Alguma coisa há-de sair do choque. O quê é que não sabemos (de volta à mitomania de Sócrates & Co.)

Ainda detalhes em relação ao gráfico publicado aqui, e que volto a reproduzir.

reacões

Todos os países deixaram correr o défice, como um comentador no post supra lembra, e eu tinha referido. Acontece que uns, os que se estamparam, estavam em posições orçamentais mais deterioradas e, por isso, apresentaram os resultados que se vê: défices astronómicos. É verdade. Mas não é só. É muito mais.

Os 12 países que não se estamparam tinham, em 2008, um défice médio de 1,5% do PIB. Em média, estavam com ele em 5,4%, um ano depois. Um aumento de 3,9 pontos.

Os países que se estamparam apresentavam em 2008, em média, um défice de 4,9%, mais que triplo do do primeiro grupo. Aumentaram-no, em média, para 11,4%. Um aumento de 6,5 pontos. Largamente acima dos que estavam melhor, ou menos mal.

Portugal esteve na média dos que chamaram a desgraça: tinha em 2008 um défice de 3,7%, aumentou-o para 10,2%, um acréscimo de 6,5 pontos.

Quando a Europa decidiu pôr termo ao deboche, Sócrates fez o que podia e não podia para escapar. Era um homem desacreditado, de um país desacreditado. Com o historial que o país trazia de trás e o comportamento de Sócrates, dificilmente qualquer compromisso que lhe tivesse sido arrancado a ferros, como foi o célebre PEC IV, receberia qualquer benefício da dúvida.

Chegava ao fim um episódio longo de mais de três décadas de aumento do endividamento público quase permanente – e privado, mais tarde – e crescimento minguante, até atingir a raia do zero.

Sócrates, ontem, uma vez mais igual a si próprio, defendeu que os presentes resultados recomendam o regresso ao passado. Deixem de escavar. Deixar de escavar é a fórmula de regressar ao passado. O homem não percebeu que o passado passou definitivamente, porque quem o permitiu, quem o financiou, deixou de permitir, deixou de financiar.

O mais estranho, o mais acabrunhante é que Sócrates está nesta alucinação de regresso ao passado muito mais acompanhado do que estava quando enterrou o país, e com ele o seu passado. Mudar uma  história de mais de três décadas não está a ser fácil. Não vai ser fácil. Porque vai ser à força. Está a ser à força. Numa bela expressão de Martin Wolf, com a força de um movimento irresistível em choque contra um objecto inamovível. Vivemos no intervalo entre um passado, passasdo e sem futuro, e um futuro que não sabemos. Num presente sem relação de continuidade com o passado, mas também sem horizonte de futuro que se veja. Entre. Alguma coisa há-de sair do choque.

5 pensamentos sobre “Alguma coisa há-de sair do choque. O quê é que não sabemos (de volta à mitomania de Sócrates & Co.)

  1. o fantasma

    Deixamos vir o chefe da musica.A maior surpresa vai ser quando fizer parte dos cosinheiros.O avental á muito escondido vai aparecer!O colega lá estará á espera. A ementa chegará á mesa dos portugueses.

  2. silver

    Caro Jorge Costa,vejo que dei um contributo interessante a este debate necessário sobre o nosso caminho até aqui.(penso que se referiu ao meu comentário)Há outra coisa que também gostaria de frisar e que pedia com amabilidade que depois comentasse.
    Não questionando o carácter errado das politicas do governo anterior, é também questionável se as politicas orçamentais deste governo são as correctas.E ai, muito francamente, o que tenho visto até nalguns casos, é uma acentuação dos piores aspectos dos chamados pecs.Por exemplo,desde o principio, que a estratégia deste governo tem sido aumentos de impostos + aumentos de impostos+ aumentos de impostos, com uma focalização muito menor em cortes de despesa, que era o que era esperado na altura..Soubemos hoje que o défice será de 6,4, o que considerando que temos um grande caminho pela frente, é um resultado absolutamente negativo(com a excepção da balança externa, que teve um resultado previsivel e não muito dificil de atingir).
    Posto isto,o facto de Sócrates ter errado na economia, não significa que a politica actual seja automaticamente correcta,ou seja, Sócrates é responsável pela herança que deixou, não pela obra deste consulado, que para o bem e para o mal, já não é o seu.Temos que ter a noção que mais impostos, e mais gastos são insuportáveis.E digo mais: isso politicamente pode ser muito perigoso.
    Que balanço tem a fazer da actual legislatura?

  3. Jorge Costa

    Sim, silver. Foi em resposta ao seu comentário, que agradeço. Sem dúvida que tem havido muito aumento de impostos, demasiado. Mas nunca esquecer que este Orçamento do Estado foi feito em cima de uma decisão do TC que inviabilizou uma parte importante do corte de despesa. Muito mais terá de ser cortada. Forçosamente. Faço um balanço péssimo de tudo o que está a acontecer. Não acredito neste ajustamento, na sua viabilidade. Penso que o país está a ser confrontado com os seus impasses, os seus limites, da pior maneira. E desde já lhe digo que não tenho assim soluções na manga. Mas que não é pela via das oposições, incluindo nelas não só o PS, mas todos as «vozes» que se lhe vêm juntando, desde figuras gradas do PSD, do CDS, até o PR, etc., não é.

  4. silver

    Caro Jorge Costa, os cortes que foram anulados pelo TC não eram estruturais, tal como tem sido referido neste blog.De resto, estamos de acordo.É assustador verificarmos que quer do lado do governo, quer do lado da oposição, é o deserto total.. situação até que ja´foi retratada num dos nossos melhores programas de humor politico da TV, o Contrapoder(continuação do anterior Contra Informação da Rtp), quando o tal Laboratório de Ideias situava-se no Sahara.
    Mas enfim, a Bélgica e a Itália, sem governo aguentaram-se.Vamos aguardar os próximos capitulos
    Cumprimentos

  5. Pingback: Austeridades e a ovelha ronhosa | O Insurgente

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