Se não é, é o quê?

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Com alguma regularidade, o professor Krugman expende a teoria de que as presentes crises de dívida no mundo desenvolvido não têm que ver primordialmente com a indisciplina financeira dos Estados, mas com outra coisa qualquer. Hoje não me interessa (imediatamente) a outra coisa qualquer a propósito da qual ele expende mais uma vez a teoria, que só admite uma excepção: vá lá, o Estado grego foi um bocadinho debochado. Interessa-me a teoria, que usa a propósito de tudo e quando calha de nada também, e que assenta na ideia, por exemplo, de que o Estado português não foi, taxativamente não foi, uma caso de libertinagem financeira, ou extravagância, ou lá como se quiser traduzir profligacy. Nem o português nem nenhum outro, à excepção do grego bizarro.

Se, em 35 anos, um Estado não tiver uma só vez que seja o seu orçamento equilibrado, nem sequer próximo disso, se, desses 35 anos, em apenas dois o seu défice orçamental não tiver sido superior a 3% do PIB – o chamado défice «excessivo» do Tratado de Maastricht -, como nos restantes 33, em resultado do que a sua dívida pública passa de 24,5% do PIB (1976) para os actuais mais 100 pontos percentuais em cima do valor inicial, ou, vá, para os 71,7% do PIB, de 2008, anteriores à crise, e isso não entrar na categoria da dissipação financeira, entra em que categoria?

Défices excessivos

Se em cima de empilhar dívida pública 35 anos a fio, o país estiver há 20 anos a reduzir a tendência de crescimento da sua economia, estando ela à beira do zero quando a crise chega, estamos a falar de quê? De razoabilidade na condução das finanças do Estado? De prudência em relação ao futuro? E, chegada a crise, estamos a falar de capitais estupidamente nervosos, que, por razões misteriosas, abandonam em horda um país saudável à sua inexplicável e evitável desgraça? E por aqui começaríamos a entrar no assunto que ele versa hoje. Não entramos, porque não acabávamos tão cedo, suspeitando que se trata de um tema que só um Nobel, convertido em Madonna, pode resolver em três penadas e uma martelada nos dados sem perder a cara. Mas lá que o professor inventa, inventa. Isso, qualquer português sabe.

tendência do crescimento

11 pensamentos sobre “Se não é, é o quê?

  1. JJ

    Interessante, mas não conclui. Ou alguém paga (vulgo a dívida não se paga, gere-se) ou então falta a impressora começar a funcionar… para alguém depois pagar. Confuso? Não esteja, falamos de economia e estamos em Portugal.

  2. JP

    Possivelmente por acaso, a curva poderia chamar-se “curva 1995”, “curva guterres” ou “curva PS”. 🙂

  3. Nuno

    ” There may well, however, be a process of erosion, as governments intervene to limit both the pace at which money comes in and the rate at which it goes out. Global capitalism is, arguably, on track to become substantially less global.

    And that’s O.K. Right now, the bad old days when it wasn’t that easy to move lots of money across borders are looking pretty good. ”

    Este senhor uma vez já se descreveu como um “free market welfare state economist”. Caiu-lhe de vez a máscara, o que é na verdade é um socialista. Como se pode ganhar um prémio Nobel da Economia sem se perceber o papel do conluio entre bancos centrais, comerciais e dos políticos na especulação e criação de bolhas financeiras nunca vou entender.

  4. Pedro

    É O QUE DÁ A INSISTÊNCIA NA MANUTENÇÃO DO ATUAL PESO DO ESTADO!

    Carga fiscal em Portugal mantém-se acima da média da OCDE

    A carga fiscal em Portugal desceu em 2012 mas manteve-se acima da média da OCDE.
    A carga fiscal desceu no ano passado em Portugal, para 36,7%, mas ainda assim fica acima da média dos países da OCDE.
    Dados da OCDE mostram que no ano passado, a carga fiscal – que tem em conta o IRS e as contribuições para a Segurança Social – desceu 1,26 pontos percentuais (p.p.) em Portugal face a 2011. Esta foi mesmo a maior descida do conjunto de 34 países analisados.
    O organismo explica que a quebra fica a dever-se ao facto de em 2012 não ter sido aplicada a sobretaxa de 3,5% que foi implementada em 2011 e que representou um corte de metade do subsídio de Natal e que será aplicada também este ano, mas todos os meses.
    Ainda assim, Portugal tem uma carga fiscal superior à da média da OCDE, de 35,6%, valor que representa uma quebra de 0,12 p.p. face a 2011.
    Este ano, a carga fiscal em Portugal deverá voltar a subir também devido ao efeito do IRS, já que o Governo reduziu o número de escalões e aumentou as taxas de IRS que recaem sobre os contribuintes. Além disso, é também aplicada a sobretaxa de 3,5%.
    A maioria dos países da OCDE – 19 países – registou uma subida da carga fiscal, sendo que o maior aumentou registou-se em Espanha, com uma subida de 1,4 p.p., devido à subida do IRS. A Holanda, Polónia e a Eslováquia também registaram aumentos significativos.

    http://economico.sapo.pt/noticias/carga-fiscal-em-portugal-mantemse-acima-da-media-da-ocde_165678.html

  5. Paulo Pereira

    Será concidencia que a redução do crescimento coincide com a politica de moeda forte iniciada em 1992 e nunca mais abandonada e que resultou em deficits externos colossais ?

  6. Jorge Costa

    Não será, certamente. Embora a prova de que há causa-efeito não seja fácil. Vale a pena recordar, já agora, que a inversão positiva da tendência antecedente corresponde a um período de depreciação cambial efectiva muitíssimo acentuada.

  7. Paulo Pereira

    A prova de causa efeito dá-se pela observação do mesmo fenómeno em vários outros países : Suécia, Finlândia, Itália, Coeria do Sul, Brasil, México, nos anos 80 e 90.

    E a inversão do deficit externo após desvalorizações. Praticamente 100% de correlação .

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