Inverno Chinês

Mao_unknown_story

O livro que Francisco José Viegas aqui publicita – a tradução, publicada pela Quetzal, de Mao: The Unknown Story, cuja compra e leitura recomendo já – deu azo a um episódio da divertida novela das batalhas académicas que se têm travado sobre a história do maoísmo.

Em versão rápida: Mao, The Unknown Story (de Jung Chang, autora de Cisnes Selvagens, e do seu marido, o historiador Jon Halliday) apresenta novos materiais sobre Mao Zedong, baseando-se sobretudo em testemunhos pessoais obtidos pelos autores em entrevistas a este mundo e o outro; o livro pinta Mao das piores cores que os autores conseguem e é evidente que é essa a intenção. Mas como a produção da História do maoísmo ainda tem o seu quê de batalha campal (o que é muito apropriado, dado o objecto), vários académicos, todos eles ausentes da bibliografia do livro de Chang, reuniram as suas recensões (de mais ou menos negativas – de Lowell Dittmer ou Jonathan Spence, ele próprio biógrafo, em minha opinião nada bem sucedido, de Mao – a muito negativas – de Mobo Gao, que chamou ao livro ‘escândalo intelectual’) e publicaram Was Mao Really a Monster?: The Academic Response to Chang and Halliday’s “Mao: The Unknown Story”, acusando Chang e Halliday de ignorarem investigação anterior (a destes autores) e apresentarem informação selectivamente . Inevitavelmente terminam apontando o dedo acusatório à parte da juventude de Chang como Guarda Vermelho durante a Revolução Cultural. O que também já é um clássico nos autores mais benevolentes com o maoísmo, que, incomodados com a existência crescente e o sucesso editorial de relatos autobiográficos das desventuras pessoais ou familiares durante o maoísmo, sobretudo da Revolução Cultural, não deixam sempre que possível de apontar a cumplicidade (efectiva, que estamos em terrenos ambíguos) dos autores desses relatos no sofrimento provocado a terceiros, indo desde as memórias do comum adolescente guarda vermelho que participa em actos de violência contra os ‘inimigos da revolução’ antes de ser enviado ele próprio para trabalhar numa aldeia remota e viver no limiar da sobrevivência, até às memórias da filha de Deng Xiaoping sobre as atribulações do seu pai durante a Revolução Cultural onde não consta o apoio inicial de Deng à RC antes de ter percebido que ele e os restantes quadros mais antigos do PCC eram os principais alvos da grande revolução cultural proletária.

Reincidindo, Mobo Gao, num livro apropriadamente intitulado The Battle For China’s Past: Mao and the Cultural Revolution, responde de uma assentada a Chang e Halliday, a Li Zhisui (médico de Mao que uma vez fora da China publicou as suas memórias sobre a sua vida com o famoso paciente) e a todos os memorialistas que têm andado a ofender a herança maoísta com as suas sortidas histórias de perseguições. Curiosamente Gao usa a mesma subjectividade de que acusa Chang (até a personalidade ‘fria’ de Lui Shaoqi parece ser justificação para a perseguição e morte de Liu) e assegura que as vítimas do Grande Salto em Frente terão sido, no máximo, 30 milhões de chineses (poucos, portanto), contra os 38 milhões aventados por Chang (Frank Dikotter coloca-as em, pelo menos, 45 milhões).

O mais interessante disto? É espelhar a batalha pelo futuro, e não pelo passado, da China que por lá se passa actualmente entre os que pretendem dar continuidade às reformas económicas e se assumem como herdeiros da Teoria de Deng Xiaoping e os que desejam um regresso aos tempos maoístas e vão buscar ao Pensamento de Mao Zedong legitimidade política – e que teve no ano passado com a prisão do maoísta Bo Xilai e a ascensão de um Xi Jinping, que decidiu ter como um dos primeiros actos de presidente uma viagem a Shenzhen que emulou uma outra famosa viagem de Deng, um deveras dramático (i.e., à chinesa) desenvolvimento.

3 pensamentos sobre “Inverno Chinês

  1. pois

    ” e leitura recomendo já”
    ” livro pinta Mao das piores cores que os autores conseguem e é evidente que é essa a intenção.”
    “Mas como a produção da História do maoísmo ainda tem o seu quê de batalha campal (o que é muito apropriado, dado o objecto),”

    Finalmente, alguém neste blog que assume que o objectivo não é ser isento.

  2. Pingback: Leituras maoístas | Farmácia Central

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