Lógica + Evidências

Eu peço desculpas por não ter dado continuidade à conversa, pois passei por uns problemas pessoais nos últimos dias (perdi um gatinho muito querido – sim, isso é MUITO importante para mim, mesmo que para muita gente possa parecer ridículo – e depois fui para o interior do estado, onde a internet é péssima). Mas li o texto do Lourenço Vales e gostei muito. Na verdade, considero que temos mais concordâncias do que discordâncias, mesmo que isso não seja aparente à primeira vista.

Na verdade, minha ideia é bastante simples: não se trata de uma área ser mais ou menos científica do que outra. Ou de uma ciência ser melhor ou pior do que outra. Já pensei assim, mas abandonei esse pensamento. O que vejo agora são pessoas com posturas mais ou menos científicas, dentro de uma visão bastante simples e até ingênua do que é ciência. Não estou pensando em grandes considerações epistemológicas ou metodológicas (sim, elas são importantes, e é por isso que a discussão vale a pena). Estou pensando apenas no mínimo do mínimo: lógica e evidências. Quando estou diante de um fenômeno que desejo entender melhor, tento formular uma explicação que seja logicamente consistente. Isso, para mim, é básico: se posso derivar contradições da minha proposta teórica, então é porque ela fica melhor no cesto de lixo. Mas somente isso não basta. Preciso ter a conexão com o mundo real, e aí entra o papel as evidências. Creio que meus dois grandes “inspiradores” nisso tudo são o Bruce Bueno de Mesquita, um cientista político que admiro por sua produção acadêmica, e o Richard Dawkins, acerca de quem costumo brincar dizendo que é meu “guru espiritual”. Concordo com Dawkins sobre o significado de “teoria”: precisa fazer sentido, mas sem evidências não é suficiente. E o Bruce diz mais ou menos a mesma coisa. Deixo aqui um link para um texto dele que esclarece melhor esse posicionamento.

Em grande parte, minha posição também é influenciada pela minha formação original na Matemática. Como matemático, estou ciente de que é possível criar universos maravilhosos e estudar objetos abstratos que têm propriedades incríveis… e tudo isso dentro de uma lógica precisa e rigorosa, claro. Só que sem nenhum compromisso com o mundo real. É por isso que não considero a Matemática como uma ciência; é por isso que não considero que algo seja “pior” ou “menos importante” só por não ser uma ciência. E é também por isso que insisto tanto na necessidade de termos “lógica + evidências”. Fora disso, podemos discutir falsificabilidade, Lakatos, Quine, Laudan, Feyerabend, as sonatas de Beethoven e assim ad infinitum… E milhões de questões aparecerão, e sem dúvida poderemos enriquecer nosso conhecimento acerca do que significa praticar uma área humana/social, como a Economia ou a Política. Posso abrir mão até da predictibilidade (apesar da minha área de concentração ser a teoria dos jogos e jogos evolutivos na política internacional). Mas não abro mão de querer *aprender* mais a respeito de como o mundo funciona. Sempre ciente, é claro, de que alcançarei um conhecimento sempre incompleto e aprimorável, e jamais verdades absolutas e definitivas. Se eu quisesse respostas fechadas e definitivas para os questionamentos que me motivam, não procuraria por elas na ciência. Há outros livros e lugares que oferecem respostas prontas para as questões mais profundas que a mente humana é capaz de produzir, e muitas vezes ao custo de apenas uma “módica” contribuição mensal… e de uma boa dose de uma certa característica espiritual que, (talvez) infelizmente, creio já ter perdido há muito tempo.

É por isso que me aferro tanto à necessidade de trabalhar sempre com lógica e evidências. Caso contrário, não teríamos muito mais o que fazer além de formular opiniões… e opiniões sustentadas no quê? No mero “direito de opinar”? Achar por achar? Desculpem, mas considero-me no direito de simplesmente não levar “achismos” em consideração. Ou talvez em princípios considerados auto-evidentes, que têm a sua origem em uma cosmologia medieval ou renascentista e que, ao contrário da ciência moderna, não acompanharam o que temos aprendido sobre o mundo desde então? Isso, infelizmente, envolveria a tal da característica espiritual que mencionei no parágrafo acima.

Enfim, essas são as minhas preocupações. Mas estou aqui para participar e para aprender com todos vocês. E agradeço muito pela oportunidade de estar aqui, convivendo e trocando ideias. Mesmo que eu possa estar errado em muitas coisas, e possivelmente estou mesmo, isso não é o mais importante. Não tenho medo de errar, tenho medo é de não atentar para os possíveis erros e, assim, não ter a oportunidade de poder reconhecê-los enquanto tais e rever meus conceitos quando necessário.

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35 pensamentos sobre “Lógica + Evidências

  1. Jónatas

    Se há coisa certa é que estamos errados. Séculos de revoluções paradigmáticas assim o dizem. Às vezes a experiência tem mais razão que a razão.

  2. rui a.

    Também me parece muito perigosa a convicção de que a Economia se funda sobre «princípios auto-evidentes», pressuposto da praxeoligia de Mises, que alguns dos seus herdeiros, sobretudo HHH, têm reivindicado como «método científico» da dita Economia Austríaca. Penso mesmo que é um dos vestígios do positivismo fin de siècle que pode ser encontrado na sua obra, o que, espantosamente, não invalida o seu conjunto. O marxismo também considerava científica a sua análise da história e o determinismo com que a olhava. Marx descobrira as «leis» históricas e estas também não eram susceptíveis de invalidação. Isto não significa, pelo contrário, que as ideias sejam iguais e as «verdades» relativas. Mas, em ciência, mais ainda nas ciências humanas, nada deve considerar-se fechado nem imune à tentativa de refutação, tanto mais que, em Economia, não faltam termos de comparação que abonam em favor das nossas ideias.

    Cumps.,

  3. Euro2cent

    > Desculpem, mas considero-me no direito de simplesmente não levar “achismos” em consideração.

    Acho que está desculpado.

    Vá em paz. Leia três postas do http://unqualified-reservations.blogspot.com/, para ver como se escreve no estilo “brevity is for the weak”.

    (Cinco parágrafos para partilhar incertezas e dúvidas metafísicas? Devo estar na internet errada 😉

  4. CN

    “Também me parece muito perigosa a convicção de que a Economia se funda sobre «princípios auto-evidentes», pressuposto da praxeoligia de Mises, que alguns dos seus herdeiros, sobretudo HHH, têm reivindicado como «método científico» da dita Economia Austríaca.”

    Coisa sem sentido. O empirismo (vamos usar esta expressão para simplificar) sim é verdadeiramente perigoso para o liberalismo porque faz do homem um mecanismo, coisa evidentemente falsa, e nada na estatística nem com aproximações pode ser considerado “experiência” capaz de falsificar ou validar o que seja.

    O apriorismo é uma reflexão sobre a realidade da acção humana, o que deduz, tem de ser dentro da realidade necessariamente.

    Exemplo:

    Onde é que alguma experiência (ou N), se pudesse ser feita, o que não pode, poderá invalidar com caráter de verdade universal que a introdução de um preço mínimo como o salário mínimo cria uma restrição sobre a oferta e procura?

    Não pode de forma alguma. Isto parece-me instintivo, mas o que Mises e Hoppe fizeram foi provar filosoficamente que o empirismo não produz leis e que o apriorismo construído a partir da acção humana (ser que age, escolhe, prefere antes que depois, mais do que menos, com utilidade marginal decrescente) são a “única” forma de chegar a leis universais.

    E quando se diz chegar a “leis universais”, elas não são muitas na verdade, deduzem o carácter dos meios de acção, como a moeda, a preferência temporal, a natureza do juro, dos preços dos factores, a preferência subjectiva e ordinal do homem, etc.

    O que é que o empirismo ensina sobre isso? É apenas uma colecção de dados, cujos valores atribuídos resultam de agregações de números com imensos problemas de construção, e cujo pé de barro é que nada na acção do homem se baseia em valores absolutos mas apenas em escolhas ordinais,

    Como diz o Hoppe, um empirista querer negar o apriorismo cai já numa contradicção em si mesmo porque essa afirmação é ela própria de carácter empírico? Claro que não. E pode aguma vez um conjunto infinito de experiências negar que o apriorismo é capaz de deduzir leis sobre a reaidade da acção humana? Claro que não.

    Assim sendo, o empirismo deve ter a importância que deve ter: estudos aplicados com um carácter epistemológico muito limitado, tem interesse prátic, demonstra uma história, pode servir de ilustração… não pode é confrir a si mesmo que prova ou des-prova leis universais.

  5. CN

    Devo dizer que percebo perfeitamente que a reacção inicial seja de total estranheza, a nossa educação moderna foi feita no sentido de negar a tradição reflexiva e fazer do empirismo o centro da verdade. De resto, o conjunto empirismo e positivismo no direito é o centro do paradigma da modernidade e o seu sustentáculo – arroga-se de cientificidade e faz com que as políticas socialistas ou “liberais” (do tipo vindo de Chicago) emanadas do poder tenham um carácter de ciência quando esse edifício não passa de uma construção totalmente ilusória.

    A coisa mais ridícula que se conseguiu fazer até hoje na junção do empirismo com a matemática em economia veio pelo mão de Keynes e décadas de académicos que conseguiram prestar credibilidade ao chamado multiplicador. Chega a ser esmagador pensar como foi possível tal patranha ser ensinada com um carácter científico porque se manipulava uma equação com medidas estatísitcas.

    Transcrevo aqui o post onde falei disso e o Cláudio ou o Rui. A. até podem querer partir dele para refutar o que quiserem.

    Eu por mim considero isto aqui abaixo como uma verdadeiro escandalo intelectual.

    http://portugalcontemporaneo.blogspot.pt/search?updated-max=2013-02-22T07:32:00Z&max-results=20&start=200&by-date=false

    Keynes II – a falácia do empirismo estatístico-matemático
    Existe uma coisa chamada multiplicador que passou a fazer parte da linguagem económica (em especial da chamada síntese keynesianismo-neoclássicos) desde a publicação da Teoria Geral de Keynes em 1936.

    E esta coisa expressa talvez o máximo do ridículo que é conjugar estatística com matemática e chegar a supostas expressões quantitativas.

    Retirando a camada de nevoeiro com que essa coisa é normalmente apresentada o que resta é mais ou menos isto:

    R = C + I , expressa a formulação do Rendimento como sendo igual ao Consumo e Investimento (uma verdade em si mesmo por definição, partindo algo em dois ou mais este é igual à soma do resultado da partição).

    Vai daí, se inferirmos estatísticamente que 80% do Rendimento é gasto em consumo, C = 0.8 * R

    E trabalhando a matemática:

    R = 0.8* R + I

    Ou seja

    R = 5 * I

    Conclusão, parece ter sido determinado que existe um multiplicador de 5 para o Investimento: investindo-se adicionalmente (e para Keynes isto é sinónimo de qualquer despesa do estado) por exemplo 100, o resultado no Rendimento será um acréscimo de 500.

    Não consigo arranjar expressões suficientemente satisfatórias para classificar a completa anormalidade conceptual e falsidade de tal coisa. Pegar em conceitos descritivos, depois juntar uma medição, manipular o conceito descritivo com propriedades matemáticas para chegar a uma relação “causal” determinística define bem o erro em que uma boa parte da doutrina económica incorre.

    Diga-se de passagem que sem grande barulho, esta “coisa” foi sendo como que abandonada, mas a dimensão do erro que aqui está nunca foi devidamente apreciado. E depois continua a surgir de forma subentendida aqui e ali com expressões como “é preciso fazer despesa para estimular a economia”.

  6. “a introdução de um preço mínimo como o salário mínimo cria uma restrição sobre a oferta e procura”. Ok. Compreendo perfeitamente a lógica que sustenta essa afirmação. Agora eu gostaria muito que me apresentassem exemplos reais disso.

  7. CN

    Claudio

    A verdade que um aumento de preço, ceteris paribus, diminui a procura precisa de validação empírica?

    E que validação seria essa? Uma observação, 100 observações, durante uma ano, durante 100 anos? Algumas são suficientes? Em que ambiente controlado? O sujeito saberia que estava a ser observado? etc…

    Mas essa verdade deriva da lei da utilidade marginal decrescente (a utilidade de uma unidade adicional de um bem homogéneo é menor que a da anterior).

    E esta necessita de validação? Se não fosse verdadeira em si mesma punha em causa o próprio axioma de que “o homem age”, e se age escolhe por ordem das maiores utilidades. Se não fosse verdade nenhuma lei de economia poderia sequer ser expressa porque o homem deixava de “agir” (escolhia sem ordenar por preferência/utilidade).

  8. Não estou pedindo tanto. Só estou pedindo exemplos específicos de que a introdução de um preço mínimo como o salário mínimo cria uma restrição sobre a oferta e procura…

  9. A respeito de como o homem age, o que significa ação, quais são os fundamentos da escolha… bom, podemos lidar com isso pela via filosófica ou podemos dar uma olhada no que a neurociência e a biologia evolutiva têm produzido nos últimos tempos. Para mim, é mais ou menos como escolher entre homeopatia ou medicamentos produzidos pela indústria farmacêutica… 😀

  10. Vou tentar me explicar melhor através de outro exemplo. Aqui deste lado da grande poça, tem gente que defende com unhas e dentes a tal da “teoria da dependência”, que “explica” a “dependência” da América Latina através do conceito de “deterioração dos termos de troca”. A “teoria” faz sentido (à primeira vista) e por isso mesmo convence muita gente. Além disso, mexe com o emocional dos latino-americanos, e por isso mesmo continua sendo repetida, e repetida, e repetida.
    Posso “refutá-la” mostrando o quanto ela contém de retórica vazia e com belíssimos argumentos austríacos. E, com isso, a discussão só se prolonga. Ou posso apresentar as evidências de que a famosa “deterioração dos termos de troca” simplesmente não é sustentada pela realidade. Nada de experimentos controlados, nada de modelos matemáticos sofisticados, nada disso. Apenas observação, coleta de dados e um pouco de aritmética básica. Para mim, isso fecha a questão. A “teoria da dependência” é apenas uma “proposta teórica”, mas não merece o status de teoria.

  11. CN

    “Não estou pedindo tanto. Só estou pedindo exemplos específicos de que a introdução de um preço mínimo como o salário mínimo cria uma restrição sobre a oferta e procura…”

    Restrição sobre a oferta e procura… de trabalho (devia ter escrito “trabalho”),

  12. Coloquei entre aspas porque copiei diretamente do comentário 4: “Onde é que alguma experiência (ou N), se pudesse ser feita, o que não pode, poderá invalidar com caráter de verdade universal que a introdução de um preço mínimo como o salário mínimo cria uma restrição sobre a oferta e procura?”

  13. Mas enfim, isso é um detalhe sem importância. O que ainda não estou vendo são exemplos do tipo “no país X, na época Y, foi introduzido um salário mínimo e isso se refletiu em uma restrição de Z% sobre a oferta e procura de trabalho”. Se é “intuitivo” ou não, isso não me diz muita coisa.

  14. CN

    “. O que ainda não estou vendo são exemplos do tipo “no país X, na época Y, foi introduzido um salário mínimo e isso se refletiu em uma restrição de Z% sobre a oferta e procura de trabalho”. ”

    Claúdio

    Se vir dados sobre subidas do SMN do país X em que emprego não caiu o que conclui?

    Como distingue que o emprego não caiu porque a economia estava a crescer, ou porque a expectativa de inflação estava subir, ou porque… etc

    O que quero dizer é:

    – existe à partida uma impossibilidade técnica em isolar causas e efeitos

    – mas existe uma impossibilidade epistemológica: não existem experiências com pessoas repetitíveis, cada uma é única, cada uma consta uma história e não relações de causa e efeito, e nenhuma consegue repetir condições ceteris paribus.

    Como já disse atrás: não é possível negar a utilidade marginal decrescente sem por em causa o próprio enquadramento da economia – o estudo das escolhas de acção humana num mundo escasso de recursos e tempo. Assim sendo, uma subida de preço, ceteris paribus, diminui a procura. Assim sendo, uma salário mínimo, ceteris paribus diminui a procura e oferta de trabalho e nenhuma experiência o pode contradizer porque 1) e 2).

  15. Je

    Nota: só para exprimir a minha solidariedade face à perda do gatinho. Cláudio não é nada ridículo, sei bem como é MUITO importante. Passei pelo mesmo há dois anos e ainda hoje sinto saudade. Hoje outros gatinhos passeiam pelo lugar-nunca pensei, mas foi o que ajudou a ganhar ânimo. Gosto muito de todos, presentes e ausentes. Saudações

    Je

  16. Caro CN, eu sei disso e estou de pleno acordo com o argumento. O que estou dizendo é que há que se ter o cuidado de não se transformar a economia (e a ciência política, e a sociologia…) em pura retórica. A lógica é neutra – é isso o que a Matemática nos ensina -, nós é que a utilizamos de acordo com nossas convicções. Pessoas com convicções opostas podem construir argumentos logicamente consistentes.
    Com relação à utilidade marginal decrescente, há toneladas de *evidências* que a sustentam. Só como ideia, só como razão, faz todo o sentido do mundo. Mas, se não houvesse tantas evidências favoráveis a essa ideia, ela não seria nem um pouco diferente de ideias do tipo “a deterioração dos termos de troca aprofunda as relações de dependência entre centro e periferia”.
    É claro que não é possível fazer experimentos controlados em ciências sociais. Mas não estou exigindo tanto. Não é necessário tanto. Mas um pouco mais de preocupação metodológica não faz mal… 🙂

  17. CN

    “Pessoas com convicções opostas podem construir argumentos logicamente consistentes.”

    Em economia não podem existir 2 deduções opostas.

    Quanto à utilidade marginal decrescente, esta não é uma verdade porque é observada, é uma verdade em si mesmo dentro da realidade e propriedades da acção humana. Acho que tem dificuldade em fazer este salto, o texto de Hoppe (no mises.org.br) é o melhor.

    Mas repare no argumento anti-empirista. O que significa ou comprova observar N vezes, não pode existir uma observação N+1 que seja diferente? Como sabe que não há ou vai haver?

    Já o argumento dedutivo é simples: se estamos a falar de acção humana, de escolha de fins e meios, é necessariamente verdade a utilidade marginal decrescente.

  18. Sim, a mesma pessoa não pode realizar duas deduções opostas.
    Mas pessoas diferentes, partindo de premissas auto-evidentes distintas, podem muito bem fazer isso. Quando tais “axiomas” estão, ainda por cima, sobrecarregados de paixões ideológicas e fatores emocionais e subjetivos, o resultado, a meu ver, é negativo para o crescimento de nosso entendimento acerca de como o mundo funciona.
    A impressão que dá, meu amigo, é que o debate contemporâneo (não o nosso, refiro-me ao geral) em torno da EA ainda está preso ao embate entre empiristas britânicos vs. racionalistas continentais no século XVII… 😦

  19. Claudio Téllez,
    A lógica não é como a descreveu. Os modernos é que procuraram matematizar a lógica. É aliás, a lógica, quem deveria indicar à matemática seus limites para não cair na abstracção vazia, pois toda a matemática é uma forma de abstracção, já que isola determinadas características de, por exemplo, uma cadeira, apontando-lhe a altura, comprimento etc. A matemática moderna parte em grande medida de premissas falsas… premissas essas que deverá ser a lógica a mostrar a universalidade abstracta ou a particularidade singular…

  20. CN,
    Apriori significa: independentemente da experiência. Foi assim concebida por Kant e foi assim que Mises a adoptou. Toda a praxeologia de Mises é, aliás, uma tentativa de fuga aos resultados… seguindo a velha máxima de um grande general romano de que os resultados são o guia dos tontos. Mas tanto fugiram dos resultados, ou dito de outro modo, da «experiência» – Kant e Mises – que acabaram por cair na abstracção. É que a lógica só é verdadeira quando o universal é concreto. E esta concretização do universal é a experiência ou a realidade que o garantem: «quando vejo Calias, vejo o homem que há em Calias»…
    Mises não deixa de fazer um trabalho sério e verdadeiro, porque ao ignorar a constituição e a articulação das categorias lógicas do pensamento, servia-se da dedução desatendendo à praxeologia. É caso para dizer «Douta ignorância».

  21. CN

    “apriori significa: independentemente da experiência. Foi assim concebida por Kant e foi assim que Mises a adoptou”

    Não foi não. O que Mises, como o Hoppe demonstra no seu texto, é que a dedução sobre a acção humana é o que permite a des-abstração dos princípios de Kant, é um salto para além de Kant.

    A dedução a partir da realidade da economia: o estudo da acção humana e das restrições a que está sujeita pela realidade (escassez de meios físicos e tempo) deduz princípios gerais sobre a realidade.

    Claudio: “Sim, a mesma pessoa não pode realizar duas deduções opostas.
    Mas pessoas diferentes, partindo de premissas auto-evidentes distintas, podem muito bem fazer isso”

    Claudio, o que está em causa é que os austríacos usam as permissas correctas. Alguém tem de as ter ou vamos cair no nihilismo intelectual que não existem verdades porque nunca sabemos o que é verdade?

    O empirismo, pode parecer paradoxo, é que cai nas “muitas verdades” dado nunca poder contradizer-se, alguem faz uma observação ou N e conclui X, outro faz outras e conclui Y. Como a realidade da acção humana está sujeita ao subjectivismo e preferências móveis, o empirismo no final concluirá que não existem verdades em economia´, que é de facto a conclusão a que chegam quando se começa a falar de epistemologia. Tenho essa experiência deste debate é sempre nisso que caiem.

    A chave, no caso dos “austríacos” é ser cuidadoso na construção dos axiomas e deduções. Se alguém quiser refutar os “austríacos” só tem de por em causa cada uma dessas permissas, porque elas estão disponíveis quer no Human Action, mas especialmente estruturadas no “Man, Economy and the State”, o tratado de economia de Rothbard, que aborda todos os capítulos tradicionais dos manuais de economia do ponto de vista “austríaco” dedutivo.

  22. Luís Barata

    CN,
    Que é então o apriori segundo Kant?
    Não há deduções a partir da realidade. A partir da realidade pode haver é induções.
    Mises pouco sabia de filosofia. Era kantiano porque na altura o pensamento de Kant era o que teria maior influência na realidade. A praxeologia é uma tentativa séria mas infeliz de incursão num mundo que Mises ignorava e de que pouco Ou nada sabia. A lógica, com as suas categoria, deduções, demonstrações etc. é assunto dificílimo e que só está ao alcance de homens como Kant, Hegel ou Aristóteles.

  23. CN

    Luís Barata

    Mises limitou-se a utilizar a nomenclatura de Kant, não é um Kantiano.

    Tem aqui um post passado meu sobre o assunto:

    a acusação e a resposta
    http://portugalcontemporaneo.blogspot.pt/2013/03/a-acusacao-e-resposta.html

    “A acusação

    “De acordo com a filosofia racionalista, as proposições verdadeiras a priori estavam fundamentadas na operação dos princípios do pensamento, que não poderiam ser concebidos operando de outra forma; elas estavam baseadas nas categorias de uma mente ativa. Neste momento, como os empiristas faziam questão de mostrar, a crítica óbvia a esta posição é, que se fosse este o caso, não seria possível explicar porque estas categorias mentais deveriam se conformar com a realidade.

    Além disso, seriamos obrigados a aceitar a absurda suposição idealística de que a realidade teria que ser considerada uma criação da mente, para assim poder afirmar que o conhecimento a priori poderia incorporar alguma informação sobre a estrutura da realidade. E evidentemente, uma declaração como esta parece ser justificada quando nos deparamos com declarações programáticas dos filósofos racionalistas como a seguinte declaração de Kant: “Até o presente momento foi assumido que nosso conhecimento tinha que se conformar com a realidade”, ao invés disto deveria ser assumido “que a realidade observável deveria se conformar com nossa mente”. [56]”

    A resposta

    “A resposta a esta acusação é fornecida através do reconhecimento do fato de que o conhecimento é limitado estruturalmente pelo seu papel no sistema das categorias de ação. Pois assim que isto é entendido, todas as sugestões idealísticas da filosofia racionalista desaparecem, e no lugar delas uma epistemologia que reivindica que proposições verdadeiras a priori existem, passa a ser uma epistemologia realística. Entendido como sendo limitado por categorias de ação, o abismo aparentemente intransponível entre o mental de um lado e o real, o mundo físico exterior, do outro lado, é superado. Limitado desta forma, o conhecimento a priori deve ser algo tão mental quanto uma reflexão da estrutura da realidade, uma vez que é somente através de ações que a mente entra em contato com a realidade, por assim dizer. O ato de agir é um ajuste guiado cognitivamente de um corpo físico na realidade física. ”

    A praxeologia é para o campo de ação o que a geometria Euclidiana é para o campo das observações (não-ações). Do mesmo modo que a geometria incorporada em nossos instrumentos de medição limitam a estrutura espacial da realidade observável, a praxeologia limita a gama das coisas que podem ser experimentadas no campo das ações.

    Mises diz “Ambos, o raciocínio e o pensamento a priori por um lado e a ação humana por outro, são manifestações da mente. . . . Razão e ação são congenéricas e homogêneas; são dois aspectos do mesmo fenômeno.

    Conclui:… E foi meu objetivo demonstrar que o insight misesiano sobre a natureza da praxeologia fornece também a própria fundação sob a qual a filosofia racionalista tradicional pode ser reconstruída e sistematicamente integrada. O filósofo racionalista pensaria que isto implica que ele deveria levar em consideração a praxeologia. Pois é exatamente o insight sobre os limitantes praxeológicos da estrutura do conhecimento que fornece o elo que faltava na sua defesa intelectual contra o ceticismo e o relativismo.”

    os fundamentos praxeológicos da epistemologia III, Hans Hermann Hoppe

  24. Luís Barata,

    A lógica indica de fato limites para a matemática… ou melhor, estabelece o método de investigação. Mas a Matemática é um fim em si mesma. Pode haver matemática aplicada – e aí sim a preocupação é usar técnicas e áreas específicas dentro da matemática para tentar entender melhor algum processo do mundo real. É só nesse sentido que a matemática pode ser considerada a “linguagem da ciência”. Mas, na matemática pura, não há abstrações vazias. Há simplesmente abstrações. O que não há é um compromisso necessário com o mundo real. Às vezes, áreas da matemática pura acabam ajudando as ciências. Por exemplo, muitos desenvolvimentos na teoria dos números aconteceram simplesmente porque matemáticos queriam entender melhor… a teoria dos números! Eles não estavam pensando em aplicações. Hoje, seus resultados são utilizados em criptografia e segurança militar, por exemplo. Outro exemplo são os teoremas sobre pontos fixos, na topologia. Graças a matemáticos que estavam comprometidos com o estudo de transformações geométricas de espaços abstratos, foi possível desenvolver a teoria dos jogos.
    Enfim, uma coisa é a lógica filosófica, o Órganon aristotélico etc… e outra coisa é a lógica matemática. Não é que os modernos tenham matematizado a lógica. O que acontece é que a pesquisa em matemática exige um instrumental lógico que ultrapassa e difere das necessidades da filosofia.

    CN,

    O que eu sei é que os geômetras usam as premissas corretas para a geometria euclidiana. Com isso, não tenho problemas. Concordo contigo e, nas áreas sociais, alguém tem de ter as premissas corretas. Só que, nas áreas sociais, as premissas não são construídas (ou descobertas) da maneira como os matemáticos fazem… Na economia, política e sociologia, as premissas necessariamente envolvem comprometimentos ideológicos. Então o nihilismo intelectual acaba sendo uma consequência desagradável de levar às últimas consequências os ideais dos racionalistas do século XVII. E é exatamente por isso – para evitar esse nihilismo, relativismos e assim por diante, que defendo que só a dedução racional a partir de premissas não é suficiente para saber o que é verdade *nas áreas sociais*. Em matemática, tudo bem. Mas uma postura puramente racionalista, em áreas sociais, leva a intermináveis disputas ideológicas. Observe que também não defendo uma abordagem puramente empírica – e concordo, esse tipo de abordagem leva ao mesmo problema, só que por outra via. O que defendo é a necessidade de trabalhar ao mesmo tempo com dedução racional E empiria. E que uma teoria precisa satisfazer essas duas coisas: lógica + evidências. Trabalhar somente com lógica resulta em explicações que, por mais que façam sentido, podem não dizer nada a respeito do mundo social. Trabalhar somente com evidências leva também a vários problemas, a começar pelo viés de seleção para validar determinadas posições ideológicas. Mas, quando a preocupação é com as duas coisas ao mesmo tempo, lógica E evidências, consegue-se pelo menos um método que proporciona respostas que não são absolutas, verdadeiras ou definitivas (essas, só na matemática). Mas tais respostas são pelo menos confiáveis, à luz do conhecimento que temos até o momento. É o máximo que a ciência pode nos oferecer: respostas confiáveis com base no que temos e um método para separar conhecimento de embromações. Não é pela dedução racional pura e nem pela pura experiência que sei que “remédios” homeopáticos são uma embromação, por exemplo. Da mesma maneira, posso gastar horas preciosas discutindo com os “estruturalistas” latino-americanos sobre a invalidade filosófica das premissas que sustentam a teoria da dependência – e não chegarei a nenhum lugar, pois eles têm convicção dogmática de estarem certos com respeito às suas premissas -, ou posso simplesmente apresentar os dados que mostram que as previsões de sua teoria não ocorreram por volta dos anos 1960 e 1970.

  25. CN

    Claudio

    Não existe problema algum num “austríaco” a trabalhar dados e construir modelos e fazer previsões. Por exemplo, pode observar a expansão de crédito e tentar relacionar com subidas de preços em activos reais (onde se formam as bolhas).

    Mas a dedução da teoria dos ciclos económicos em si sendo consistente com todas as anteriores deduções sobre teoria de moeda, juro, capital, etc… é válida em si mesmo a não ser… que seja demonstrada uma inconsistência.

    Na verdade, existe um grande campo potencial para economistas “austríacos” no domínio empírico. Mas o que um miseseano sabe que não pode fazer é conferir um status de validação/falsificação a modelos e observações históricas.

    Vamos ver os exemplos:

    Lei da utilidade marginal: “Sempre que a oferta de um bem aumenta em uma unidade, contanto que cada unidade seja considerada idêntica em utilidade por uma pessoa, o valor agregado a esta unidade adicional diminui. Pois esta unidade adicional só pode ser empregada como um meio para alcançar um objectivo que é considerado de menor valor do que o objectivo menos valorizado alcançado por uma unidade deste bem se a oferta fosse reduzida em uma unidade.”

    Lei da associação de ricardiana “Entre dois produtores, se “A” é mais eficiente do que “B” na produção de dois tipos de bens, eles ainda podem participar de uma divisão de trabalho mutuamente benéfica. Isto porque a produtividade física geral é maior se “A” se especializa na produção de um bem que ele possa produzir mais eficientemente, ao invés de “A” e “B” produzirem ambos os bens autônoma e separadamente.”

    Estas leis nunca poderiam ser validadas com carácter de verdade universal por estudos empíricos. Porque, na medida em que o homem é um ser que age com escolha de fins e meios elas são necessariamente verdade porque estão encadeadas em deduções a partir do axioma que o homem age. São verdades em si mesmo e não são tautológicas.

    Ou tal como dizer, “se a quantidade de moeda aumenta, ceteris paribus, algum preço em algum ponto da economia vai subir relativamente ao que seria se a quantidade não tivesse aumentado”, a única forma de não ser verdade é deixar de ter como verdade que o homem age com um propósito, mas se age, conduz a uma série de acepções como a utilidade margina decrescente, como conduz a que maior procura maior o preço, porque se ceteris paribus a procura por moeda mantém-se e assim a moeda adicional é despendida na economia, o que faz com que a procura aumente e assim algum preço.

    O que de facto não pode ser considerado uma lei universal são parametros típicos de estudos empíricos como elasticidades, etc, dado dependerem de medidas e de serem aplicáveis só aos factos históricos as que se reportam, não sendo assim possível conferir-lhes como medidas fixas no futuro.

  26. Sim, sim. Não é como no caso da teoria da seleção natural, que seria automaticamente invalidada se alguém encontrasse um fóssil de coelho do pré-cambriano. As leis apresentadas contam com ampla base de evidências a seu favor. Creio que a diferença é que um biólogo evolucionista teria que abandonar sua teoria caso o tal do coelho aparecesse… Já no caso da EA, não se admite nem sequer a possibilidade de que evidências contrárias a essas leis possam aparecer, já que isso seria uma violação não da teoria, mas da própria lógica.
    Seria como… achar uma evidência que invalide a lei da gravidade. 🙂
    E tens toda a razão, NENHUMA lei científica é validada como verdade universal por estudos empíricos. Nem mesmo a seleção natural, ou a gravidade. Se há cientistas que consideram essas leis como “verdades universais”, é porque não compreenderam que a ciência não tem por objetivo produzir verdades universais. E isso não alimenta o relativismo, muito pelo contrário. Isso é o que torna o conhecimento científico confiável. O máximo que posso dizer é que a lei da gravidade é verdadeira “para além de qualquer dúvida razoável”, e o mesmo para a evolução por seleção natural.
    O que me parece é que, na EA, o “para além de qualquer dúvida razoável” não faz sentido. As leis são verdadeiras e pronto, porque são leis deduzidas a partir das bases da ação humana…
    … só que tais “bases” são, elas mesmas, o resultado de um longo processo de evolução por seleção natural. 😉

  27. Luís Barata

    CN,
    O significado de apriori em Kant parece-me essencial nesta conversa… Pedia-lhe, por isso, que me dissesse qual é, para si, o significado de apriori em Kant. Depois,sim, avançávamos para Mises.

  28. Luís Barata

    Cláudio,
    A utilidade ou é um atributo do saber ou não é coisa nenhuma. Pode haver uma evolução da matemática que permita, por exemplo, curar cancros ou outras doenças e isso nada ter que ver com a verdade ou a justiça, pois pode estar a alimentar vícios intelectuais de quem investiga e vícios morais de quem é curado.
    A lógica matemática é ela própria um vicio intelectual pois parte de premissas falsas. Quando abrimos um desses manuais de lógica matemática que os universitários usam chega a ser atroz a infantilidade dos argumentos empregados. Nem sequer chegam a compreender o que seja uma premissa…O valor e o alcance do organon aristotélico não é desatendido por ser completamente ignorado.

  29. Luís Barata,
    Realmente não tenho como discordar. O “treinamento” universitário em matemática realmente deixa muito a desejar. Mas há uma diferença entre demonstrar teoremas e empregar o raciocínio lógico a outras áreas do conhecimento (a justiça, a moral, a política etc.).
    Sempre senti que falta mais interação entre a Matemática e a Filosofia da Matemática durante os anos de formação. Há matemáticos profissionais que não sabem a diferença entre platonismo e intuicionismo em Matemática, simplesmente porque passam anos e anos desenvolvendo técnicas de demonstração que depois terminam por ser aplicadas de forma mecânica. Ainda que o “insight” do matemático seja quase uma epifania, há pouca reflexão sobre as implicações do que se está a pesquisar. De fato, isso é consequência de um severo vício intelectual.

  30. CN

    Luís, mas porque temos de falar de Kant, a escola austríaca não é kantiana. Mises limitou-se a usar alguma da sua terminologia. O apriorismo decorre de leis como a da utilidade marginal decrescente não partir da observação mas da construção lógica a partir o axioma que “o homem age”.

  31. Luís Barata

    CN,
    Pode dar-se o caso de Mises ser Kantiano sem disso haver consciência. O próprio entendimento do apriori tem muito que se lhe diga… Mas deixe-me rever as primeiras páginas da Acção Humana, que já não tenho bem presente, e em principio já escrevo qualquer coisa sobre o assunto.

  32. jhb

    a popular quote attributed to physicist Richard Feynman goes, “Philosophy of science is about as useful to scientists as ornithology is to birds.”

  33. Luís Barata

    Muito popular, de facto, a citação. É divulgá-la na televisão que é onde se tratam desses assuntos popularuchos.

  34. CN,

    Desculpe a demora em responder.
    Como disse e bem, Mises utiliza uma terminologia kantiana. Não só a palavra apriori mas muitas outras. E não utiliza uma terminologia kantiana por acaso. Utiliza porque Kant já tinha no tempo de Mises uma grande influência na realidade. Não só a utiliza conscientemente como é kantiano inconscientemente: a critica à metafísica é semelhante à de kant; a praxeologia é, tal como a filosofia de Kant, uma teoria do conhecimento; a praxeologia é o resultado do pensamento nórdico que opõe a acção ao verbo…;Mises procura fazer com a praxeologia – e exactamente nos mesmos termos – o que Kant fez com a moral;
    Volto a insistir no que me parece ser o mais importante: a praxeologia é um acervo de erros. É de louvar o esforço de Mises para chegar aos princípios de onde todas as ciências recebem o seu fundamento. Mas era este um esforço que implicava uma vida dedicada ao estudo filosófico e as virtudes de um Kant, Tomás, Plotino etc. que manifestamente Mises não tinha.

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