Um bico de obra

Leitura rápida do Fiscal Monitor hoje publicado pelo FMI, e já desactualizado quanto aos valores efectivos contra os quais a posição de Portugal deveria ser medida: desactualizados nas projecções do défice e nas estimativas e projecções da dívida. Em todo o caso, há aspectos interessantes a relevar, porque nos põem em comparação com o desempenho das outras economias avançadas e, além disso, nos permitem uma rápida avaliação do caminho que temos pela frente. Que é muito árduo. Em primeiro lugar, entre 2011 e 2013, como evoluímos quanto à mais decisiva das questões que teremos de enfrentar: como estabilizar e depois inverter o crescimento da dívida pública?

Fical monitor 1

Tínhamos, no conjunto das economias avançadas, em 2011, o segundo mais elevado rácio de dívida pública em relação ao PIB (a Grécia, que fez entretanto o maior incumprimento da história, não está neste gráfico) e fomos o segundo país com maior crescimento da dívida pública. A Itália tinha uma dívida mais elevada, e a Espanha superou-nos no salto. A Espanha tinha 70% do PIB em dívida e ao dar um salto de cerca de 30 pontos percentuais ficou ainda bem aquém de onde estávamos, e a Itália, ao dar um salto de cerca de oito pontos, deu um salto que é metade do que demos (16 pontos). O segundo maior salto do segundo pior colocado é o pior desempenho da liga? O que o explica?

Fiscal Monitor 3

Em termos acumulados, o défice primário, o que exclui os juros, aquele sobre o qual há margem discricionária (paz ao Tribunal Constitucional…), já não explica praticamente nada. O acúmulo de dívida é exclusivamente provocado por efeitos automáticos (a beije) – é a designação técnica e neste caso muito precisa e esclarecedora -, o resultado do diferencial entre o crescimento real da economia e a taxa de juro implícita, contratada, na dívida, e também por operações extraorçamentais sobre activos financeiros (a cinza): constituição de depósitos no Banco de Portugal, aumentos de capital nos bancos, privados ou públicos, etc. O grosso provém da diferença entre o crescimento e a taxa de juro, a chamada taxa de juro ajustada pelo crescimento. Em 2012 foi assim:

Fical monitor 2 Confirma o FMI que a tal diferença entre o crescimento e a taxa de juro tenha atingido uns astronómicos 7 pontos percentuais do PIB. A beige está a parcela do crescimento, com um contributo da ordem dos 3 pontos percentuais, e a azul está isolado o efeito juros, da ordem dos 4 pontos percentuais.

O significado deste último quadro é simples: sem – pelo menos – um excedente primário igual àqueles sete pontos a dívida não estabiliza. Ou a economia cresce e o excedente primário necessário para ela estabilizar diminui, ou então, como dizia o engenheiro de má memória, o outro, o verdadeiro, ou então é fazer as contas.

Vale a pena acrescentar, para não dramatizar excessivamente o problema, que a actual dívida, de 124% do PIB inclui depósitos do Estado no Banco de Portugal em valor superior a 10% do PIB, valor sem comparação nos nossos anais. A prudência nunca se recomendeou tanto. E saúda-se.

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14 pensamentos sobre “Um bico de obra

  1. Jorge Costa

    Já o tinha lido de esguelha. Primeiro: ele não sabe quem é Soares, como ele está, etc. A mim pare-me afectado de demência senil. Depois ignoro que contas é que ele fez, porque não explica.

  2. silver

    O problema é que a economia não cresce.E o défice está muito dificil de ser cortado(veja-se o valor do ano passado).Como vamos sair desse imbróglio? Percebo perfeitamente que tenhamos de encontrar uma solução, qual, confesso a minha dificuldade para concluir qual

  3. Jorge Costa

    Não sei como sairemos. Sei apenas, e tenho a certeza, que será pelo corte muito substancial da despesa pública. Disso não tenho dúvidas. Se esse corte for de natureza estrutural, permanente, terá efeitos positivos sobre a tendência de crescimento de longo prazo da economia. Outra forte convicção.

  4. É só seguir o exemplo:

    A Letónia abraçou a austeridade

    E deu-se bem…

    Em 2008, no rescaldo da crise financeira, a Letónia, que acumulava um enorme défice externo, viu-se privada de financiamento e foi forçada a pedir um empréstimo de 7,5 mil milhões de euros à União Europeia e ao FMI.

    O país seguiu uma rigorosa receita de austeridade, levada por vezes além do que prescreviam os credores. Depois de ter caído 3,3% em 2008, a economia afundou 17,7% em 2009 e 0,9% em 2010.

    Ainda assim, o défice orçamental passou de 9,8% em 2009 para 3,4% em 2011, prevendo o Governo que o desequilíbrio das contas públicas encolha para 1,9% no final deste ano, durante o qual a economia deverá crescer 3,7% – menos do que os 5% registados no ano passado.

    Em contrapartida, as desigualdades sociais acentuaram-se no país e o desemprego permanece elevado, em torno de 13%, valor que ainda duplica o dos níveis pré-crise mas que está já distante do “pico” de 20,5% atingido em 2010.

    Os mercados recompensaram a disciplina orçamental e os planos de adesão à Zona Euro: os “juros” da dívida pública a cinco anos passaram de 12% em Março de 2009 para um mínimo histórico de 1,7% no final do ano passado, segundo refere a Bloomberg. Aproveitando as condições favoráveis do mercado, Riga emitiu dívida ainda no fim de 2012 que lhe permitiu pagar a totalidade do empréstimo pedido ao FMI com quase três anos de avanço.

    A Letónia – assim como a vizinha Estónia – tem sido exemplo do sucesso que alguns economistas e que a Comissão Europeia atribuem a políticas de desvalorização interna.

    aqui

    Comentário:

    A austeridade simplesmente funciona quando se faz aquilo que é preciso ser feito.

    E ou se muda rapidamente de atitude em Portugal e se faz uma austeridade à séria ou a contrapartida será uma taxa de desemprego cada vez maior podendo chegar aos 25% da população ativa.

    Uma austeridade a sério corrige uma economia em poucos anos. Portugal vai querer agarrar o touro pelos cornos ou vai preferir optar por uma década perdida?

  5. LV

    Os problemas não estão resolvidos na origem – sistema bancário. Logo, “as soberanas” não podem resolver-se sem grandes mudanças e graves consequências para o cidadão comum. Siga-se a investigação feita por RMiddleton sobre a banca irlandesa (link:http://boombustblog.com/) … e a seguir GB… e a seguir EUA… It´s hell all over again!

    Há que preparar para muito mais austeridade.
    LV

  6. “Há que preparar para muito mais austeridade.”

    No dia que a farsa do dinheiro virtual for exposta simplesmente não se paga. Dinheiro só tem valor enquanto bem quantificável e a função básica do dinheiro é promover a troca não é promover o crédito.

  7. Pingback: Estratégia | O Insurgente

  8. Rb

    Cortar na despesa?
    Sim. Mas isso devia ter sido há dois anos. Depois de dois anos a aumentar impostos, a desempregar, a falir, a gerar incumprimentos à banca, dizia, depois de dois anos a fazer asneiras, a economia já não tem massa corporal para aguentar a redução de despesa necessária.
    .
    Assim sendo, o melhor é mesmo controlar a despesa e abster-se de reduzi-la naquela parte da mesma que gera recessão automática, e limitar-se a desbastar os excessos. Existe 1/3 da despesa que não gera recessão. E esse terço da despesa representa cerca de 27 mil milhoes. Uma redução de 20% de 27 mil milhoes são, portanto, é só fazer as contas :). Vá, são 5,4 mil milhoes.
    .
    Se o governo fizer isto, num plano bem defino no tempo e perfeitamente antecipavel pelas pessoas, o lado da receita crescerá mais do que o esperado…
    .
    Já não se trata de uma questão economico-cientifica; trata-se de uma questão de bom senso.
    .
    Ricciardi (Rb)

  9. Rb

    A questão da Letonia, caro Vivendi, tem uma diferença substancial com Portugal. A Letónia não estava endividada, senão pela metade de Portugal. Tampouco os privados estavam tão envidados, senão pela terça parte. Ora, isto faz toda a diferença no resultado da dita desvalorização interna.
    .
    A desvalorização interna não funciona sempre, nem em todos os casos, não é? Pois então, parece-me que não pode funcionar bem em paises cuja população está hiper endividada. A população e o estado. É que, como diria a minha empregada doméstica, não se pagam dividas reduzindo salário.
    .
    Ricciardi (Rb)

  10. Rb

    Isto, sem prejuizo de achar que a melhor de nos ajudarem não é darem-nos dinheiro para os nossos governantes o desbaratarem. Nada disso. A melhor de nos ajudarem é fazendo mais negócio connosco. Trade, not Aid. Deixo aqui a frase de um bife com a qual muito concordo:
    .
    – «’m bailing Portuguese vineyards out by buying wine from our oldest ally. Plenty of fine reds, and a fair few good whites now.

    Trade, not aid, is the only way forward. If you’ve lent money to the Portuguese government to pay bureaucrats, who are not rare in Portugal, why on Earth should you expect to get it back?»
    .
    Ricciardi (rb)

  11. Ricciardi,

    Quem pode pagar dívidas sem ser primeiro auto-sustentável?

    Os credores externos só nos vão dar tréguas quando Portugal se tornar auto-sustentável e não por dever mais milhão ou menos milhão.

    O privado corrigiu e continua a corrigir e muitas vezes à bruta e cheia de amarguras. Milhares de histórias ficam por contar do ajustamento do privado pelos merdia.

    E no estado o que vemos? Uma dívida sempre a crescer e que asfixia por tabela ainda mais os privados.

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