Liberdade de educação

O Camilo Lourenço, neste vídeo, vem criticar as opções dos que decidem seguir “História”, ou outros cursos de baixa empregabilidade, alertando que estas pessoas não têm “utilidade para a economia”; deixa implícita a ideia que deveria haver um encaminhamento da formação para as áreas onde há maior necessidade do mercado. Erradíssimo. O problema da educação é mesmo este planeamento, este utilitarismo básico. O mercado deve organizar-se descentralizadamente. É esta a essência da mão invisível. As pessoas e os “jovens” devem escolher aquilo que sentem ser a sua vocação, lutar por ela, e não serem encaminhados para uma formação que os vai marcar para toda a vida. Liberdade, paixão, empreendedorismo, vontade de conquistar um espaço, sentido de responsabilidade individual, é isso que nos falta. Isso, e menos Estado a definir “vagas”. E um maior sentido de responsabilidade de cada um no momento em que escolhe aquilo que pretende para o seu futuro, sem que um planeador defina hoje o que deve ser a decisão de alguém que tem pela frente uma longa vida de realização pessoal. Hoje muitos “jovens” reclamam um emprego, porque foram “encaminhados” para uma dada formação, por uma sociedade que garante e promete, e depois não consegue cumprir. Estamos longe de perceber que nada é garantido, e que cabe a cada um de nós descobrir a nossa vocação, criar e lutar pelo nosso próprio espaço, numa sociedade mais livre. O Camilo Lourenço, jornalista corajoso e com as ideias no sítio, desta vez, baralhou-se.

22 pensamentos sobre “Liberdade de educação

  1. Miguel

    Vou fazer uma distinção entre o ensino público e o privado. No público a oferta deve ser ajustada às necessidades. Tenho alguns amigos precisamente em História, alguns com a licenciatura já, e digamos que as perspectivas de emprego são nulas. Outro exemplo óbvio alarmante é o Ensino. Com uma natalidade cada vez menor, a verdade é que há muito mais pessoas formadas para ensinar as crianças portuguesas do que as que são necessárias para essa profissão. Não nos podemos esquecer que no ensino público é o Estado que anda a gastar milhões com a educação de milhares de futuros desempregados. O Estado gasta milhões na formação de pessoas que depois não têm utilidade nenhuma para a sociedade, por nem sequer conseguirem trabalhar na sua área de formação. Isto pode parecer um pouco chocante de ler mas a verdade é que a crise também vem ensinar (a quem ainda não sabia) a gerir melhor os seus dinheiros e o Estado bem precisa de saber muito bem onde investir o dinheiro que é de todos nós e andar a formar pessoas que não vão ter utilidade nenhuma e vão acabar no desemprego é deitar o dinheiro de todos nós janela fora (peço desculpa se ofendo alguém mas, para quem não sabe, as propinas que pagamos não cobrem, nem pouco mais ou menos, o verdadeiro custo das licenciaturas, o resto vem dos impostos de todos os portugueses). E depois é o drama da mão-de-obra qualificada desempregada ou que acaba atrás de uma caixa de supermercado após anos de estudo. Claro que isto pode ser resolvido pelo ensino privado mas aí cada um sabe o que faz ao seu dinheiro, se achar que vale a pena gastar milhares de euros num curso sem qualquer saída profissional já é consigo. Mas no público o Estado tem obrigação de saber o que faz falta ao país, onde há demais e onde há de menos, e assim garantir que não está a investir nos jovens inutilmente e também que esses jovens terão relativamente boas perspectivas de empregabilidade nas suas áreas de formação (não estou a falar em pleno emprego, só garantir que não se continuam a formar “aos magotes” pessoas para onde já há milhares de desempregados, mais uma vez o exemplo mais alarmante: professores).

  2. CSJ

    Concordo, e por isso mesmo fui sempre contra o ” numerus clausus”. Mas esta posição pressupõe um ensino de rigor, que (vamos ser simpáticos!) há muito tempo não parece ser muito praticado cá no rectângulo.

  3. Anti-gatunagem

    Ainda assim a malta tem de perceber que tem de ser capaz de sobreviver por si e de criar o seu próprio emprego, estude (ou não estude) o que estudar e que o único papel do estado é chatear o menos possível (o que está longe de faze)r.
    Que cada um estude História ou o que for, mas que não conte com o estado para lhe arranjar um emprego (e muitos querem um emprego que não dê muito trabalho). É que o Camilo tem razão quando diz que muitos deles são inúteis. São-no precisamente porque estudaram História não por sonho, não por vocação, mas porque queriam ser doutores (sem o trabalho que lhes daria a matemática), porque achavam que isso lhes garantiria um emprego.

  4. manel z

    A essência da mão invisível não existe no ensino superior português porque não existe um mecanismo de preços adequado. Se todos os cursos custam o mesmo, o consumidor não consegue retirar daí qualquer tipo de informação, e deixa de haver mão invisível.

  5. AA

    se eu disser que não cabe ao Estado salvar empresas caducas na bancarrota, não estou a defender que o Estado gira a Economia
    aqui, não cabe ao Estado gerir a “Educação”.

  6. tina

    Eu acho que só uma minoria segue uma carreira porque sente paixão por ela. A grande maioria está indecisa e escolhe por escolher. Muitos escolhem graus universitários porque há um certo estigma associado ao ensino profissional. Era bom que isso acabasse de vez. Acho que o Ministério da Educação podia fazer muito mais por isso, ajudar a disseminar esses cursos. Em cada escola deveria haver uma lista na paredede todos os cursos existentes e dos respetivos estabelecimentos, para as crianças começarem a habituar-se à ideia e a falar entre elas.

  7. asa

    Rodrigo Adão da Fonseca quer a mesma coisa que o Camilo, não sei qual é a corrente ideológica do Camilo, mas imaginemos que era liberatário.

    Acha que os media portugueses o deixariam à solta?

    A ideia de liberdade num país onde se vive no comunismo ideológico, não é fácil de passar.

    A intervenção do Camilo, por muito má que seja pelo menos não deixa de ser verdade aos olhos de um liberatário, que é o estado erra, até na forma como forma os cidadãos.

  8. xyz

    na maior parte das vezes os jovens quando escolhem não têm preparação nem informação para o fazerem.
    A fé cega na mão inivisivel é um disparate. Porque não aplicar a mesma logica ao codigo da estrada? Tenho direito a metade da estrada, escolho o lado que quiser…
    sabem os jovens a taxa de emprego de cada curso? Sabem sequer no que consiste o curso?
    o mercado deve organizar-se… pois sim… como se a vida fosse eterna e uma escolha que um jovem faz com 18 anos não tivesse consequencias duradouras…
    a mão invisivel para funcionar bem supoem algo que não existe, que as pessoas saibam, estejam informadas ou tenham capacidade disso. Ah, sim, numa situação de plena concorrencia as empresas desajustadas fecham, abrem falencia, desaparecem e dão lugar a empresas mais eficazes… é isto que D. Rodrigo (aqui parece mesmo o personagem da novela de Manzoni) quer aplicar às pessoas, os jovens que escolherem mal, na prática a maior parte deles escolhe muito às cegas, lixam-se, dão lugar a outros…. que outros? Sei lá, talvez de outros países aonde o estado ou o sistema de ensino tenha ajudado os seus jovens a escolherem a sua formação. por exemplo, no RU o estado dá uma indicação do que quer através das propinas da faculdades, os cursos que têm baixa taxa de empregabilidade têm propinas muito maiores.

  9. Francisco

    Sendo evidente que o Estado não deve promover nenhum curso ou Universidade, tem no entanto a obrigação de providenciar, de forma clara, sucinta e objectiva, os dados de empregabilidade passada e de procura actual por função, por forma a que quem escolhe possa ter em consideração estes factores. Não me parece que tenha sido feito o suficiente nesta matéria.

  10. Francisco Colaço

    Francisco,

    Não se consegue pensar em empregabilidade a cinco anos num mundo destes, com tantas mudanças.

    Nos Estados Unidos, vê-se muito boa gente licenciada em História ou em Filosofia a fazer programação ou como comerciais em editoras. Lá, as pessoas não se balizam pelo seu curso. Em Portugal, terra dos doutores, um licenciado em História acha-se no direito (no direito!) de ter um emprego «na área», e pago pelo Estado.

    Sou engenheiro mecânico. Já geri oficinas, dei formação e consultoria, fiz programação de computadores, realizei projeto mecânico, eletromecânico e robótico, programei microcontroladores, projectei placas de circuito impresso, programei robôs e autómatos industriais, geri a hospitalidade em estaleiros de contrução civil, geri logística e compras, fiz websites, dei aulas em universidades e escrevi livros de aventuras; e outras coisas que aqui nem nomeio. Pelos critérios correntes sou um anátema.

    O problema, Francisco, não está nos cursos que são oferecidos, mas naqueles que os procuram.

    Lembro ainda que muitos seguiram cursos de História, de Filosofia ou de Línguas para se livrar da matemática no 10.º ano de escolaridade. Perante os que aceitam a derrota pessoal ab initio, e escolhem para se livrar de alguma coisa, não se pode esperar muito quando saem de um curso. São conformistas.

  11. Muito bem Rodrigo. Concordo integralmente. No fundo, o plano varia, mas a crença no planeamento centralizado de tipo soviético é omnipresente.

    Acrescentaria apenas que no caso do ensino superior um dos factores que agrava substancialmente os problemas é a cobrança de uma propina muito inferior ao custo real.

  12. José Couto Nogueira

    Acho espantoso que ninguém tenha reparado nos piores aspectos da proposta do Camilo. Primeiro, o Estado não tem, evidentemente, o direito de escolher a profissão de um cidadão. Segundo, aconselhar o dito cidadão a ir para engenharia, que é o que está a dar, em vez de arqueologia, que não está a dar nada, é o equivalente moral a dizer a uma filha: “vai para puta que precisas de menos escolaridade e ganhas muito mais e o mercado tem mais procura do que oferta”. Terceiro, a pessoa tem sempre vocação para alguma coisa, mais do que para outras. Se não sabe, pode fazer testes que a ajudam a saber. A ideia de escolher um curso de acordo com os mercados é tão sinistra como o estado escolher de acordo com uma economia controlada a 100%.

  13. Francisco Colaço

    José Couto Nogueira,

    As pessoas devem escolher de acordo com o bom senso. Posso estudar para ser carpinteiro de carroças, ou almocreve ou contrutor de balistas. Se o fizer, verei que não há nestes dias muita necessidade de técnicos para reparar carroças ou carpinteiros para contruir balistas.

    A decisão é, como bem diz, individual. A escolha é, felizmente, livre. As consequências nunca são livres.

  14. AA

    « deixa implícita a ideia que deveria haver um encaminhamento da formação para as áreas onde há maior necessidade do mercado »
    esse “planeamento” existe sempre, principalmente ao nível das famílias – não em função das necessidades do “mercado”, mas das pessoas
    o facto de nos opormos a que o Estado planeie a nossa vida, não quer dizer que não o façamos nós, descentralizadamente.

  15. AA

    «A intervenção do Camilo, por muito má que seja pelo menos não deixa de ser verdade aos olhos de um liberatário, que é o estado erra, até na forma como forma os cidadãos. »
    outro aspecto importante é que opondo nós ao “planeamento central”, o facto de apontarmos erros evidentes do planeamento central não quer dizer que apoiemos nós um planeamento central alternativo – ou pior (isso do Estado “escolher vocações”)
    [nb CL não é “libertário” nem nada que o pareça – mas não é dos piores]

  16. Pingback: E para que serve um curso de Economia? | O Insurgente

  17. politologo

    Ana Matos Pires

    Estas histórias de vocações , psicotecnicos , etc… são tretas que a realidade desmente !.Sociedade de Consumo !!! L’ Homme c’est inconnu .!… Tudo é possivel ? Um sapateiro de vocação virar bom médico como o contrário . Só que este contrario a Sociedade não o permite …
    No pressuposto de querer viver em sociedade , o individual tem que sofrer limitações ? Terei o direito individual de fumar se este direito ocasiona custos sociais adicionais.aos restantes contribuintes .
    Não se justifica um planeamento com ganhos de eficiência em beneficio do conjunto ?
    Estará correcto promover licenciados em história sentados em caixas de supermercados com falta de medicos e enfermeiros ?
    Passados mais de 50 anos não foi suficiente a alteração de Ministerio da Instrução para Ministerio da Educação !!! E um País com a Formação Profissional (honesta e adequada…) de rastos não tem futuro …
    E ideologias ? Liberdade sem pão e sem saude ???
    (para não termos o absurdo de quanto mais liberdade nos dão menos livres nos sentimos…)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.