‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?’

A propósito do texto do Henrique Raposo aqui linkado e das reacções que foi provocando, vale a pena ler Nick Cohen neste ‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?‘ da Standpoint. Este é um assunto muito cansativo para mim – de tão claro que é e dos lados que se desenham e se devem escolher – mas que infelizmente não me vai largar tão depressa. É tão óbvio que nem todos os muçulmanos são terroristas ou aprovam a matança de gente inocente (muçulmana ou infiel) que nem é necessário reafirmá-lo. Já quanto à relação dos muçulmanos, terroristas ou não, com os comportamentos aceites como bons nas mulheres ocidentais – as tais mulheres de que o Henrique fala, que usam alcinhas e mini-saias, viajam sozinhas ou com amigas, trabalham ou estudam juntamente com homens que não lhes são nada, saiem à noite e, sim, têm os affaires sexuais que lhes apetece – só alguém profundamente alienado da realidade pode pretender que os muçulmanos, a esmagadora maioria deles, convive bem com essa realidade para as suas mulheres e irmãs e filhas. É certo, haverá muçulmanos cosmopolitas e que aprovam os costumes liberais do ocidente – são uma ínfima minoria.

Estou-me a lembrar de um americano de origem iraniana que costumávamos encontrar ano após ano nas mesmas feiras, nos mesmos combóios, nos mesmos hotéis, às vezes nos mesmo escritórios e com quem conversávamos sempre que nos víamos. Ele é (era, pelo menos) um muçulmano moderado. Encontrei-o na China poucas semanas depois do 11 de Setembro, falámos do assunto e vieram-lhe lágrimas aos olhos. Ainda não se sabia quantas pessoas haviam morrido e ele garantia serem mais de 10.000. Muito cordialmente, sempre que nos encontrávamos apertava-me a mão, tal como fazia com os meus (masculinos) acompanhantes de trabalho. Por umas duas ou três vezes este americano levou a mulher consigo nestas viagens. Era uma senhora bonita, com olhos pretos e aquele nariz do médio oriente, elegante, sem burkas nem véus nem lenços na cabeça; a mim apertava-me a mão, aos homens que me acompanhavam nem pensar. Isto é a moderação muçulmana. Também me lembro de uma empresa saudita que vendia vidro e costumava expor na feira de Frankfurt. Só tinha homens lá trabalhando, obviamente. O curioso é que também só aceitavam clientes masculinos; qualquer senhora que se acercasse para pedir informações comerciais era inteiramente ignorada pelos vendedores da dita empresa. E lembro-me ainda de um muçulmano simpático de keffieh na cabeça que uma vez no Forte Vermelho de Delhi (não sei se o simpático muçulmano era indiano; parecia mais árabe), ao ver que o meu acompanhante masculino (por acaso era meu marido) me colocou a mão por trás das costas à altura da cintura (uma pornografia, portanto), teve a também agradável ideia de vir colocar-se à minha frente e cuspir para o chão com ar furioso; sendo que fez tudo isto olhando para mim, nunca para a parte masculina da cena. Ou lembro-me do ar de escândalo de um muçulmano (vestido da forma usual na Europa), acompanhado de uma senhora coberta de preto só com os olhos à mostra, em Dezembro passado em Londres, quando eu lhe falei para pedir, por ter as mãos ocupadas com sacos e crianças, que carregasse num número do elevador onde estávamos.

Enfim, lembro-me me muitas mais histórias passadas com muçulmanos ‘moderados’ e outros mais acintosos. Nenhuma destas histórias da forma como os muçulmanos se relacionam com as mulheres eu gostaria que passasse a ser a regra na Europa onde vivo. Mas, pronto, podemos fingir que estes comportamentos muçulmanos são normalíssimos. Sobretudo, podemos fingir que estes comportamentos não são sintoma de uma visão das mulheres e dos direitos das mulheres que devia ser aberrante para todos os europeus. Podemos ainda fingir que o repúdio do modo de vida europeu e americano pelos terroristas islâmicos não contém lá dentro um igualmente grande repúdio pela liberdade feminina no ocidente. Podemos fingir, por último, que o facto de isto se passar com muçulmanos é coincidência e nada tem a ver com o Islão actual. (Afinal os hindús e os judeus hassídicos também têm as suas manias, não é?) Continuemos a fingir e depois não nos queixemos daquilo que se passar a considerar actos civilizacionais.

13 pensamentos sobre “‘Feminism Or Islamism: Which Side Are You On?’

  1. dervich

    “Mas, pronto, podemos fingir que estes comportamentos muçulmanos são normalíssimos.”

    Depende, é uma questão cultural: Não vi, nos exemplos que referiu, qualquer limitação de direitos básicos (quando muito existiu desrespeito), aliás, correspondem a uma sociedade parecida com a que havia em Portugal há 50 anos atrás

    Não é normal um(a) ocidental comportar-se de modo ocidental quando está no Islão, assim como não é normal que um(a) oriental se comporte de modo oriental quando está no Ocidente: Em Roma sê romano e quem está mal que se mude.

    Já me parece uma história diferente quando as mulheres são mortas por adultério ou por violação, ou quando são totalmente impedidas de sair à rua sozinhas, de conduzir, de estudar, etc… tal como considero diferente que se proiba (para todos) a música, o jogo, a liberdade de pensar e de falar, etc…

    Mas isso só mudará um dia, não com guerras, mas com alterações culturais a partir de dentro e não impostas do exterior, assim como os orientais deveriam saber que jamais será com bombas que mudarão o ocidente.

  2. Maria João Marques

    Dervich, nenhum dos exemplos que dei se passou num país muçulmano (a Índia é maioritariamente hindú). Também não me queixem de me cercearem direitos, mas de comportamentos que não quero que se tornem comuns no mundo onde vivo. Porque quando se tornarem comuns os meus direitos também vão estar condicionados.

  3. Joaquim Amado Lopes

    Um muçulmano, cristão, hindu, budista ou ateu ser mais ou menos moderado nos seus comportamentos é irrelevante e diz respeito apenas ao próprio. A única coisa que realmente interessa é se aceita que o que a sua fé dita se aplica a si próprio e a mais ninguém. A partir do momento em que um qualquer extremista/radical/moderado acha que quem não professa a mesma fé que ele tem que seguir – no todo ou em parte – as regras ditadas por essa fé, o limite do aceitável foi ultrapassado.

  4. Duvmet

    Não é apenas uma questão de costumes, como muita gente quer crer, deseja crer. Os costumes são decantados da moral vigente e esta, no Islão, está total, imperativa e definitivamente codificada na Lei divina que é, tb, a lei terrena, a fonte “constitucional” de todo o direito.
    Não custa nada ir ao Alcorão e fazer uma rápida súmula das leis aplicáveis às mulheres e do próprio conceito de “mulher” que dali se extrai.
    Sim, não tenho dúvidas que muito do que lá vem foi decalcado dos livros sagrados judeus e cristãos, o Islão construiu-se com estas heranças.
    Mas a sua natureza fechada e definitiva, a impossibilidade de separar o religioso do politico, César de Deus, Antígona de Creonte, criou o monstro perfeito.
    Não há “evolução” possível, e é por isso que as mulheres viverão sempre uma tragédia, no Islão… a tragédia de serem seres de 2ª categoria, de serem escravas, de serem como animais domésticos e fontes do pecado dos homens.
    Aconselho a leitura do livro de Hirsii Ali, uma ex- muçulmana da Irmandade Muçulmana que acabou refugiada nos EUA ( está casada com Nial Ferguson) e que narra na 1ª pessoa essa tragédia e os seus fundamentos.

  5. politologo

    …não se trata já sequer de aceitar ou não aceitar outras escalas de valores , mas sim ,pior, teimar pela sua não existência . Assim, este Mundo jamais será entendido …E assim nada aprendemos . Burros e teimosos . E pelo que nos toca , a adulteração da nossa escala de valores deu no que deu e assim vamos longe tão longe quanto o Apocalipse !!! Oculos habent et non videbunt

  6. A. R

    Não há islão moderado. São todos violentos ou calam-se e portanto aprovam a violência. Recordemos que mais de 70% dos islâmicos no ocidente matariam para defender o islão. O islão é um projecto político totalitário e anti-democracia.

  7. hajapachorra

    A questão é bem outra, mas não pode ser dita. Todas as misérias do cristianismo, e são, e foram muitas, decorrem da incoerência, da infidelidade dos cristãos, isto é, são consequência do ‘pecado’ não da doutrina. O mesmo não se pode dizer do islamismo. A ideia de um islão ‘moderado’ só pode passar pela cabeça de quem desconhece a história. O centro da civilização europeia esteve durante séculos na África romana e depois em Constantinopla. Tudo isso foi destruído entre o séc. VII e o séc. XV. Têm noção de que os muçulmanos dominaram a Hispânia mais tempo do que os romanos? Apesar disso, não é possível qualquer comparação entre os legados de ambas. O islamismo é uma religião respeitável mas muito primitiva, como o judaísmo.

  8. Duvmet

    POrque acha que o islamismo é uma religião “respeitável”? Respeitável para quem? Para os que ela nomeia explicitamente como alvos ?

  9. Luís Lavoura

    Se a mulher não quer apertar a mão a homens, é livre de não o fazer. Ela pode perfeitamente achar incómodo apertar uma mão muito maior que a dela. Ou não se sentir à vontade.
    Não é aqui neste blogue que se costuma defender a discriminação privada? Se os comerciais de uma empresa se recusam a atender clientes femininas, problema deles, que perdem potenciais clientes. Ou não? Ou será que a discriminação privada só é boa quando é feita contra, digamos, os homossexuais?
    A Maria João amplia a toda uma religião comportamentos singulares que observou. Eu também posso dizer que anda recentemente, tendo almoçado no restaurante da mesquita de Lisboa, encontrei lá uma senhora toda coberta, só com os olhos à mostra, que se me dirigiu (sem eu lhe ter falado) com enorme à-vontade e familiaridade (e num português perfeito), sem quaisquer constrangimentos.

  10. politologo

    Diminuem as “discriminações privadas” e aumentam as “descriminações privadas” ?
    … isto a propósito de algumas “discriminações privadas” , se a desculpa é que o “mal” é de nascença , então qualquer dia podemos deitar o Código Penal às urtigas , e todos os “criminosos” ou vão para o hospital ou são inocentes …mas cada vez com menos vergonha ….

  11. politologo

    O APERTO de MÃO
    21 de JUNHO , Dia de Santo Aluísio, é também o DIA do APERTO de MÃO !…O Aperto de Mão é um acto muito sério . E para gente muito séria . O Aperto de Mão , dependendo da cultura , pode
    ser um gesto social por vezes relevante e que expressa um sentimento positivo de sincera amizade e afinidade ou merecida confiança entre dois seres humanos habitualmente do sexo masculino . E apenas com um enérgico e firme Aperto de Mão chegaram a ser selados compromissos que eram muito importantes . Até valiosos !…
    Hoje qualquer um “incivilizadamente” aperta a mão a qualquer outro !… O Aperto de Mão foi assim vulgarizado senão banalizado !… Sobretudo nas zonas rurais com esta cultura popular ou em áreas urbanas com origem naquelas zonas .
    O Aperto de Mão teve a sua origem em tempos pré-históricos
    quando os guerreiros a apaziguarem pretendiam assim demonstrar que não estavam de posse de qualquer arma !…
    Por agora não nos reportamos aos aspectos mais responsáveis ou hierárquicos do Aperto de Mão nas boas regras de civilidade, tais como o aperto de mão demorado ou sonolento de dedos caídos ,ou com objectos na mão , pelo que nos remetemos apenas para os problemas relacionados com a Saúde Pública .
    Na verdade , sobretudo nos picos epidémicos (v.g. gripe) , não deve haver Apertos de Mão . E ainda o Manual de Saúde Pública aconselha a que o Aperto de Mão não deve ser realizado com as mãos suadas ou sujas . Mãos limpas , Saúde sã .
    ……………………………………………………………………………………………………………………………..
    POESIA relacionada com o APERTO de MÃO
    Estava ali, mas nós somos assim mesmo,
    não damos o devido valor quando se tem em mãos;
    Agora longe, muitas vezes sem nenhum tipo
    de contato é que vemos é que um simples aperto de
    mão pode arrepiar até o último fio de cabelo;
    Ontem sentia que faltava algo,
    hoje você é responsável por uma dor que não me é cruel,
    mas machuca tanto.
    (Bob Marley)
    ……………………………………………………………………………………………………………………………..
    Aquele Aperto de Mão
    Não foi Adeus !
    (Osvaldo Alcântara)
    ……………………………………………………………………………………………………………………………..
    Um Aperto de Mão vale Ouro .
    Um Bom Aperto de Mão passa Energia
    (Silvia A. Motta)

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