Carta aberta ao Infante Tó Zé

Caro To-Zé Inseguro,

Escrevo-te esta missiva porque me dizem que aprecias a palavra escrita e valorizas algumas tradições que a ditadura dos mercados e o neo-liberalismo tecnológico eliminaram do debate político, com a sua “deslocalização” – a terrível “deslocalização” –  para plataformas on-line, facebooks, blogs, smartphones, e uma panóplia de ambientes virtuais onde todo e qualquer um tem direito à opinião (imagina, até o Paulo Querido consegue ter voz). Longe estamos do tempo em que o debate se fazia de forma ordeira, em salas luminosas, com o brilho novecentista, preenchidas pelas boas ideias que os mapas de excel – um destes dias tenho de te mostrar um – teimam agora em contrariar. Economicismos…

Hoje, ao ouvir-te na caixa mágica da televisão púbica, renasceu em mim a Esperança. Vejo em ti o Infante de que o País precisa para voltar a Sonhar. Sim, porque já dizia o poeta, Portugal só se concretiza na Utopia dos homens, que Sonham, para que a Obra nasça.

Sim, caro Infante, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. E as tuas palavras, aparentemente inconsistentes, carregam essa ânsia de infinito, nesse sonho que “é ver as formas invisíveis, da distância imprecisa, e com sensíveis movimentos de esperança e da vontade, buscar na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte – os beijos merecidos da Verdade”.

Sim, caro Infante, muitos te irão apontar que “o esforço é grande e o homem é pequeno”, e que o mostrengo, esse, por aí continua a pairar. “Esse mostrengo que do Centro da Europa, se ergue e paira e está aí sempre a cobrar, o que nós, Portugueses, insistimos em gastar”. Mas confiamos em ti, trémulo Inseguro, para que ergas as mãos várias vezes, e lhes digas, ao Mostrengo e aos seus lacaios, mesmo a tremer três vezes, “passa para mim o leme, porque eu sou mau, mas aqui, hoje, sou mais do que eu, sou eu e um povo que quer o dinheiro que é teu, e mais do que tu, troika, que a minha pobre alma teme, e rodas nas trevas do fim do mundo, manda a vontade que me faz querer o leme, de afundar o que ainda sobra deste Portugal Profundo”.

Sim, caro Infante, da pérfida Europa dir-te-ão, “Senhor, falta cumprir, Portugal”. Mas não te preocupes com isso, sempre foi assim, e já cantava também o poeta, “a alma é divina e a obra imperfeita, que, da obra ousada, é minha a parte feita: o por-fazer é só com Deus”. Sendo tu laico, e socialista, podes sempre mais tarde culpar os mercados, o sistema financeiro, a Goldman Sachs, e a senhora Merkel pelo fracasso.

O que importa é que o teu esforço vale a pena. E, diga-se, conhecendo as tuas limitações, a tua ambição não é pequena. Mas se queres ir além do Rato, é bom que deixes a palavra, e passes mais ao ato. De contrário, o Império não será teu. Mas do gajo que acabou de voltar de Paris.

Com amizade,

Zé Povinho

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8 pensamentos sobre “Carta aberta ao Infante Tó Zé

  1. tina

    O que se pode esperar de uma pessoa que tirou um curso de Relações Internacionais? Um lírico completo.

  2. Bento Norte

    Trágico. Como é que aquela criatura tem a ousadia de debitar (será eco?) uma gigantesca vaga de lugares comuns até à exaustão? “Acabar com a austeridade” é a palavra passe a que continua a faltar sem um corar de vergonha a senha cunhada que nos diga como é que isso se faz. Definitivamente, o homem que não pegou a reboque também não vai lá ao empurrão. O País poderá um dia destes acolher um líder de plástico contrafeito em vão de escada?

  3. JP

    O Partido Socialista (e Portugal, por arrasto) tem uma série de problemas que serão determinantes para o desastre:

    -Não tem um Rui Rio
    -Se tivesse um Rui Rio, não o poderia utilizar, porque afectaria o socratismo
    -Há no partido uma mistura de terror, medo, ódio e adoração à Nossa Senhora
    -Liquidou toda e qualquer força construtiva, que já só tem fala em jornais e TVs, não dentro do partido (Henrique Neto é um exemplo)
    -O líder não passa, para muitos, de um boneco de transição

    No fundo, este PS está para Portugal como algumas comissões de trabalhadores estão para algumas empresas.
    Quando entram em actividade, nem fazem, nem deixam fazer, e no fim matam tudo à sua volta.

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