Um duque que sobreviveu e um país que não mudou

 

Portugal achava-se então num estado de tranquilidade completa. Pode considerar-se como feliz entre todos os países da Europa. Muito mais feliz ainda houvera sido, se os que o governavam soubessem aproveitar aquela era de prosperidade para fundar a fortuna pública sobre as bases sólidas de uma boa administração, da reforma dos abusos, sobretudo do melhoramento dos estudos e em geral da educação de todas as classes, de que muito se carecia. O Governo, porém, assim como a Nação, tinham adormecido no regaço da ventura. Quando chegou a época da adversidade, escassearam os recursos, assim como faltou a energia para lutar contra ela à medida que se exauriram as fontes donde, sem trabalho e com pouca indústria, provinha a riqueza nacional.

Memórias do duque de Palmela, p. 79.

As memórias do duque de Palmela, escritas em 1848, e apresentadas agora por Maria de Fátima Bonifácio, retratam na primeira pessoa a vida de um homem que marcou a política portuguesa da primeira metade do século XIX. D. Pedro de Sousa Holstein, nasceu em Turim e veio a primeira vez para Portugal já com 14 anos. Sabia várias línguas e foi um diplomata excelente. Talvez devido as esses dois factores, a sua carreira política ficou aquém do que se poderia esperar. O país que encontrou em 1795, quando chegou a Lisboa, esperava suspenso o abismo que chegaria anos mais tarde. O trecho do texto em cima refere precisamente isso. Palmela acabou por sobreviver a tudo. Tal como o país. As invasões francesas, a instabilidade política, a independência do Brasil, o regresso do rei, a guerra civil, os vintistas, os setembristas, os cartistas e por aí em diante. O país sobreviveu, mas não mudou. Como se pode ler do que Palmela nos lega, a felicidade que poderíamos ter tido, acaso os governos tivessem aproveitado os dinheiros vindos da Europa e reformado o estado de modo a não se ter endividado ao ponto de, refém de interesses diversos, se ver forçado a manter serviços e a distribuir benesses do agrado de alguns, continua uma miragem.

1795 não foi o único ano em que o país esteve suspenso. À espera. Já tinha acontecido e já voltou a suceder. Como agora. Como acontecerá daqui a uns anos. Tal como antes, sobreviveremos com os nossos filhos e netos prontos para contar a história. Infelizmente, essa, tal como a que Palmela nos descreve, não será bonita, nem vai ser fácil. Sobreviveremos, mas o país não mudará.

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