Como viver em tempo de crise?

É o título de um curto ensaio de Edgar Morin, que, para quem não sabe, está longe de poder ser clasificado um perigoso neo-liberal. Sem prejuízo que estou longe de subscrever algumas das suas conclusões, Morin, e muito bem, alerta para as dificuldades de compreensão que arriscamos em relação ao mundo que aí vem, se não formos capazes de aceitar, desde logo, três conceitos: ambiguidade, ambivalência e complexidade.

Sem entrar em grandes dissertações, que dificilmente caberiam nos limites de um post, julgo que Morin nos lança, desde logo, um grande desafio, em particular para um Europa fechada sobre si própria, em defesa do seu status quo: as crises agravam as incertezas, favorecem as interrogações, e podem estimular a busca de novas soluções. Pese embora, em sentido inverso, provoquem em muitos “reacções patológicas“, que conduzem, “por exemplo, [à] designação de um bode expiatório“. Morin apela a que sejamos capazes de, por um lado, (1) sermos sensíveis às contradições, para que as possamos ultrapassar, ao mesmo tempo que (2) abrimos o nosso espírito à aceitação da incerteza, seja ela (2.1.) cognitiva ou (2.2.) histórica, no sentido em que é, no caso da primeira, impossível apreender todas as dimensões da realidade, e da segunda, porque a história, não sendo um processo fechado, não pode ser antecipável naquilo que há-de vir.

Morin acerta quando afirma que “(…) nos falta consciência da humanidade planetária (…) consciência que ainda não se desenvolveu (…)”. E acerta ainda mais quando alerta que, apesar disso, “(…) estamos condenados a avançar na ignorância (…)”, sem contudo nos resignarmos: “(…) Pelo contrário, devemos esforçar-nos por pensar bem, por elaborar estratégias com inteira consciência do que está em jogo (…)”. É nesta ambiguidade que somos forçados a evoluir, não sem não esquecer duas limitações básicas, que “(…) uma vez lançada, toda a acção entra num jogo de interacções e retroacções no seio do meio onde se efectiva, que podem desviá-la dos seus fins e chegar até um resultado oposto do esperado (…); e “(…) as consequências últimas da acção são imprevisíveis (…)”.

São estas últimas limitações que me levam a permanecer estruturalmente liberal, apesar do encanto de alguns escritos, e a estar longe de Morin naquilo que ele considera, ainda assim, a afirmação da estratégia, e de uma política de acção consciente, que eu defendo mais limitada, e até barrada na esfera da catalaxia hayekiana. Agrada-me ler a defesa de uma certa utopia do realismo, e duma abertura ao incerto e ao inesperado. Bem como o apelo a “(…) uma tomada de consciência da amplidão, da profundidade da complexidade que ateste um novo começo (…)”. Esta ecologia da acção continua a ser ainda assim demasiado centrada no homem como princípio e fim de todas as coisas, recusando que pelo menos parte da complexidade possa conformar-se por si mesma, obedecendo a dinâmicas próprias, a uma racionalidade não consciente, a leis que ultrapassam a capacidade política e a vontade dos homens. Se a ambiguidade, a ambivalência, e a complexidade, no sentido que lhes dá Morin, são noções importantes para percebermos o mundo, e ajudar-nos a afastar daquilo que são as ditaduras do pensamento único e o fanatismo ideológico, perceber as limitações da acção deveria conduzir Morin a uma maior coerência como encontramos em Hayek, reconhecendo sem hesitações o papel da Lei e das racionalidades não conscientes imanentes aos processos sociais e económicos.

Mas admito que seja difícil para quem sempre bebeu no humanismo, esforçando-se por o reinventar, avançar na negação de uma dimensão política para toda a acção, aceitando que, em muitos domínios, a melhor ecologia passe simplesmente por não agir: no sentido de descentralizar a acção para junto de cada um, gerindo a sua miopia e incerteza sob a inspiração do interesse próprio, como alternativa à centralização da decisão em quem, por vezes, apesar de dotado de uma certa vocação estratégica, vive igualmente limitado na miopia face à complexidade, e órfão do sentido de responsabilidade imanente ao facto de agir sem sofrer as consequências. Chegados aqui, poderíamos avançar para Rand, mas são horas de fechar as leituras e ir jantar.

3 pensamentos sobre “Como viver em tempo de crise?

  1. PedroS

    Não leve a mal o meu comentário, mas ao contrário do que pensam os Derridas et. al deste mundo,eu acho que as ideias não precisam de estar envoltas em metáforas e logorreia para serem profundas… Compreendo que não tivesse tido tempo para tornar o seu texto mais curto, ou estava a tentar imitar o estilo grandiloquente e vácuo de certos personagens?…

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