Portugal não tem emenda

Acompanhei a manifestação de ontem ao longe, pelos jornais, blogs e redes sociais (sendo que não surpreendentemente os jornais foram os menos informativos do que se ia passando) e embora perceba a tentação de se denunciar a aldrabice que foram os números apontados pelo Bloco de Esquerda não sei até que ponto terá relevância (a maior parte já sabe que eles são aldrabões, quem não sabe vai continuar a não querer saber).

O mais relevante, na minha óptica, é que mais uma vez tivemos uma demonstração de que o país não tem emenda. Podemos falar de maiorias silenciosas? Claro que podemos (e devemos) mas também não podemos esquecer que as minorias ruidosas têm grande influência junto da classe governante (só a título de exemplo houve uma maioria silenciosa que não queria saber da liberalização do aborto para nada, nem sequer teve paciência para ir votar no referendo mas feitas as contas essa maioria silenciosa está agora a pagar os abortos que se fazem no SNS). O problema do país não é sequer aqueles cem mil (vá, arrendondado para cima) que se manifestaram ontem a favor de terem tudo o que sempre tiveram e não quererem pagar a conta. O problema do país é precisamente a maioria silenciosa que não abre a boca. A que come e cala estes anos perdidos de PSD/CDS onde pouco mais se fez que gerir a bancarrota perdendo-se oportunidades atrás de oportunidades para resolver os problemas essenciais do país.

Portugal não tem emenda porque não se vê meia duzia de gatos pingados à porta do parlamento a pedir diminuição da despesa pública. A classe política, gostem ou não, vai atrás das minorias ruidosas e pouco barulho se faz sobre o que interessa. Um pequeno exemplo: Era difícil mobilizar umas quantas pessoas para gritarem que queriam a RTP privatizada e deixar de pagar taxa audiovisual? Pelos vistos era e na falta de contraponto ruidoso o governo de tendência natural socialista lá continua a sustentar o elefante branco à conta do contribuinte.

Nunca houve uma minoria ruidosa contra o TGV, contra o aeroporto, contra os benefícios sociais… e aqui estamos. Não são cem mil pessoas naturalmente frustradas e facilmente instrumentalizáveis pela extrema-esquerda que são o problema da nação, afinal “tudo o que é necessário para que o mal ganhe é que gente boa nada faça”.

Mas sejamos sinceros, se a maioria silenciosa ainda não se levantou do sofá também não é agora que o vai fazer. E enquanto o tempo passa a frustração dos portugueses só vai aumentar, se o governo abdicou de fazer o necessário enquanto estava em período de graça não há razões parar crer que as coisas vão melhorar e reduzir as incertezas de quem vive em Portugal. A situação só pode piorar. À maioria silenciosa só lhe cabe ser cada vez menos maioritária à medida que o bom senso a leva a fazer as malas e saírem para sítios mais livres das influências do ruído das minorias.

E Portugal, assim, transforma-se numa balança que só tem peso de um lado a caminho do futuro que no fundo merece ter. Um dia a Troika há-de mesmo ir lixar-se e os portugueses que ficarem poderão finalmente banhar-se na total falência do país, ou nas palavras de Francisco:

– Señor D’Anconia, what do you think it will happen to this world?
– Nothing more and nothing less than what it deserves.

7 pensamentos sobre “Portugal não tem emenda

  1. Pingback: Multidões no Terreiro do Paço: descubra as diferenças | O Insurgente

  2. Joaquim Amado Lopes

    A maioria silenciosa pode realmente levantar o rabo do sofá e fazer ruído. Mas, de certa forma, ainda bem que não o faz.

    Numa democracia, a liberdade para defender o que se acha correcto vem a par com o respeito pelo direito dos outros a fazerem escolhas diferentes das nossas. Como nunca concordaremos todos seja sobre o que fôr, a melhor forma (e não a menos má, como alguns dizem) de determinar que opções devem imperar é dar a todos a hipótese de manifestarem a sua opinião e dar o mesmo peso a cada um dos que aparecem. A que tiver maior suporte é a que vinga e resta a quem não concorda passar o tempo até à nova consulta a tentar converter mais à sua causa.

    Circo e gritaria são as piores formas de manifestar uma opinião. Quando assume a forma de greves sucessivas (que vizam apenas prejudicar ao máximo quem não tem nada a ver com o alvo da “luta”, com o objectivo de os fazer revoltarem-se também), perseguir detentores de cargos e impedi-los de falarem em eventos para os quais foram convidados(!) ou manifestações (como as de ontem) que se assemelham a algumas dezenas (sim, dezenas) de milhar de crianças a fazerem birra porque querem o que querem e se estão nas tintas para como OUTROS vão fazer para o obter, manifestar a “opinião” apenas demonstra uma total falta de respeito para com a democracia. Querem que a sua opinião prevaleça, independentemente de quantos se opõem a ela e estão dispostos a massacrar quem quer que seja com a sua gritaria até conseguirem o que querem. Exactamente como crianças a fazerem birra.

    Enquanto a maioria silenciosa continuar sentada no sofá e olhar para circos como o de ontem, abanando a cabeça com tristeza e perguntando a si própria o que se passa na cabeça de alguém que quer mais dinheiro para tudo ao mesmo tempo que insulta e exige a saída de quem ainda o vai disponibilizando, há alguma esperança. Enquanto isso acontecer, a vontade da maioria vai continuar a ser aferida pelo número de votos em eleições UNIVERSAIS e LIVRES, precisamente o que a minoria ruidosa recusa.
    Quando a maioria silenciosa decidir tornar-se ruídosa, a forma de aferir da vontade do “povo” passará a ser pelo ruído e pela militância e a democracia morre.

    Este movimento “que se lixe a troika” é como o “Occupy Wall Street”. Protestam mas não sabem muito bem contra quê. Não têm quaisquer alternativas e, na maioria dos casos, não têm a mínima noção da realidade.
    As muitas pessoas que se deram ao trabalho de entrevistar manifestantes do “Occupy Wall Street” demonstraram isso mesmo. A esmagadora maioria dos “ocupantes” entrevistados não fazia a mínima ideia do que estava ali a fazer, não conseguia expressar uma ideia coerente do princípio ao fim e não tinha qualquer solução para os problemas que nem conseguia definir claramente. Dos que apenas queriam que lhes pagassem o empréstimo que contraíram para estudar aos que queriam acabar com o dinheiro, passando pelos que achavam que cada empregado de uma empresa devia mandar tanto como o dono, havia de tudo.

    Também nestas manifestações em Portugal se devia ir perguntar a “revoltados” escolhidos à sorte o que defendiam como solução e confrontá-los com os factos nús e crús. Mas isso exigiria que lá fossem repórteres em vez de “revoltados” com carteira profissional de repórter.

    Este Governo tem feito muito mal e até eu, (ainda) militante do PSD, não tenho intenções de continuar a votar num partido que apenas se limita a tentar adiar o desastre socialista. Mas o muito mal que este Governo tem feito é apenas um pouco do muito que os “revoltados” exigem. Faça o Governo o que eles querem e o desastre cai-nos em cima com a força de uma chuva de pedregulhos.

    A maioria silenciosa não pode usar as armas dos ignorantes e intolerantes para combater a ignorância e a intolerância. Se queremos ter um resquício de esperança, a maioria silenciosa tem que continuar a dar-se ao respeito e a respeitar a democracia. Mesmo que algumas dezenas ou centenas de milhar se juntem a gritar e a exigir o paraíso e que sejam outros a pagá-lo.

  3. josé M

    Ainda não perceberam…, o desastre é tal que este governo já não tem saída. Primeiro começou o “nem mais tempo, nem mais dinheiro”, veio o mais tempo e agora já vem o mais dinheiro. Segundo não se reestrutura a dívida nem se renegoceia o memorando, já se vê e ouve (o eterno Constâncio…) que virá a renegociação e em breve se falará da dívida (para já pô-la a rolar e depois logo se corta). O governo até já fala de novas PPPs, novos hospitais, TGVs para mercadorias, portos novos em lugares incríveis como a Trafaria… Ou seja, o que temos é o Sistema todo de uma lado (PS; PSD; CDS) e do outro o que resta… será suficiente? Vamos ver…

  4. Pingback: Portugal não tem emenda | Ricardo Campelo de Magalhães

  5. André

    Nuno excelente texto e análise da situação.

    Mas com o devido respeito, eu , simples leitor assiduo do vosso ou de outros blogues, partilhando muitos dos pontos de vista que aqui se falam, pouco ou nada posso fazer à excepção de tentar mostrar a realidade aos meus entes mais chegados quer sejam familia ou amigos, penso que vocês do Insurgente e muitos outros blogues também podiam começar uma campanha de sensibilzação e de aprendizagem à população em geral.

    O problema é que os que se lixam para a Troika aproveitam o mau momento de milhares de familias e arranjam muita gente para a festa.

    Nós, por outro lado, que também passamos momentos de maior aperto e que podemos apontar muitos erros a muita gente, mas que sabemos que o melhor que temos a fazer é trabalhar e educar-nos, também podemos fazer qualquer coisa. Estamos “acomodados” por que temos de trabalhar para sair disto.

    Mas a iniciativa tem de partir de quem tem voz. E quem tem voz a meu ver são os blogues que surgiram nos ultimos 10-5 anos que têm educado e informado muita gente, que como eu ou muitos de nós, se sentem incapazes de lutar contra politicos corruptos, esquerdistas populistas e influenciadores, e pessoas que não fazem a minima ideia do que se passa. Aa minha opinião muitas vezes esbarra no actual estado do país, fico sem argumentos para tanta irritação. As pessoas estão em estado de negação para a real saída da crise.

    Sinceramente estou farto de tanta mesquinhez. O que se passou no sábado foi um acto que eu respeito, mas o que passava na TV era triste e vergonhoso: Números exageradissimos, opiniões ocas e sem conteudo, o grandola que passou a hino nacional e eu já sou alégico à musica…
    E para quando educar as pessoas? Para quando acordar as pessoas que trabalham todos os dias, alguns no publico e muitos no privado, para o bem das suas empresas e das suas familias, que buscam sempre a excelência no trabalho? Para quando pensarmos em educar a sociedade, ensinar que para por dum lado da equação, tem de se tirar do outro lado?

    A Suécia reformulou o seu estado social nos anos 90 porque a sociedade estava preparada. A Portuguesa ainda não está e deviamos começar por aí porque o governo não tem créditos para tal, infelizmente.

  6. Pingback: Não é por aqui | O Insurgente

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