Ilusões

Eu até sou sensível ao argumento da confiança interna. E gostaria sobremaneira de uma cultura de acordo social. Agora é importante que tenhamos consciência do que isto significa. Mais tempo não significa que qualquer problema se resolva. Significa mais tempo sem o resolver. E se o problema é o de que o país poupa pouco para o investimento de que precisa, então mais tempo significa mais tempo sem os recursos de que precisa para poder investir. O Estado é o principal foco de poupança negativa. Quer porque consome demasiado, quer porque transfere o que não poderia. Quando transfere o que não pode, é porque esteve a fazer de conta que estava a poupar por mim. Deveria estar, pelo menos numa parcela considerável, a transferir de mim para mim, em épocas diferentes. Mas não esteve. Fez duas vezes muito mal: primeiro, quando me dispensou de poupar, garantindo-me que o estava a fazer; depois, quando sacou recursos a outros, que os poderiam poupar, para saldar a mentira. O resultado está à vista. A solidariedade social, tansformada em demagogia, pode ser inimiga da solidariedade intergeracional. Quem paga a factura? Mudar de vida é acabar com esta mentirona. Mais tempo é prolongá-la um pouco mais tempo. Mesmo porque está por provar que à frente as condições sejam melhores do que as actuais para pôr ordem em casa. De resto, de passagem, acho apenas cómica – não estou a defender que não se mexa no calendário dos reembolsos da dívida, estou apenas a achar graça à linguagem dos políticos – a seguinte observação: «Sendo Portugal um país cumpridor, defendemos que o excesso de reembolsos previstos para alguns dos próximos anos sejam repensados (sic)», o que, traduzindo por miudos, dá: sendo Portugal um país cumpridor, pedimos que nos deixem cumprir, mas não agora como estava acordado; mais tarde. Isto não parece, mas participa tudo do mesmo espírito: iludir. Faz tudo muito lembrar aquela célebre frase de Agostinho de Hipona: Dai-me a castidade; mas não ainda.

5 pensamentos sobre “Ilusões

  1. Miguel Noronha

    “Mais tempo não significa que qualquer problema se resolva. Significa mais tempo sem o resolver”
    Exactamente. No final vamos pedir ainda mais tempo.

  2. A “solidariedade social” é uma manta grande, obscura e pastosa cujo alcance é duvidoso. Será que o estado tem ajudado realmente quem precisa ajuda? Será que tem beneficiado os desprotegidos, abrindo-lhes oportunidades e amparo? Ou será que tem sido antes de mais um escoadouro de recursos para as “corporações” que mais berram, mais reclamam e reivindicam (por vezes com obsceno egoísmo perante os que não tem voz…).
    Outra coisa engraçada é a obsessão com encerrar a “dependência” da “toika” comum a todos os quadrantes. Do Governo como à oposição. Parecem todos querer dizer “deixem-nos em paz”, vão-se embora, para podermos “cozinhar a coisa à nossa maneira”… Esta “nossa maneira” tem dado os resultados conhecidos!…

  3. Br

    Bem, quer dizer, se a intensidade imprimida na consolidacao, principalmente ao nivel dos impostos, está a resultar no caos, social e economico, com o incumprimento a disparar, o desemprego, as falencias etc levando a sucessivas correcoes na execucao oramental do estado, quer-me parecer que aliviar o ritmo de consolidacao nao é apenas uma evidencia aritmetica, mas tambem uma questao de bom senso.
    .
    Se eu vejo que nao posso pagar o valor das prestacoes do credito habitacao no prazo negociado, e se nao encontro forma de vender a casa em TEMPO útil, parece-me logico que renegociar o prazo do emprestimo me alivie a tesouraria.
    .
    É que mesmo que nao queiramos mais tempo, somos obrigados, por força das circunstancias, a realidade enfim, a faze-lo. A alternativa sao duas, a saber:
    – decretar falencia, se isso for possivel
    – aprofundar a recessao com medidas ainda mais intensas na esperanca, vã esperança, de por obra de um milagre, os agentes economicos de repente voltem a investir, consumir, poupar etc.
    .
    Este governo comecou muito mal. Estou farto de o dizer. Tivemos nas maos uma oportunidade de ouro que desperdicamos. O governo devia ter comecado por reduzir a despesa fortemente enquanto a economia ainda tinha gorduras para aguentar o embate. E em simultaneo, mesmo em simultaneo à reducao de despesas, devia ter baixado as taxas de imposto. Tenho quase a certeza absoluta de que o endvidamento para financiar um abaixamento das taxas de imposto nao estaria maior daquele que hoje está. E muito provavelmente a economia tinha dado a volta. Menos impostos, menos despesa do estado… Crescimento.
    Mais impostos, Menos despesa… Recessao.
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    E já somamos cerca de 7 ou 8% de recessao acumulada. Isto sao, xacaber, cerca de 12.000 milhoes de euros que ‘fugiram’ da economia.
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    Rb

  4. Francisco

    Apoiado Jorge. Com esta tentação para a cedência estamos a começar a claudicar e não vamos longe nas reformas necessárias. Daqui a pouco tempo podemos estar a caminho do mesmo que julgávamos definitivamente ultrapassado. Isto de ser um ano de eleições é o diabo!…

  5. Br

    Eleicoes tambem nao resolve nada. A oposicao nao vale um chavo. Era mesmo util que este governo fizesse um reset ao software e reiniciasse o programa com outro enquadramento.
    .
    Rb (ricciardi)

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