As mentiras recorrentes de António Costa, ou as «narrativas» do PS, ou lá como se chama

António Costa repete com alguma regularidade falsidades, nomeadamente no programa Quadratura do Círculo, onde participa regularmente às quintas-feiras. São facilmente comprováveis por um acesso rápido à base de dados da Comissão Europeia, designadamente aos valores mais actualizados para todos os reportes sobre défices excessivos. Diz que

1) O PS está confortável porque foi o único partido no governo que conseguiu cumprir os «limites orçamentais», pelo que quer referir os limites do Pacto de Estabilidade, isto é, défices abaixo dos 3%.

– É falso. Portugal nunca cumpriu, com o PS no governo ou fora dele, os limites do Pacto de Estabilidade, ou os critérios de convergência que eram eliminatórios para a entrada na zona euro. Revisões de contas posteriores, quer respeitantes ao PIB, quer às contas públicas, estabelecendo os valores definitivos, assim o determinaram. Consulte-se na referida base de dados a variável: 16 General Government > 16.4 Excessive deficit procedure > Net lending e obtenha-se o quadro com o cabeçalho: Net lending (+) or net borrowing (-): general government :- Excessive deficit procedure (Including one-off proceeds relative to the allocation of mobile phone licences (UMTS))  (UBLGE), com a métrica em % do PIB*. Desde 1977 para a actualidade, só em dois anos o défice foi inferior a -3% do PIB: em 1977 (-2,8%) e em 1989 (-2,9%). Refiro-me exclusivamente ao período posterior a 1977, pois é aí que começa a base de dados. Para dados anteriores e séries mais longas, ter-se-ia de recorrer às do Banco de Portugal, que não são congruentes com as da Comissão.

2) Que a Alemanha, não Portugal ou outro país qualquer, a Alemanha inaugurou o procedimento sancionatório para as violações do Pacto de Estabilidade (défices maiores do que 3% do PIB).

– É falso. Portugal inaugurou em 2001, era Guilherme de Oliveira Martins ministro das Finanças, depois de Pina Moura ter sido despedido. O Eurostat detectou uma série de irregularidades na desorçamentação de aumentos de capitais de empresas públicas cronicamente deficitárias, Guterres no final do ano declarou o estado de pântano, Barroso ganhou as eleições seguintes, Manuela Ferreira leite foi para o Ministério das Finanças, pediu-se ao Banco de Portugal uma «auditoria» ao défice, que começou por dar o que então se considerava uma monstruosidade de 4,3% do PIB em défice, que acabou por ser fixado pelo Eurostat em 4,8%. Em 2004 Portugal sairia dos défices excessivos, excepto que revisões de contas posteriores revelaram que nunca saiu. Tal como em 2007 não saiu. Nunca saiu. Em 2001, saber-se-ia mais tarde do que se soube em relação a Portugal, também a Alemanha e a Itália excederam os 3%, de forma muito menos espectacular, é certo, mas excederam (-3,1%). Portugal permaneceu para sempre em défice excessivo, como nunca deixou de estar antes, a Alemanha e a Itália não. A Alemanha, até melhor informação, tem hoje um orçamento excedentário.

Estas vírgulas não teriam qualquer interesse, sendo geralmente uma chateza, não se desse o caso de, mentindo sobre elas, por ignorância ou má-fé, mas falseando, António Costa, sem que ninguém o desminta, e Sócrates, sem que ninguém o desminta, se entregarem àquilo que naquela zona se chama «narrativas», que, como se vê, é propaganda enganosa.

Gráficos ilustrativos podem ser vistos aqui e aqui.

* Pode alternativamente recorrer ao Portal do INE, mais exactamente aqui, ir a B.A, obter as contas económicas anuais das administrações públicas (S.13), e fazer contas com o PIB a preços correntes, óptica da despesa, disponível na mesma base de dados, apenas de 1995 em diante. Com queira.

3 pensamentos sobre “As mentiras recorrentes de António Costa, ou as «narrativas» do PS, ou lá como se chama

  1. tina

    Foi por causa dele que deixei de ver a Quadratura do Círculo. Jorge Coelho ainda tinha princípios, no programa final até confessou como tinha sido difíceis para ele aguns momentos. Enquanto o Gordo Costa mente como se nada fosse, é da mesma escola de Sócrates.

  2. JP

    Se há coisa fascinante na estatística e probabilidades, é que quando há enganos no troco, em 99% dos casos é a favor do comerciante, que é quem se enganou.
    Outra coisa facinante é que isto se deve sempre a falhas involuntárias.

    Se calhar o problema está na natureza das coisas.

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