Aos entusiastas da reestruturação da dívida pública portuguesa

Para os entusiastas (a distinguir dos resignados) da reestruturação da dívida pública portuguesa, vale a pena considerar o seguinte, depois do momento cipriota da crise, que destruiu o tabu de que há garantia de depósitos na Europa, até 100.000 euros. Teve o mesmo destino, aliás, que o tabu de que não havia resgates, ou de que nenhum país incumpriria a sua dívida. Admitamos que Portugal incumpre: faz um haircut, um corte de cabelo. Onde se bunkerizou a dívida pública portuguesa? No BCE e nos bancos portugueses. O que acontece aos bancos portugueses em tal eventualidade? Adivinhou. E como poderiam ser recapitalizados, se não fossem abandonados à falência? Também, precisamente. Está a ver como os alemães são maus?

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20 pensamentos sobre “Aos entusiastas da reestruturação da dívida pública portuguesa

  1. silver

    Caro Jorge Costa, uma pergunta off topic: É minha impressão ou o senhor é colunista do Jornal de Negócios? Tenho visto textos assinados por um Jorge Costa

  2. pois

    “Também, precisamente. Está a ver como os alemães são maus?” Estou a ver os alemães são bonzinhos e não tiveram nada a ver com o saque feito aos depositantes no Chipre.

  3. antonio

    Jorge, só pergunto o seguinte: não sendo defensor da reestruturação, como eu tb nao sou’ que alternativa realista sobra?

  4. Miguel Noronha

    Não ser “entusiasta da reestruturação não significa que se ache que lhe possamos escapar. Só que, contrariamente a muitos, a reestruturação não vai significar o fim da austeridade nem eliminar a necessidades de cortes profundos na estrutura da despesa.

  5. António

    Então vamos acabar por dar razão ao BE e PCP , que já diziam precisamente isso há 5 anos atrás (aquando das eleições onde o Sócrates venceu)?

  6. Miguel Noronha

    Se eles disseram também que temos de cortar na despesa pública e que um “haircut” não significa simplesmente deixar de pagar…

  7. “Então vamos acabar por dar razão ao BE e PCP (…)”

    António, esses partidos não conseguem é explicar como recapitalizam depois os bancos e o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (pelo menos 50% é dívida pública portuguesa) nem como – não havendo quem, a partir desse dia, esteja disposto a emprestar dinheiro – alcançam défice zero de forma imediata (sobem os impostos e/ou reduzem a despesa?).

  8. António

    Miguel, claro que eles não diziam isso. Diziam só que era para não pagar, que os do norte podia bem arcar com isso, e era dever deles.

    Mas o PS, PSD e CDS diziam que era possível pagar, e afinal não é! Como já se via…

    E vamos ficar na mesma. Todos têm razão, e ninguém tem razão.

    BZ, há 5 anos, ou agora (que estamos ainda piro que há 5 anos), não pagando o problema é igual. Aliás, como devemos mais agora ainda é pior…

  9. Miguel Noronha

    Estamos pior que há 5 anos porque ainda estamos mais enterrados em dívida. Em 2009 o partido que dizia que se devia cortar na despesa foi copiosamente derrotado. Ganho o que dizia que quanto mais gastassemos, melhor.

  10. António

    Sim Miguel, é verdade. Mas há 2 anos esse mesmo partido foi derrotado, por um outro que prometeu uma serie de coisas que não fez (prometeu baixar impostos, cortar na despesa, etc). E que tinha assinado este memorando, e que dizia ( e diz) que ia ser possível pagar, quando sabemos que não é. Já sabíamos. Já sabíamos que íamos estar pior agora, e daqui a 1 ano, do que estávamos em 2011, e em 2009.

    Agora vamos ter de pagar mesmo , de uma forma ou de outra, pagando ou não pagando!

    E pergunto: onde (quem) fica coma a verdade, credibilidade? Porque todos mentiram, ou pelo menos só contaram a verdade que lhes convinha…

  11. Miguel Noronha

    É tempo de percebermos que a democracia é um método de escolha e transição pacífica de governos. Apenas. E que para além disso é preciso algo mais que garanta que sejam respeitados os direitos dos individuos contras os caprichos de maiorias conjunturais.

  12. Jorge Costa

    Tarde e más horas. António: não tenho nenhum entusiasmo pela reestrututação da dívida pública, ou privada. Por vezes, na história dos povos não há outra saída. Mas é bom que tenhamos consciência que não nos libertará um iota da chamada austeridade. Não voltaremos aos mercados enquanto não provarmos que mudámos de vida. E, até lá, precisaremos de ajuda financeira, que determinará as condições em que nos governaremos. Não basta não ter défices. Há dívida por rolar, a que não for eliminada. Acresce que a dívida pública, estando acumulada nos balanços dos bancos portugueses, ao ser eliminada criará graves problemas de balanço no sistema financeiro, que também ele terá de ser objecto de resolução, o que começa com forte stress sobre a economia como um todo. Teremos de mudar o que conduziu a isto. E não vai ser fácil.

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