Austeridade. Vamos ter muita pela frente, para poder voltar a crescer

Salvo melhor opinião, que também aceito, não há muito de novo a relevar nas contas do INE, hoje divulgadas, sobre a capacidade de financiamento da economia. Retiro o que me parece o essencial, que começa por estar neste quadro.

Poupança, investimento e ajustamento

O défice externo desapareceu, depois de ter atingido um máximo histórico de 11,4% do PIB em 2008. É a coluna amarela. A austeridade é isso. Não é o défice do Estado, que continua em péssimos lençóis (aumentou consideravelmente, sem a maquilhagem dos fundos de pensões). A austeridade é o fim do défice externo.

Como acabou o défice externo? A economia, como um todo, deixou de poder gastar mais do que pode. Não o Estado, que gasta muito mais do que pode. A economia como um todo é que deixou de gastar mais do que pode, endividando-se. E como é que nos ajustámos ao fim forçado do défice externo?

Por um lado, a poupança aumentou. Não o suficiente para impedir que o investimento colapsasse. Quando a poupança iguala o investimento (deixamos de lado as transferências de capital), o défice externo anula-se. A poupança está muito próxima do investimento (a diferença são as tais transferências de capital que nos favorecem). Só que não chega. Não nos lembramos de uma taxa de investimento do tamanho desta miséria.

E agora? Admitamos que não é possível regressar ao défice externo. Então, para que o inesvtimento

– possa regressar ao nível de 1999, a poupança teria de aumentar, dos actuais 14,1% do PIB, para 26,9% do PIB (valor que não conhecemos desde 1973): aumentar 90%, em proporção do PIB;

– possa aumentar para os níveis pré-crise, vá, de 2008, então a poupança teria de aumentar, dos actuais 14,1% do PIB, para 21,1% do PIB (valor que não conhecemos desde 1990): aumentar 50%, em proporção do PIB.

Em vez de poupar, pode-se consumir. O que não se pode é poupar (e investir) o que se consome. Não se pode comer o bolo e guardá-lo. E parece que não há ninguém, por esse mundo fora, que, não comendo o seu bolo, esteja disponível para nos estender um, substituto do que comemos.

15 pensamentos sobre “Austeridade. Vamos ter muita pela frente, para poder voltar a crescer

  1. Luís Lavoura

    Um pedido de esclarecimeno:
    Aquilo que nestas contas (do INE) se designa por “investimento” inclui ou não inclui a construção de casas, autoestradas e outro betão?
    É que, se inclui, então não devemos sequer pretender regressar ao nível de 1999.

  2. Jorge Costa

    Inclui tudo. Mas atenção em relação às conclusões precipitadas. O Investimento empresarial (sem famílias e Estado) caiu de um nível nas casa dos 30% do seu valor acrescentado bruto, para os actuais 19,3% do VAB. Há cerca de 10 pp a menos.

  3. silver

    Jorge Costa, mais uma questão que me poderá certamente esclarecer.Como é que se reduz um défice orçamental através da receita, se este afecta o consumo, e este baixa?

  4. Br

    Poupança estranha, essa, que devem do aumento da pobreza e do medo do futuro. O meu conceito de poupança é aquele aonde esta aumenta pela criaçäo natural de riqueza. Sendo, portanto, a actual poupança uma forma forçada e imposta, o mais natural é que produza os efeitos contrarios. Sendo assim, o defice externo foi atingido nominalmente, para ingles ver, sem consubstanciacao na melhoria da substituicao de importacoes por producao nacional. Nao, nao foi nada disso. As importacoes baixaram porque aumentou o receio pelo futuro. Esse receio leva a que se coloque de lado mais poupanças. Leva ainda a q o investimento nao cresça. Leva a menor actividade economica e cm isso reducoes massivas de combustiveis, principal factor na balanca comercial.
    .
    UM ajustamento colado a cuspo, em suma.
    .
    Ricciardi

  5. lucklucky

    Não vamos voltar a crescer enquanto o regime soci@lista e a sua negação da diferença estiver em pé.

  6. Jorge Costa

    Silver: tanto aumentar impostos (directos) como diminuir transferências reduzem o rendimento disponível das famílias, logo podem afectar o consumo (não necessariamente: sobre o rendimento disponível, as famílias podem escolher entre poupar ou gastar). Os indirectos não afectam imediatamente o rendimento das famílias. Se forem para os preços, podem afectar a procura. Se não forem, afectam o rendimento das empresas. A questão não é essa, a dos efeitos imediatos de uma ou outra opção sobre a despesa de consumo (e os impostos). A questão parece-me muito mais simples: estamos dispostos a pagar mais impostos? Se sim, não há problema. Se não, temos de baixar permanentemente a despesa. O recurso ao défice está vedado.

  7. silver

    : estamos dispostos a pagar estes impostos? Queremos pagar estes impostos? Se sim, não há problema”a. Se não, temos de baixar permanentemente a despesa”
    Certo.Mas se causam o mesmo efeito, então qual é a vantagem de ter menos impostos e menos despesa, ou melhor perguntando, porque é que algumas pessoas, nomeadamente neste blog consideram preferivel a via da despesa? No meu caso, é preferivel ter menos impostos e cortar a despesa,porque quero disfrutar da minha riqueza. Entre mais impostos e menos despesa, qual das duas é que o Jorge se inclina mais, e é melhor para o conjunto da economia portuguesa?

  8. silver

    em suma: na sua opinião, que medidas terá o governo de tomar este ano de forma a que a consolidação orçamental seja bem sucedida de uma vez por todas?

  9. Jorge Costa

    Primeiro, não disse que têm o mesmo efeito. Se são igualmente recessivos, os cortes de despesa ou os aumentos de impostos, ou não. Mas parece-me evidente que temos impostos a mais, que não chegam para despesa do Estado, nunca chegaram, em democracia, e que portanto, estando o défice vedado, temos de os aumentar ainda mais – ideia que abomino – ou cortar na despesa. A minha escolha é claríssima.

  10. silver

    O que eu queria dizer com ter o mesmo efeito, era se uma medida era tão recessiva quanto a outra, foi assim que inicialmente interpretei,(e as minhas desculpas por tal interpretação já agora)
    .Então julgo que estamos de acordo que a politica tem sido errada até agora, e quanto á necessidade de acabar com o actual esbulho fiscal que tem caracterizado este governo,e de diminuir a despesa.
    Saudações e Votos de Boa Páscoa.

  11. Surprese

    Análise interessante, mas estática. Seria verdadeira numa economia fechada.

    Numa economia aberta, a solução pode passar por Investimento Directo Estrangeiro (IDE), que permite o aumento do PIB sem aumento da poupança.

    O aumento das importações que o IDE causa (importação das máquinas) é totalmente anulado pela transferência unilateral de capital associada ao IDE.

    Só com as exportações não vamos lá. O que o governo tem de fazer é conseguir captar mais IDE, e verdade seja dita, o Portas tem se esforçado nesse sentido.

  12. Jorge Costa

    O IDE não é uma transferência unilateral de capital. Nem pensar nisso. Está na conta financeira (não na de capital) e aumenta o défice externo. A hipótese é ele não poder aumentar.

  13. Surprese

    Jorge Costa: sim está na Balança Financeira, é dinheiro que entra e que melhora a balança de pagamentos, anulando o que a importação de máquinas piora na balança corrente.

    O termo transferência unilateral de capital foi de leigo, tecnicamente incorrecto, para referir que não implica serviço de dívida e reembolso posterior (não é dívida). De qualquer forma, só recentemente as balanças de capital e financeira foram desagregadas, o FMI considerava a existência de apenas uma.

  14. Jorge Costa

    Depende do que chamar dívida. Se por dívida entender Posição de Investimento Internacional (PII), origina dívida. Os lucros podem ser reinvestidos. Acresce ao IDE e consolida na PII. Ou não: saem pela balança de rendimentos.

  15. Pingback: Austeridades e a ovelha ronhosa | O Insurgente

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