Nós e as outras

Dior - Miss Dior pump

Pedro Correia alude aqui a uma verdade indesmentível: as mulheres vestem-se pelo menos tanto para as outras mulheres quanto se vestem para os homens. Até porque aos homens é mais fácil de agradar. Qualquer coisa justa, que realce as curvas femininas, um decote, uma racha, umas botas de salto alto e até ao joelho, pele à vista, enfim, contentam-se com pouco. Mas a frase ouvida na tal telenovela só pode ter sido escrita por um homem, que este género gosta de viver na ilusão de que o mulherio não faz mais nada na vida do que competir pelas graças do sexo masculino (que também fazemos quando é preciso ou nos apetece, sim). Porque, há que informar, quando as mulheres se vestem para as outras mulheres não é para mostrar como as suplantam nas atenções masculinas mas sim para competirem pelo título de fashionista e se deleitarem a escrutinar as roupas novas de cada uma, aquela carteira fantástica que foi presente do dia da Mãe, os saltos vertiginosos dos sapatos e, mais do que tudo, aquela peça maravilhosa que foi comprada baratíssima nos saldos; e voltar a vestir a roupa de antes da primeira gravidez é sempre entre nós motivo de grande celebração. Tudo isto dá para horas de conversa e não demoramos menos nem somos menos detalhadas a arranjar-nos para um jantar de amigas do que quando queremos agradar ao sexo oposto. E, ao contrário do que porventura os senhores supõem, as mulheres adoram elogiar-se umas às outras. Pior: um comentário do género ‘adoro esses sapatos!’ misturando admiração com uma pontinha de inveja (especialmente se também reconhecermos à autora do elogio mestria nas escolhas sartoriais) dá-nos tanto prazer, enfim, quase tanto e salvo as devidas e honrosas excepções, como um olhar ou comentário aprovador de um senhor. E um ultraje final: dá-nos muito maior satisfação que uma mulher desconhecida nos inveje o vestido ou a carteira ou o conjunto todo (em suma, que nos inveje a nós) do que inveje a nossa companhia masculina.

9 pensamentos sobre “Nós e as outras

  1. Maria João Marques

    Eu defendo fervorosamente o direito feminino à futilidade (e tenho mesmo o princípio de nunca confiar numa mulher que não se entusiasme com futilidades). Vocês que tratem do vosso lado!

  2. ungeziefer

    Com os homens e’ o mesmo: se e’ para ficar em casa a comer pizza, pantufas, barba por fazer e fato the treino de lycra serve; se for para ir jantar a casa do casal amigo, em que a amizade e’ entre “elas”, apinocam-se todos, ficam 3 horas a engraxar os sapatos, perfumam-se, penteiam-se e barbeiam-se. Tudo, claro, para nao envergonhar a sua propria mulher, que nem lhes passa pela cabeca passarem uma tarde num quarto do D. Pedro a discutir as receitas do jantar de sabado. Pois, eu sei, e’ muito chauvinista. Perdoe-me Maria Joao.

  3. Maria João Marques

    Resta saber se a mulher, farta da barba por fazer e das calças de licra (imagem horrível!) não passa outras tardes noutros lados a discutir outras coisas 🙂 (E olhe que eu não defendi o desmazelo feminino em ocasião nenhuma, quite the opposite).

  4. ungeziefer

    Absolutamente Maria Joao, absolutamente, claro que nao. Quanto ao seu cenario reciproco, permita-me avancar como tese que nao ha’ nada, mas nada, que bata passar uma tarde a discutir receitas, medir “stilletos”, perorar sobre a fabulosa qualidade da meia-de-vidro, do rendilhado mais perto da pele, do perfume, John Ford ou Carolina Herreran, do “vampy” vermelho Chanel que lhe tinge as unhas dos pes. Oh, Maria Joao, nem a ameaca das nossas mulhees entretidas com o carteiro batem isto. Nada ha’ de mais fantastico e a magia esta’ em que nao ha’ mulheres feias, apenas as ha’ as que nao sabem ser bonitas. Deixo-a com os sinceros desejos de uma noite em Paz, que e’, verdadeiramente, o que vai faltando.

  5. A estética é um valor moral, uma obrigação cívica e o caminho mais consistente para a felicidade. E uma questão teológica: São Pedro castiga a Europa com frio e neve pela afronta dos casacos de Angela Merkel, e Portugal está em alerta amarelo há meses por causa daquela gavata verde de Passos Coelho. A classe média deve tomar o poder de uma vez por todas: no caso das meninas e senhoras, uma arma eficaz serão os collants cor de rebuçado.

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