O que se passou em Portugal na preparação para o euro? As taxas de juro caíram abruptamente. Gerou-se uma espécie de círculo vicioso – não, não me enganei no adjectivo. Os mercados foram-se convencendo que íamos ser capazes de cumprir os critérios nominais, défices abaixo dos 3% do PIB, inflação relativamente controlada, etc. & tal, e na perspectiva de uma entrada cada vez mais certa, abolido no futuro o risco cambial, toca de baixar as taxas. Foi um fartote de despesa. Despesa privada, despesa pública, a um preço de endividamento que era um autêntico maná. Vejamos, ilustrando apenas com o sector público:

A factura dos juros cai 2,2 mil milhões de euros no Orçamento do Estado, do pico de 1992 até ao ano que precede a entrada. Em percentagem do PIB, para se ter ideia do que tal significa sem o écrã dos preços, há uma redução no serviço da dívida desonerando o Orçamento em 4,7% do PIB. É obra. Aproveitámos para equilibrar as contas públicas, jamais equilibradas em democracia? Não. Aproveitámos para gastar como se não houvesse amanhã. Em 1992 há uma recessão e o funcionamento dos estabilizadores automáticos ainda pode justificar o que se passa até 1995. Depois é a orgia guterrista, aquilo a que o falecido Sousa Franco, sim, o próprio ministro das Finanças, chamou o pior governo de Portugal desde D. Maria II, a caloteira suprema.

A despesa sem juros aumentou entre 1992 e 1998 nada menos que 3,7% do PIB. Sempre sobrou ali o estritamente necessário, 1 ponto percentual da folga que não foi estoirada, para se cumprirem os critérios nominais. Lá fingimos que tínhamos as contas em ordem e entrámos. Era para crescer. Gastar para crescer, gastar para enriquecer, segundo a máxima cainesiana: uma nação enriquece gastanto, não gasta porque é rica. Foi assim no sector público, mas foi assim também no sector privado.
Moral da história: a âncora do euro, prospectiva e depois concretizada, em vez de alterar a função de preferência dos portugueses pela inflação, no quadro conceptual que vem usando Vítor Bento, tornou possível, mais do que nunca, conservá-la. Ora topem.
Essa é a conlusão a que chegam os economistas Jesús Fernández-Villaverde, Luis Garicano, Tano Santos, num artigo hoje publicado no Vox, que a respeito de Portugal concluem (traduzo):
Finalmente, depois de 15 anos de crescimento económico após o acesso à UE, a economia portuguesa estagnou por volta do ano 2000. Chocantemente, em 2012 o produto em Portugal era inferior ao de 2001. O défice global nunca caiu abaixo dos 2,9% do PIB [eu preciso já: nunca caiu abaixo dos 3% do PIB] e o saldo primário foi constantemente deficitário, mesmo ajustado pelos efeitos do ciclo económico e das medidas de carácter temporário [tenho insistido nisso, tenho] (Marinheiro 2006, actualizado em 2011). (…) O sector privado respondeu à perspectiva de uma economia estagnada reduzindo a taxa de poupança e endividando-se maciçamente ao exterior para financiar o consumo corrente, enquanto o investimento caiu como percentagem da procura interna. Em resumo, o comportamento de ambos os sectores público e privado tornou-se insustentável a médio prazo. Porém, o acesso ao euro permitiu-lhes adiar o dia do juízo, tirando partido de taxas de juro historicamente baixas. (…) O euro permitiu um equilíbrio político-económico em Portugal sustentado no médio prazo por imensos fluxos de capital do resto do mundo, mesmo se uma correcção era finalmente inevitável.
O dia do juízo chegou. O euro não mudou as preferências dos portugueses. Tornou-as simplesmente impossíveis – mas só a reconhecer num dia!… que entretanto chegou. Ainda há imensa gente que não acredita. E garante que com mais despesa mudaremos depois desta provação passar. Que aprendemos. Já ninguém acredita nesses que assim falam. Eles é que têm de acreditar. De outra maneira teriam de passar a duvidar de si mesmos. O que é muito difícil. Agradeço ao Miguel Noronha o ter-me chamado a atenção para este artigo de economistas estrangeiros. Santos da casa não fazem milagres.