No Fio da Navalha

O meu artigo de hoje no jornal i. Há 10 anos, um governo alemão de esquerda encetou reformas similares às que devemos fazer hoje em Portugal e que o PS considera deploráveis. É caso para dizer que cada país tem os políticos que merece.

A esquerda na Alemanha

Há dez anos a Alemanha era o doente da Europa, em parte devido aos custos de integração da RDA. Isso mudou. Como? Devido às reformas nas leis laborais, aos cortes nos subsídios de desemprego, nos excessos vários do Estado social e no aumento da idade da reforma. Até os impostos baixaram. Estas reformas foram feitas por Gerhard Schröder, líder do SPD e chefe do governo que o seu partido formou com os Verdes. Um governo socialista que fez as reformas que a nossa esquerda considera atentatórias da dignidade humana.

Hoje a Alemanha domina a Europa, não por ter sido mal–intencionada, mas por ter feito o que os outros não quiseram: resolver os problemas que lhe hipotecavam o futuro. Para o conseguir, o governo alemão contou com sindicatos que aceitaram congelar salários para evitar despedimentos. Passada a tormenta, os ordenados dos alemães, função pública incluída, vão aumentar mais de 4%. Foi isto que o nosso Tribunal Constitucional chumbou com os aplausos de muitos.
Saber que um governo de esquerda fez na Alemanha as reformas que devemos levar a cabo é importante. Faz-nos ver que aquilo que o governo alemão nos exige não é nada por aí além. Por cá, como nos restantes países do Sul, compara-se a exigência alemã com os seus erros no passado. Nada mais injusto e perigoso. Na verdade, o que objectivamente podemos ver, e os alemães vêem de certeza, é que para muitos a solidariedade europeia parece não ter passado de um conceito para os forçar ao pagamento de pecados passados.

10 pensamentos sobre “No Fio da Navalha

  1. Carlos Pacheco

    Falta comparar o que são os “excessos vários do Estado social” alemão com aquilo que os ultra-liberais portugueses acham que são os “excessos vários do Estado social” português. Ai sim, teríamos alguma coisa para discutir.

  2. palavrossavrvs

    Na Alemanha somos alemães e superamo-nos em todos os campos. Em casa, temos medo. Falta um discurso mobilizador e a lobotomia certa: a nossa meta já foi a Índia.

  3. Luís Lavoura

    Pois. Mas o facto é que Portugal já hoje é aproximadamente tão liberal como a Alemanha. Em Portugal já hoje é bastante fácil despedir pessoal, os salários têm estado efetivamente congelados, e o Estado Social, em particular o subsídio de desemprego, está cada vez mais reduzido. Apesar disso, a economia não cresce.
    Os liberais têm que se convencer de que as suas “receitas”, por lógicas e perfeitas que sejam, nem sempre produzem resultados efetivos.

  4. dervich

    “os salários têm estado efetivamente congelados” e, nos últimos 2 anos, cortados.

    O que ainda não se experimentou cá, com efeito, foi a descida de impostos, nem a co-responsabilização dos sindicatos na gestão e na redistribuição dos lucros das empresas (excepto Auto Europa), isso foi o que nunca se experimentou cá.

  5. Carlos Pacheco

    Caro APC, sobre o aborto nem vale a pena. Os valores são ridículos e a sua moral de liberal é decerto bem mais conservadora que a minha. Sobre o RSI, parece que lá a procura era tanta, entre alemães e imigrantes, que, já no governo merkel, começaram a impor algumas restrições ao acesso do RSI a imigrantes, restrições essas bem mais suaves do que a que vocês pretendem impor aos próprio cidadãos nacionais.

  6. Rúben Lopes

    “Pois. Mas o facto é que Portugal já hoje é aproximadamente tão liberal como a Alemanha. Em Portugal já hoje é bastante fácil despedir pessoal, os salários têm estado efetivamente congelados, e o Estado Social, em particular o subsídio de desemprego, está cada vez mais reduzido. Apesar disso, a economia não cresce.
    Os liberais têm que se convencer de que as suas “receitas”, por lógicas e perfeitas que sejam, nem sempre produzem resultados efetivos.”

    E o aumento de impostos? E a manutenção da nobreza funcionalista? E a manutenção do regime corporativo da “concertação social”? E o facto de não haver nenhuma alteração nos salários, mordomias e carros dos políticos (incluíndo os comodistas e os borloquistas)? Liberal, o tanas! A esquerda só existe por causa da sua irracionalidade, emocionalismo e mentiras, que infelizmente, apelam às massas.

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