Bruxaria. Entretanto o futuro chegou

De acordo com pessoas de imensa fé, Portugal deve reestruturar a dívida para poder continuar a fazer exactamente o que fez durante décadas, até chegar ao ponto em que deixou de ser possível continuar a fazer o mesmo. Porque as taxas de juros, como costuma suceder nos países atrasados mercados emergentes mais mal geridos, saltaram para níveis que tornaram a dívida insustentável? Deixou de ser possível rolá-la ou contrair nova dívida, nas condições históricas extremamente favoráveis em que ela se empilhou, depois de um salto mortal nas taxas de juro? Nada disso. Nunca a dívida pública portuguesa foi tão, tão barata. Sucede é que entra assim apenas a uma espécie de preço de saldo nas quantidades que quem empresta decide. Nós não decidimos. E entra mesmo assim, oh desvario, muito. (É possível que desate a encarecer com a deflação em que parece que entrámos, mas esse é outro assunto; não para agora). Com o resgate, esse salto mortal, a morte súbita, não suecedeu.

Dívida e taxa de juro

Quando falamos de «dívida», sendo ela um rácio, um quociente, uma conta de dividir, tendo por denominador o valor do PIB, estamos sempre também a falar de crescimento.

A partir dos primeiros anos de escolaridade, não é difícil realizar que:

– Sendo a dívida uma conta de dividir;

– Em que no numerador estão os compromissos acumulados do Estado (contas que ficaram por saldar);

– No denominador a economia, a produção, a fonte de rendimentos a partir dos quais se espera(va) obter receitas para pagar aqueles compromissos (medida pelo rendimento num determinado ano, o célebre PIB); e se

– Nada disso se vier a realizar no futuro, ou seja, os compromissos aumentarem constantemente, e aumentarem mais do que a fonte de rendimentos que os deveria saldar;

– E, facto extremamente desagradável, entretanto o futuro tiver chegado → a dívida não parou de aumentar.

Ah e tal, garantem certas pessoas de imensa e esquisita fé, eh pá, se eu aumentar o numerador, acumular mais compromissos e mais compromissos e mais compromissos, com investimento público, transferências das vossas poupanças, ou mesmo das poupanças das nossas famílias, para as… nossas famílias, é uma questão de mudar o dinheiro de bolso, do vosso para os nossos, ou dos nossos para os nossos, isto, a «economia», cresce. (Plim! Atenção, federalistas! O federalismo, tal como se propõe, é apenas o estádio supremo do socialismo, mas também isto fica para outra ocasião).

Mas eh pá, esse é o barrete que andas a contar há não sei quantos anos, e essa «economia» está cada vez mais pequena, depois de ter deixado de crescer o suficiente há tantos anos quantos os do barrete. Parece que essa de mudar dinheiro de uns bolsos para os outros a única coisa que fez e continua a fazer é aumentar a dívida pública. A partir de agora mudem lá o dinheiro de bolsos entre vocês, mas vão ter que começar a deixar de contar connosco  –  é natural que respondam os interlocutores, que as pessoas de imensa, esquisita e inabalável fé gostariam de converter.

Garanto-vos pá, replicam os galambas, é ciência. Não deu no passado, mas agora vai dar.

Felizmente para todos, as pessoas de imensa, equisita e inabalável fé estão hoje a falar para as paredes. Umas com as outras, a fazer muito barulho, mas sem efeito.

15 pensamentos sobre “Bruxaria. Entretanto o futuro chegou

  1. fernandojmferreira

    A “logica” keynesianista dos Krugmans, Bernankes e Galambas do mundo:

    O Krugman, o Bernanke e o Galamba vao almocar ao Pizza Hut e pedem uma pizza 4 estacoes.

    Pergunta o rapaz do balcao a estas 3 mentes iluminadas: “Meus senhores, querem a pizza partida em 3, em 6 ou em 9 fatias?”

    Responde o Galamba, em nome de todos: “Pode ser em 9 fatias. E’ que hoje estamos MESMO cheios de fome!”

  2. JP

    Se viver os anos suficientes, terei oportunidade de apreciar o “trabalho” deste rapazito como ministro das finanças do PS.
    Sim, porque estamos perante um colosso intelectual, sólido, sabido e experiente, que o PS não deixará escapar na primeira oportunidade, para mais uma experiência num dos seus laboratórios de ideias mirabolantes.
    O resultado, esse é garantido e nem ele sabe do que é capaz.

  3. Syme

    Fernando Ferreira,

    A burla do keynesianismo é bem mais grave do que aquilo que sugere: não se trata de uma simples “confusão” entre crescimento e redistribuição, eventualmente neutral relativamente à totalidade do produto de uma economia –o que creio ser quase impossível, porque os efeitos de incentivos provocados por uma redistribuição coerciva do rendimento tendem a afectar negativamente a trajectória dinâmica do rendimento.

    No cerne da teoria keynesiana está uma outra ideia, que não é capturada pela sua história: a ideia peregrina segundo a qual um acréscimo de despesa provocará, quando todos os ajustamentos forem efectuados, um acréscimo de rendimento. Foi esta ideia absurda que os burlões do endividamento invocaram, e continuam a invocar, para pagar parcialmente através de endividamento crescente do Estado o aumento brutal da despesa pública primária que decretaram politicamente ao longo das últimas duas décadas em Portugal.

    Assim, para traduzir o delírio keynesiano, a sua “personagem” teria de anunciar ao dono do restaurante algo do género: “como a despesa que aqui faremos hoje reverterá em rendimento acrescido para a economia, é inteiramente razoável que nos adiante uma piza adicional por conta desse rendimento. Por agora, o custo dessa piza constitui uma dívida (dos comensais keynesianos), mas verá que com o acréscimo de rendimento futuro será possível pagar essa piza e ainda outros bens e serviços. Aliás, a nossa confiança no multiplicador keynesiano é tão grande que deixaremos desde hoje de pagar os consumos efectuados no sseu restaurante. Confie em nós”.

    Só nos poderemos salvar dos consequências desastrosas da demência keynesiana se os portugueses fizerem aos burlões políticos que continuam a traficar este ranço intelectual o mesmo que o dono do restaurante faria depois de ouvir o “discurso” anterior: pô-los imediatamente na rua e impedir institucionalmente que se possa mais alguma vez realizar despesa pública sem que essa despesa esteja integralmente suportada por meios fiscais de pagamento –e tenha sido politicamente autorizada explicitando minuciosamente não só a natureza da despesa mas também os respectivos encargos fiscais e a sua incidência económica.

  4. fernandojmferreira

    Caro amigo Syme,

    Sem duvida concordo com o seu raciocinio. O meu amigo explicou o cerne da teoria keynesiana de um modo muito lucido e claro e o seu complemento a ilustracao da pizza e’ correcto, na minha opiniao. O meu amigo, sem duvida, reconhece o perigo e a ilusao que o keynesianismo representa.

    So parece-me falhar redondamente no ultimo paragrafo, se me permite a sinceridade. Concordo com o por os politicos imediatamente na rua mas parece-me que o meu amigo os quer, simplesmente, substituir por outros politicos e viver na ilusao de que, consegue restringir a sua accao destruidora com “impedimentos institucionais”. As constituicoes sao escritas por politicos e influenciadas por grupos de pressao que querem tirar vantagens para si. As constituicoes podem sempre alterar-se, em nome do “superior interesse nacional”.

    A sua ideia de que despesa publica so aquela que “tenha sido politicamente autorizada explicitando minuciosamente não só a natureza da despesa mas também os respectivos encargos fiscais e a sua incidência económica” e’ uma completa ilusao, de que muitos ainda alimentam. Os politicos gastam dinheiro que nao lhes pertence, em projectos que mais lhes agradam e que lhes garantam mais votos. NUNCA poderao adivinhar quais os encargos fiscais envolvidos nem tampouco a sua incidencia economica.

    Eu penso que os grandes problemas do mundo moderno sao dois: A ilusao do keynesianismo (dessa ilusao o meu amigo ja se livrou) e a ideia de que os politicos e os seus governos (o colectivismo) terao de sempre existir. Se mudarmos de politicos e os restringirmos devidamente, tudo ficara resolvido. Dessa ilusao o meu amigo ainda nao se livrou. Qualquer forma de colectivismo coercivo, o que inclui a democracia, sao destrutivos e contra a liberdade.

    Houve alguem que disse mais ou menos isto: “Se o sistema de organizacao social que defendes depende do tipo de pessoas que estao no poder, entao esse e’ um MAU sistema”. Eu acho que quem disse isto tem razao.

  5. Syme

    Fernando Ferreira,

    Para não me alongar na réplica, observo apenas que está a fazer extrapolações incorrectas a partir do tal último parágrafo e que a responsabilidade disso é minha, porque não descrevi minimamente as características de uma outra arquitectura do Estado, mais favorável a alguma responsabilização política (note o “alguma”). Se não o fiz é porque entendo que o exercício é inútil, tanto no contexto restrito desta caixa de comentários como no contexto mais amplo da situação política portuguesa.

  6. dervich

    Ao contrário do que se poderia supôr, o gráfico mostra que isto começou a descambar só após os governos de Guterres e piorou mesmo de vez só após a crise internacional de 2008…

  7. fernandojmferreira

    Caro Syme,
    Peco desculpa pelas extrapolacoes incorrectas.
    No entanto, continuo a nao acreditar em “responsabilizacao politica”, mesmo que seja so alguma.
    So existe um tipo de responsabilizacao, na minha perspectiva: E’ a responsabilizacao individual. Um individuo toma decisoes e faz opcoes cujas consequencias, positivas ou negativas, sao gozadas ou pagas por esse individuo. Responsabilizacao politica e’ sempre no contexto do colectivo e, nesse contexto, os beneficios sao sempre colhidos por alguns a custa dos restantes e isso e’ francamente mau, por muitas voltas que se lhe de.

  8. Pisca

    Que raio de coisa, com tanto economista brilhante, Insurgentes e Cavaco incluídos, com tanto Financeiro avisado e capaz de prever o futuro a mais de 100 anos, coisa que a Maya só arrisca para uma semana e isto cada vez vai pior ?

    Não de podia mudar o País ou a População inteira ? Nalguns casos parece que se esforçam

  9. Miguel Noronha

    Os keynesiasnos (como Cavaco Silva e outros) tornaram-se peritos nas artes da previsão e da manipulação da variáveis económicas e na crença dos multiplicadores da despesa pública. Tem dado resultado.

  10. António Joaquim

    Não entendo o gráfico. Está a querer dizer que a divida actual se deve aos altos juros das dividas de Cavaco e que esses juros se referiam ao dinheiro vindo da CEE?

  11. Nuno

    Não. Está a dizer que à medida que a taxa de juro foi baixando devido à entrada no Euro o incentivo ao endividamento foi aumentando

  12. lucklucky

    “e piorou mesmo de vez só após a crise internacional de 2008…”

    Crise internacional?! até parece que nós continuaríamos a construir autoestradas, pontes e TGV, caso os EUA não tivessem tido nenhum problema.

    Até 2008 como se aumentou impostos mas o Estado foi crescendo ao ritmo habitual nenhum jornalista falou de “Austeridade” ou de “Desigualdade nos Sacrifícios”…
    Só quando chegou ao Estado semelhantes palavras apareceram…

  13. Pingback: Brilhante | O Insurgente

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