O ajustamento em curso explicado em dois segundos e meio

Uma retrato polaroid do ajustamento em curso pode ver-se pela evolução das necessidades de financiamento da economia desde 2007 para cá, vulgo contas externas, ou défice externo. O défice externo, aquele que se dizia ser irrelevante em moeda única, doutrina assaz propalada pelo actual vice-presidente do BCE, foi dramaticamente corrigido. Ele é igual, por definição, à diferença entre a poupança nacional, mais o saldo das transferências de capital de e para o resto do mundo, menos o investimento. Se se investe mais do que se poupa, abstraindo das transferências, há défice externo. Para o haver, é necessário que haja alguém, no resto do mundo, disposto a financiar a diferença. Em não havendo, como foi o caso, ou se poupa mais, quer dizer, consome-se menos, se não houver aumento do rendimento disponível, ou investe-se menos. Consome-se menos, ou investe-se menos. Em 2012, poupámos tanto como em 2007, se medirmos a poupança em percentagem do PIB. Todo o ajustamento externo, de lá para cá, foi conseguido com uma contracção brutal do investimento, que passou de 22,8% do PIB para 15,7% do PIB, menos 7,1 pontos percentuais, valor essencialmente idêntico ao da correcção do desequilíbrio externo (a diferença residual é explicada pela variação residual nas transferências).  Verdade que, no intervalo, a poupança começou por diminuir e nos últimos três anos aumentou marginalmente. Para que o investimento possa recuperar os níveis pré-crise, ou a poupança aumenta sete pontos percentuais, para um patamar igual àquele em que estávamos no ano em que entrámos no euro, e desde aí nunca mais, ou reconstruímos o défice externo, o que, como se sabe, é impossível. Já se for para investir ao nível de 1999, 28,7% do PIB, teremos de aumentar a taxa de poupança em 13 pontos percentuais do PIB, mais que duplicar a taxa actual. A impossibilidade de voltar ao défice externo passou a ser a restrição activa, mantendo-nos nós na zona euro, provavelmente para surpresa do actual vice-presidente do BCE.

Necessidades de financiamento

Nota: os valores das necessidades de financiamento para 2012 não estão actualizados, visto que, de acordo com o Banco de Portugal, a economia terminou o ano com um excedente, isto é, com capacidade líquida de financiamento, pelo que o ajustamento foi maior do que supunha ainda há dias a comissão europeia, de cuja base de dados provém esta decomposição.

Como é fácil de ver pelo gráfico abaixo, retirado do último boletim do Banco de Portugal, tendo o resto do mundo, a hastezinha a azul, desaparecido do mapa, e mantendo-se as famílias como o único sector institucional com capacidade líquida de financiamento, sendo os recursos limitados pela restrição externa, ou o Estado diminui as suas necessidades, ou não se vê onde possam ir as empresas captar recursos para o célebre investimento sem qual, etc.

Por sector institucional

15 pensamentos sobre “O ajustamento em curso explicado em dois segundos e meio

  1. Luís Lavoura

    O investimento, na aceção deste post, não é necessariamente algo de positivo.
    Por exemplo, se a engenheira Isabel dos Santos compra algumas ações da PT, isso conta como investimento, mas na realidade a economia portuguesa em nada progride. Da mesma forma, se um inglês conta um apartamento no Algarve, isso conta como investimento, mas dificilmente corresponde a qualquer progresso económico.

  2. Miguel Noronha

    Ainda hoje li um Sr Professor a dizer que não era necessário cortar nada. Outra matemática é possível.

  3. ricardo saramago

    Isso da poupança e das contas externas é economicismo neoliberal.
    As pessoas não são números.
    O Investimento vem das “políticas”.
    Os empregos vêm das “políticas”.
    O crescimento económico virá das “políticas”.
    Precisamos é de uma agenda e de uma “nova política”.
    Queremos um primeiro ministro com poderosos feitiços, que domine as energias do oculto e capaz de resolver todos os problemas de mau olhado, doenças, invejas, heranças, amores não correspondidos e negócios em geral.
    PS: e já agora, se pudesse ser, que evitasse a descida de divisão do Sporting.

  4. Jorge Costa

    Sim. Não é necessário cortar mais nada. Mas o investimento fica onde está, isto é, abaixo do consumo de capital, sem chegar à reposição dos níveis de stock. Agora não estou a ver é como é que a economia cresce dessa maneira.

  5. André

    Caro Jorge,

    Deve ser por ser final do dia, mas achei algo o artigo algo confuso (para os mais leigos).

    Em que é que isto ajuda Portugal no défice Orçamental ou no PIB?

    Como se relaciona este défice externo de que fala, com estas duas outras rubricas que no fundo é o que mais nos interessa no curto prazo.

    Odéfice externo é uma rubrica dentro do défrice orçamental? Para que efeitos podemos utilizar o superavit externo?

    Não consigo fazer a associação só pelos meus conhecimentos.

    Obrigado.

  6. lucklucky

    “Agora não estou a ver é como é que a economia cresce dessa maneira.”

    Não vai crescer, mas isso já acontece desde 2000 e com milhões e milhões de investimento. Ou seja o valor do investimento não é condição para o sucesso. Até é bem provável que os investimentos hoje sejam muito mais cuidadosos e não tão destrutivos/inconsequentes como os de há 5 anos atrás…

  7. Pisca

    Estamos garantidos mais um que descobriu o caminho das pedras para o alivio do defice, há que juntar aos outros 1.000 e mandar ao Gaspar

  8. Jorge Costa

    Andre: o défice externo é igual ao défice do Estado mais o «défice» das empresas mais o «défice» das famílias, ou dos particulares. Se o défice externo for igual a zero, o défice do Estado é igual ao excedente dos outros.

  9. António

    Jorge, Mas o defict das empresas, famílias e particulares não é ainda maior e mais grave que o defict do Estado (não obstante o Estando andar há 5 anos a absorver parte desse defict particular)?

  10. Jorge Costa

    Não. Não confundir défice com dívida. Os saldos das famílias, empresas e Estado estão ilustrados no gráfico do Banco de Portugal. As famílias tem um excedente; as empresas e o Estado têm défices. Ambos, Estado e empresas, estão a dimuir os seus défices e as famílias a aumentar o seu excedente.

  11. FMP

    Bom trabalho. Parabéns pelos posts que tens posto aqui. Tenho uma dúvida desta vez. Onde entra aqui o saldo da Balança Comercial? No limite, se não pouparmos nada, nem investirmos (nem tivermos transferências), mas tivermos um saldo de balança comercial negativo, esse saldo necessita também de ser financiado, certo ?

    Não sei se estarei a pensar bem porque talvez esse saldo da BC já esteja incluido nas poupanças (ie, tratando-se de poupança liquida, o recurso ao crédito para equilibrar a BC pode já estar incluido nesse excedente de forma negativa)

    Eu sei que a BC tem evoluído no mesmo sentido (de eliminar o nosso défice externo), o que significa que o teu argumento é sempre válido, mas gostava de perceber melhor o papel da BC nesta análise

  12. Jorge Costa

    O saldo da balança comercial é um sub-saldo da balança de transacções correntes, que inclui, além desse balança – a comercial, ou de bens e serviços -, a balança de rendimentos, de transfeferências e de capital. É o conjunto destes saldos que determina as necessidades (ou capacidade) de financiamento de um país. A balança de bens e serviços tornou-se, com efeito, positiva. Uma outra forma de ver a mesma coisa, as necesssidades de financiamento, é pela diferença entre a poupança e o investimento nacionais, que foi o que fiz neste post. Uma terceira é somando o saldo financeiro (positvo ou negativo) dos sectors institucionais (famílias, empresas e Estado). É sempre a mesma coisa, vista de modos diferentes. So o saldo total, externo, é nulo, os défices de uns sectores institucionais são os excendentes de outros. Neste caso, o excedente das famílias é igual aos défices das empresas e do Estado.

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