o valor do investimento em relação aos bens próprios do Martim, mas suponho que não estarei muito enganado se disser que ele não arriscou na aventura nada que “não pudesse perder” no sentido das necessidades básicas de Maslow. Pergunto-me se alguém não provindo do mesmo meio sócio-económico poderia fazer exactamente a mesma coisa com o mesmo esforço. Isso sem falar que o facto de ter na família quem o incentivasse no negócio e lhe pudesse ajudar “a enfrentar a burocracia fiscal e legal que se lhe colocou à medida que o negócio foi evoluindo” também tem um valor não nulo. Quer isto dizer que o que ele fez não tem valor? Claro que não, tem bastante. Quer dizer que se “encostou”? Não, quer dizer que aproveitou as suas oportunidades. Quer isto dizer que qualquer Zé Manel poderia replicar o que ele fez com a mesma facilidade? Suponho que não, sem qualquer desprimor para ele. A verdade é que as oportunidades na realidade não são iguais.

  16. Pinto

    João Branco,
    A verdade é que as oportunidades na realidade não são iguais

    Desde logo porque as capacidades individuais não são iguais. Se continuar assim antevejo-lhe muitas oportunidades e muitas “facilidades” para ganhar dinheiro.

  17. Joaquim Amado Lopes

    Jónatas (9),
    “tanta gente que conheço que está na situação do Marco, que tem ideias e não as consegue financiar com capitais próprios”
    Talvez cada uma delas não possa financiar o seu projecto com capitais próprios. Mas não será que, juntando-se todas essas pessoas que conhece, e investindo o pouco que cada um deles tiver para investir num único projecto, não se conseguirá rapidamente capital para lançar outro e depois outro?

    Ou toda essa gente que o Jónatas conhece só acredita na sua própria ideia e não está disposta a arriscar apostando nas ideias de outros? Se é assim, por que razão acha tão estranho que os bancos não queiram investir em nenhuma dessas ideias?

    E, só por curiosidade, quantas dessas ideias se concretizaram num projecto e os respectivos autores foram realmente procurar financiamente, bancário ou outro? É que eu também tenho muitas ideias para projectos empresariais e nenhuma recebeu financiamento bancário mas não me queixo porque seria como aquele indivíduo que reclama contra Deus por este não lhe dar uma oportunidade fazendo-o ganhar a lotaria e Deus responde perguntando-lhe “porque não me dás tu uma oportunidade e compras ao menos uma cautela?”.

  18. Marco Teixeira

    Não conheço o Martim nem os contornos do empreendedorismo da coisa. No entanto, ressalve-se que admiro o moço e atitude dele. Seja oriundo de classe alta, média ou baixa, ou o que seja. No tocante ao que o RAP disse, trata-se de uma lapalissada. Qualquer estudo sociológico mostra que os filhos oriundos de famílias de estrato económico, social e cultural mais elevado têm mais possibilidades de terem sucesso. O que não quer dizer que não existam honrosas excepções e felizmente a evolução dos estados foi no sentido de se criarem condições para mitigar essas desigualdades. Não compreender isso, ou tentar escamoteá-lo é que é de facto um profundo exercício de desonestidade intelectual. sou empresário, profundamente meritocrata e compadeço-me com todo este ruído à volta deste caso. Quer-se por 1 milhão de pessoas que não têm emprego a serem empreendedoras e a criarem os seus empregos ? Isso é pensável, exequível ? Não era bem mais útil à sociedade discutirem-se as medidas estruturais necessárias para de facto agilizar a justiça, desburocratizar as leis, combater de facto a corrupção e os interesses instalados, simplificar os regimes fiscais, para que as empresas que existem possam prosperar e possam porventura serem criadas mais empresas ? Essa é que a discussão a ter nestes tempos. Isto do Martim é uma palhaçadazita é um fait-diver.

  19. Surprese

    Ficámos a saber que o RAP é da linha (e chama-se Ricardo, não Fábio, etc).

    Se não fosse, como teria conseguido fazer a Produções Fictícias com um conjunto de amigos, quando era pouco mais do que adolescente, e ter enriquecido via contratos milionários com a Portugal Telecom.

    De acordo com a sua lógica, o seu percurso pessoal só foi possível porque teve cunha do papá.

  20. Carlos Pacheco

    O que o RAP escreve pouco tem a ver com o Martim, ele próprio, mas é uma verdade quase tão simples como a que o Martim disse. Não tenham medo da crueza das verdades simples. Sem tanta raiva, vão ver que concordam com o RAP. Nem sequer é uma verdade incompatível com o liberalismo. Com alguns liberais talvez, mas nunca com o liberalismo.

  21. miucha

    o Ricardo Araújo Pereira podia, num exercício cómico, utilizar as mesmas ferramentas para se definir a si próprio, as suas origens, a sua carreira, o seu sucesso e o seu BMW e os seus preconceitos.

  22. EMS

    Surprise, Carlos Duarte, e Miucha, estão a dar razão ao proprio RAP.
    Só a partir de um certo patamar social se torna facil e natural ser-se um jovem sucesso. Os outros, os filhos das costureiras e dos camionistas, o mais provavel é continuarem a ser assalariados anonimos e mal pagos.

  23. Carlos Duarte

    EMS, ora vá lá reler o que escrevi… Os empreendedores com sucesso que eu conheço são, na sua maioria, filhos de camionistas e costureiras. Os filhos de pessoas com posses (e não estou a falar de classe média), na maioria, não consegue “empreender” a venda de água no meio do deserto, estão mais ocupados a desbaratar o dinheiro dos pais.

  24. Jónatas

    Carlos Duarte, deve ter sido o único empréstimo que negaram ao Roquette. Até para o buraco que é o Sporting lhe deram dinheiro, mesmo sabendo que era um buraco. E negaram-no no caso que refere porque ele não quis dar garantias pessoais à Caixa. Se ele as desse, tinha o empréstimo, claro. Não acho que seja bem a mesma coisa do que estamos a falar mas confirma, em parte, a argumentação do RAP.

    Joaquim Amado Lopes, o que está a dizer é em parte feito através das novas formas de obter financiamentos, como o crowdsourcing, que resulta em muitos países. No entanto, não sei até que ponto isso é solução para as tantas e tantas ideias boas que proliferam por Portugal, pela simples razão de que a maior parte das pessoas não tem capital próprio para investir para si, quanto mais pedir para que invistam o pouco que têm noutros projectos que não os deles. Mas não tenho nada contra o que está a dizer, para além disto.

    Quanto à sua segunda pergunta, estou de acordo consigo: há muitas ideias que não merecem apoio. Não são consistentes e não têm público para elas. Mas e as que têm? E as que são consistentes? E as que têm potencial? Porque é que para essas também é tão dificil conseguir dinheiro? Dei um exemplo concreto de uma ideia, o Bewarket, que procurou esse investimento e não o obteve por cá. Conheço muitos outros projectos que fizeram o mesmo percurso e que também não conseguiram esse investimento, seja através dos apoios estatais seja através dos empréstimos bancários mas que mal sairam de Portugal conseguiram obter financiamento de investidores para desenvolverem a ideia, com a contrapartida de darem uma percentagem da empresa que constituíram. O que demonstra que sim, o projecto era válido para conseguirem um empréstimo. O que não existe é a abertura em Portugal para que isso aconteça, seja de quem for. E isto é um problema sistémico do financiamento em Portugal.

    E não percebo porque é que não há aqui ninguém a dizer que sim, há um problema realmente em fazer chegar dinheiro a quem tem ideias. E a tentar perceber como é que se conseguem arranjar alternativas de financiamento para que as boas ideias de portugueses que querem fazer pela vida se tornem uma realidade. Porque, como está, parece que para se ser empreendedor por cá tem de se montar um café com euromilhões.

  25. Jónatas

    E só um comentário ao que diz o/a Surprese: negar que o RAP fez por si toda a carreira que tem e dizer que conseguiu o que conseguiu por cunha, é negar todo o crescimento que teve desde um programinha na SIC Radical até aos tais contratos milionários de que fala. Se há alguém a quem os liberais deviam aplaudir por ter feito o percurso desde o anonimato até ao estrelato pelo seu talento, é ao RAP. Se houve cunhas pelo caminho? É provável, não acho que ninguém seja santo nesse aspecto. Mas a acontecerem cunhas, que sejam destas, que promovem talento e gente com mérito como o RAP à frente dos tantos maus e fracos apresentadores e comediantes que temos por cá e que ninguém percebe como é que chegam onde chegaram.

  26. Jónatas

    Rodrigo, estou em falta contigo quando disse atrás que ninguém diz que há um problema em fazer chegar dinheiro a quem tem ideias. Porque referiste isso quando falas nos venture capitalists. Fica o reparo e as desculpas.

    E não discordo quando dizes que quem tem ideias tem de provar que a ideia que tem tem pernas para andar. E que passa, como é óbvio, por mostrar a quem tem dinheiro que tem um conceito, que tem um mercado e que pode gerar dinheiro. Não estou a pedir para os bancos serem a Santa Casa e dar dinheiro só porque sou um gajo com ideias giras. Até porque o rebentar da bolha das dot coms em 2007 está na cabeça de toda a gente.

    O que eu estou a dizer é que há muitas ideias em Portugal que cumprem todos estes requisitos e que esbarram no facto de não haver financiamento que as permita passar para outro plano. Um banco não é solução. Pelo juro que tira logo mas também por não ter todo um capital de networking que se consegue com os financiamentos e com a participação dos venture capitalists na gestão da empresa e no desenvolvimento do produto. E é isto que falta a Portugal se quer mesmo dar o salto. Está toda a gente preocupada com os bancos. E bem. Mas não estou a ver ninguém preocupado com isto. Portugal precisa de venture capitalists com visão, com dinheiro e com contactos. Porque as boas ideias existem e basta fazer uma pequena pesquisa pelo que é conseguido por aí para se perceber que muitas delas têm potencial e morrem apenas e só porque nasceram em Portugal.

  27. Surprese

    30. Jónatas: dei-lhe um polegar para baixo, porque V. Ex.a não entende o que é ironia.

    É evidente que o RAP é de uma família humilde, e não teve cunhas. Ele devia ver-se ao espelho antes de ser preconceituoso, e entender que todos conseguimos ter sucesso, independentemente das nossas bases de partida. O importante é a oportunidade.

    Só não entendo porque é que pessoas como V. Ex.a insistem que quem é de famílias humildes e não tem cunhas não tem hipótese de ter sucesso profissional.

    Essa parece ser uma característica de Esquerda, que quer igualizar a base de partida (baixando a dos outros).

    Eu prefiro igualizar as oportunidades, pelo que devo ser de Direita.

  28. Joaquim Amado Lopes

    EMS (26),
    “Só a partir de um certo patamar social se torna facil e natural ser-se um jovem sucesso. Os outros, os filhos das costureiras e dos camionistas, o mais provavel é continuarem a ser assalariados anonimos e mal pagos.”
    E só não seria assim se não fosse permitido aos pais e restante família ajudarem os jovens na sua vida académica, social e profissional. É isso que se pretende proíbir?

  29. Joaquim Amado Lopes

    Jónatas (29),
    “Joaquim Amado Lopes, o que está a dizer é em parte feito através das novas formas de obter financiamentos, como o crowdsourcing, que resulta em muitos países. No entanto, não sei até que ponto isso é solução para as tantas e tantas ideias boas que proliferam por Portugal,”
    Não respondeu ao que perguntei. Quantas dessas ideias se concretizaram num projecto e os respectivos autores foram realmente procurar financiamente, bancário ou outro?
    É que, se nem sequer procuraram financiamento, não se pode dizer que não têm sucesso porque ninguém as apoia. Ter uma ideia, rabiscá-la num papel e ficar-se por aí não é nada.

    “pela simples razão de que a maior parte das pessoas não tem capital próprio para investir para si, quanto mais pedir para que invistam o pouco que têm noutros projectos que não os deles.”
    Ou seja, não conseguem lançar os seus projectos por conta própria, não conseguem encontrar instituições ou investidores que os financiem e não querem juntar-se a outros como eles para se ajudarem uns aos outros e, um a um, lançarem todos os respectivos projectos.
    Eu também aposto no Euromilhões. Talvez seja hoje. 😛

    “Mas não tenho nada contra o que está a dizer, para além disto.”
    Pois.

  30. Joaquim Amado Lopes

    LOL
    É o que faz responder sem ler até ao fim aquilo a que se responde (refiro-me a mim, naturalmente). O Jónatas respondeu a vários comentários ao mesmo tempo e o “Mas não tenho nada contra o que está a dizer, para além disto.” fez-me julgar que tinha acabado a resposta ao meu comentário..

    Afinal o Jónatas respondeu ao que lhe perguntei (embora não fosse demais o Jónatas listar os projectos que conhece e que obtiveram financiamento mal saíram de Portugal) mas não concordo com a queixa sobre Portugal.
    Portugal é um país pequeno, provinciano e com uma economia dependente do Estado e do crédito fácil. É natural que não exista predisposição das instituições financeiras para apoiarem muitos projectos de alto risco. Mas, sendo assim, que se procure o financiamento noutro lado, como fizeram todas essas pessoas que conhece(?).
    E isso só justifica ainda mais elogios ao Martim.

    Quanto a “as boas ideias existem”, uma ideia só é boa depois de dar bons resultados. O que quer dizer que só a ideia não chega.
    E se “Portugal precisa de venture capitalists com visão, com dinheiro e com contactos”, recomendo-lhe a mensagem do filme “Field of Dreams” (com Kevin Costner). É fazer-lhes chegar a mensagem e isso não custa assim tanto dinheiro.

  31. Calma pessoal,
    Nem todas as ideias precisam de capital para serem executadas. O capital é necessário para a fase de crescimento, expansão e divulgação!

    O grande problema no empreendedorismo no país é a falta de conhecimento de como se lançam rapidamente negócios a custo 0. Pode parecer muito difícil ou quase impossível, mas digo-vos que é extremamente fácil quando se sabe como se faz e se esta rodeado dos parceiros certos. Felizmente estamos a fechar um pequeno investimento em Portugal para melhorar imenso o produto e depois vamos para os EUA para expandir e atacar o mundo a partir de lá. Em Portugal ainda há uma cultura de investimento muito retrograda, mas penso que com este “boom” nacional das startups tecnológicas, os investidores já começam a ter outra sensibilidade para este tipo de negócios.

    Se alguém tiver uma ideia de negócio e não souber como dar o próximo passo, fale comigo. Estou a ajudar imensos jovens 😉

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