Maiorias Silenciosas

O CDS, sozinho, teve 653 987 votos por todo o país nas últimas eleições. Vale também a pena recordar que o PSD teve mais de 2 milhões de votos. Julgando pelas últimas sondagens e pelo senso comum, podemos admitir que este número terá descido, mas não significativamente. Ao mesmo tempo vale relembrar que dificilmente os votantes dos partidos do governo – mesmo os descontentes como eu- se identificariam nos slogans e propostas dos movimentos que hoje se manifestaram.

Entretanto, o Terreiro do Paço, onde cabem menos de 200 000 pessoas, não estava cheio. Encheu-se para ver o Papa e estavam lá pouco mais de 100 000. É aí que chegamos à simples conclusão de que, com todo o optimismo do mundo e com toda a fé nos produtos light que os intervalos televisivos nos garantem, o número de pessoas que esteve na manifestação de hoje em Lisboa, será ligeiramnte superior ao número de vontantes do CDS (apenas  no Distrito do Porto).

Com tudo isto, apelidar o que se passou neste Sábado  de “um cartão vermelho ao governo”  (ou à Troika) ou “a expressão de um país” é o mesmo que eu me cortar a aparar a barba e chamar-lhe desfiguramento facial. A história habituou-nos a maiorias barulhentas que se assumem, ao longo dos anos, como representativas de uma classe, de uma ideia ou de um povo. Infelizmente, para os Ché Guevaras do IPad, são as maiorias silenciosas que ganham eleições.

18 pensamentos sobre “Maiorias Silenciosas

  1. Ricardo C.

    O que ninguém quer ver é que estas manifestações fogem ao esquema dos partidos, e se por lá aparecem alguns notáveis dos mesmos, é apenas e só para não “perderem o comboio”. A manifestação escapa completamente aos partidos tradicionais. E cada vez mais será assim, até a um ponto que nem me atrevo a imaginar.

    A aldrabice que foi a eleição de um governo que prometeu uma coisa (lembram-se do PEC 4?) para no dia seguinte começar a dizer precisamente o oposto, juntamente com a vivência dos anteriores anos de incompetência e cleptomania, fazem com que os cidadãos não se revejam neste modelo que lhes impingem nem nesta Europa dos Bancos.

    100.000, 200.000 ou 500.000… representam um número não negligenciável de desgraçados que se deram ao desconforto de perder uma tarde de sábado para mostrar a indignação pela aldrabice, pelo sacrifício e pela ausência de resultados… se tivermos em conta o interesse e as mais modestas expectativas dos cidadãos portugueses.

    Apenas um erro: quando dizem que o programa da troika falhou estão a dizer um disparate. O programa da troika está a ser cumprido e não falhou de modo algum, se virmos pelo lado de quem o elaborou:

    http://www.tvi24.iol.pt/financas/bce-divida-obrigacoes-crise-da-divida-juros/1331477-1729.html

  2. Observador

    «Infelizmente, para os Ché Guevaras do IPad, são as maiorias silenciosas que ganham eleições.?»

    Por isso mesmo é que as vanguardas dos Ché do IPad acabariam rapidamente com as eleições livres se um dia conseguissem tomar de assalto o poder

  3. Exactamente! A democracia, quer se goste ou não, tem regras. Os “cartões vermelhos” são dados na urnas… Tudo o resto é folclore… A democracia até confere o direito a ser estúpido…

  4. oscar maximo

    Esta gente que dá loas á democracia devem ser as mesmas que na passagem do milénio davam loas á globalização, Acham que este país é suficientemente rico para manter luxo, ou que uma solução dentro desse quadro vai ser encontrada em tempo util, Não existe nenhuma democracia estável com um general para cada dois sargentos e dois soldados.

  5. As 11

    Só asneiras…é a “maioria silenciosa” não é?

    Olvidar o que se passou ontem é olvidar os cidadãos, a democracia que não se faz de 4 em 4 anos. Ainda por cima num país em que tantas vezes saímos à Rua

  6. Duvmet

    “Cheio que nem um ovo”- exultava ontem um repórter da SIC N, ao mesmo tempo que imagens aéreas mostravam um Terreiro do Paço com uma concentração densa junto a um palco e imensos espaços esparsamente “povoados”, ou mesmo vazios, no resto da praça. . “Mais de 500 000 pessoas ter-se-ão manifestado”- prosseguia o entusiasmado activista, perdão, “jornalista”.
    Ora vamos lá descer da estratosfera, pá!
    O Terreiro do Paço não leva 200 000 pessoas, isso já foi calculado por especialistas com aquele método de verificar quantas pessoas cabem, apinhadas, num metro quadrado e multiplicar depois esse número pela área em causa.
    Com o Papa estava realmente cheio que nem um ovo e a coisa andaria pelos 100 000.
    Assim que, no momento em que o repórter debitava aqueles disparates hiperbólicos, estariam no Terreiro do Paço, menos de 40 000 pessoas, o que é, convenhamos, uma razoável assistência a um jogo do Benfica.
    “Nos somos o povo”- berravam os activistas do Bloco de Esquerda, e balia a carneirada que os seguia.
    Realmente pá?
    Então o que dirão os benfiquistas num dia de casa cheia. Provavelmente sentem-se com legitimidade que baste para fazer a revolução, exigir a demissão do governo, do Presidente, e até do Rei de Espanha e do sultão do Brunei.

  7. JP

    Pelo menos duas entidades intervirão, certamente, por iniciativa própria e sem estarem à espera de qualquer queixa:

    1- A ERC, pelo modo cubano os factos foram descritos e ao mesmo tempo desmentidos pelas próprias imagens.
    2 – O Ministério Público, pelo desaparecimento misterioso de 3/4 das pessoas que ocupavam a praça à hora em que os grandoleiros cantavam.

    Pelas minhas contas, e partindo do relato da tal jornalista da TSF, terão desaparecido pelo menos 200.000 pessoas, que o colega acabara de ver ali mesmo, à sua frente.

    Nota: também deveria haver uma intervenção da Ordem dos Oftalmologistas, se é que esta esta ainda não foi, também ela, tomada pelos vermelhos.

  8. JP

    O Público de hoje, faça-se justiça, faz uma correcção muito grande às asneiras de ontem.
    Falta só concluir que, com aqueles cálculos, 30.000 à hora da missa das 18h30 no Terreiro do Paço já é uma contagem um pouco optimista.

  9. Ricardo C.

    Quando vamos votar, votamos num projecto, numa ideia, num caminho. Bem ou mal, esse projecto deve ser cumprido, pelo menos na essência. Infelizmente, é muito difícil decidir alguma coisa nas urnas quando a falta de seriedade dos candidatos escamoteia o que realmente projectam para o país, quando eleitos.

    Daí o perigo do chico-espertismo agora adoptado e, até ao momento, não penalizado. As pessoas estão a convencer-se que as urnas não servem para nada. O resultado é o mesmo que abrir uma caixa de pandora.

    E, acreditem, as teorias de economia que tanto leio, as questões do défice e do financiamento, dos mercados, dos ratings e de tudo o mais, só são válidas enquanto há economia, ou enquanto as pessoas comuns acreditam que têm algo a perder com a sua revolta. O alheamento da realidade, para lá dos rácios e dos modelos académicos, é simplesmente confrangedor. Falam da eleição do palhaço italiano, mas convém esquecer a igual percentagem de nazis eleitos na Grécia. Estas gerações não imaginam o que foi viver no caos. O que é viver no caos. Muitos destes gestores e governantes nem eram nascidos quando a muy capitalista Saigão mudou de sistema de um dia para o outro. Se fossem, estou a imaginar que estariam no telhado da embaixada a ver os T54 a moverem-se no meio da apatia popular e a tentar compreender “quem é que agora vai financiar o mercado?” ou “quem vai pagar esta operação militar?”.

    E, desconhecendo o que é o caos, julgam ter descoberto a pólvora com a sua maneira “inteligente” de ir esticando a corda para maximizar os lucros de alguns a troco da infelicidade da maioria. O fugitivo trabalhou sempre neste registo e agora parece não haver nenhuma melhora, como se todos os líderes fossem cear à mesma loja e beber da mesma inspiração, após cada dia de trabalho.

    Temo, sinceramente, que isto possa acabar mal.

  10. Pável Rodrigues

    Pois é, desta vez ainda não aconteceu! Mas para a próxima é que vai ser! A confirmar-se esta notícia: – “http://www.jornaldenegocios.pt/economia/Detalhe/governo_prepara_corte_das_pensoes_vitalicias_de_politicos.html”, e eu espero em que ela se confirme, para a próxima teremos a “mãe” de todas as manifestações! Além dos netos e dos avós, para a próxima também teremos os pais e mães a desfilar por este país fora. A desfilar e a grandolar como nunca visto!

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