Mais uma excelente análise da crise cipriota e do seu significado. Desta vez de Jean Pisany-Ferry.
Um comentário ou dois a propósito. Uma das maiores vacuidades com que as pessoas mais confusas, atordoadas, costumam «explicar», acusando, os presentes impasses da crise europeia é a ideia de uma suposta abordagem, ou prevalência, nos responsáveis pela situação, de uma visão – «economicista». Em geral, a crítica provém de pessoas cuja formação em matérias que costumam ser analisadas pela disciplina científica da Economia é patentemente nula. Mas é mais: de pessoas que parecem ignorar por completo o que é a política, uma vez que ela tomou, por inteiro, o palco da crise, coisa que, por mais estranho que possa parecerer, lhes está a escapar. Mas talvez uma coisa não pudesse ir sem a outra, senão, vejamos.
A economia é uma ciência muito chata, porque basicamente coloca à política dilemas. E a política (politics), sobretudo na sua execução mais rasteira, abomina a evidência dos dilemas. Há sempre, na visão da política dos que execram o «economicismo» a abominação dos dilemas. Sucede que a resolução dos dilemas (que não desaparecem por efeito da propaganda) – a opção, com a realização do seu custo – tem de existir e é política. Só que o discurso político mais idiotizado e idiotizante gosta de esquecer, suprimir, recalcar a ideia de que há custos em todas as decisões. De que há dilemas. Gosta de esquecer a Economia. A propósito: um dos momentos mais fulgurantes em que o actual Presidente Cavaco revelou a íntima miséria do seu estofo mental foi quando, ignorando o que há de mais nuclear na disciplina em que se formou, proclamou que duas pessoas, com idêntica informação, concluiriam o mesmo, no sentido em que escolheriam o mesmo. Cavaco a reflectir é essa nulidade: a ignorância (no sentido inglês do termo, activo, de «passar deliberadamente por cima de um facto») dos dilemas e, portanto, a ignorância da política, e daquilo em que a Economia a informa, porque custos há sempre: a questão é saber o que se sacrifica – quem se sacrifica.
Dito isto, se há facto relevante, evidência ululante no desenrolar da presente crise, é a do retorno em força da política sem escamoteamento no protagonismo da resolução dos dilemas: o fim da tecnocracia. Ou, como diz Jean Pisany-Ferry no artigo lincado,
Ultimately, the true contest is less between moral hazard and financial stability than it is between financially sensible and politically acceptable solutions. In Europe, as elsewhere, financial policy used to be the remit of specialists – central bankers, regulators, and supervisors. Not anymore: the experts have lost their legitimacy.
Nowadays, angry citizens are in charge, and politics is driving financial policy. But politics in Europe is national, and what one national parliament regards as the only possible solution another national parliament regards as entirely unacceptable. Europe has not yet found a response to this problem, and it is not on the way to finding one.
Dito por outras palavras, a Europa ainda não conheceu o seu momento constituinte. Nem está em vias de o conhecer.