O sono de Passos Coelho

O meu artigo de hoje no Diário Económico:
Tema: O elevado desemprego não tira o sono a Pedro Passos Coelho. Comente.

1921 Vs 1929

Em 1920-21 houve uma crise séria na economia americana. Em resposta à crise, o governo cortou o orçamento para metade, diminuiu o IRS para todos os escalões e baixou a dívida (não o défice, sublinhe-se) em um terço em apenas dois anos. A Reserva Federal, recentemente criada, não actuou no mercado monetário.

Em 1929 houve outra crise. Desta vez Hoover começou uma política de “estímulo” – quem não conhece a Hoover Dam? – que depois Roosevelt expandiu consideravelmente em 1932. Ao ponto do seu secretário do Tesouro anos mais tarde ter dito: “Nós experimentamos gastar dinheiro. Nós estamos a gastar mais do que alguma vez gastamos e não resulta.”

Provavelmente o leitor conhece a depressão de 1929. Mas não a de 1920/21. Porque entre Novembro de 1919 e Agosto de 1921, o Dow Jones caiu para metade, o desemprego disparou para o dobro, os preços caíram 18% e o PIB contraiu 6,9%, mas ao fim de 2 anos a Economia estava em recuperação e a entrar nos “loucos anos 20″, tendo atingido os níveis pré-recessão em Outubro de 1922.

Contrariamente ao método científico, muitos hoje escolhem a sua ideologia e só depois escolhem, cuidadosamente, os factos que melhor se adaptam à narrativa que escolheram previamente. Não é sério. E mais grave ainda, escolhem sempre o caminho mais fácil: dizer o que as pessoas querem ouvir e não o que se sabe baseado na história. Oferecem um escape fácil para a frustração, a inveja e o ressentimento. Pedem a solução “fácil” em vez de encararem o problema. Preferem um remendo de curto prazo a uma solução de longo prazo.

Mas é tarde para isso: depois de décadas a aumentar o endividamento, chegamos ao ponto em que precisamos mesmo de curar esse mal. É preciso perseverança para administrar o remédio e ajudar a suportar a febre. O médico que o faz, pode dormir de consciência tranquila. O curandeiro que sugere umas mezinhas adocicadas e que claramente não percebe o problema, é que deve dormir mal. Olhando para Passos e Seguro rapidamente se percebe quem é quem.

Leituras adicionais: Tiago Antunes sobre o mesmo temaProf. José Manuel Moreira sobre a Res Pública.

14 pensamentos sobre “O sono de Passos Coelho

  1. Luís Lavoura

    Eu não conheço os factos, mas adivinho que a causa da crise de 1920 terá sido, essencialmente, a gripe espanhola, que dizimou boa parte da população.
    Uma vez passada essa epidemia, com naturalidade a economia recuperou, até devido à maior disponibilidade de postos de trabalho causada pela morte de muitos trabalhadores.

  2. PedroS

    “Uma vez passada essa epidemia, com naturalidade a economia recuperou, até devido à maior disponibilidade de postos de trabalho causada pela morte de muitos trabalhadores.”

    Se isso fosse verdade, não teria aumentado o desemprego durante a gripe: bem pelo contrário, a morte de trabalhadores teria criado oportunidades adicionais para admitir desempregados.

  3. JS

    Entretanto é esta a Europa que “eles” paulatinamente estão a tentar edificar!.
    Um alemão, parlamentar europeu e Presidente do Parlamento Europeu, já esclareceu os italianos como eles, italianos, devem votar nas eleições internas italianas … da ex-Italia!.
    “The German president of the European Parliament, once compared to a Nazi concentration camp guard by former Italian prime minister Silvio Berlusconi, warned Italians on Thursday not to back the scandal-ridden media tycoon at the ballot box.”.

    O sono de Passos Coelho?. Desde a armadilhada, e nada democrática, entrada de Portugal naquela mítica “Europa”, desde então -para honra e proveito de muitos “Mários Soares”, e dos seus patrocinadores alemães e franceses- o fosso entre o aprazível sonho dos (poucos) neonatos “Europeus”, e o tenebroso pesadelo dos (muitos) “nem por isso”, é óbvio.
    Serão mesmo os “Passos Coelhos” os maus da fita ou apenas uns “one eyed man on a blind country” que, inconscientemente, conduzem para o desastre o seu ex-País?.
    De um lado as bem hierarquiazadas, mas há muito inócuas, elites políticas “europeias”.
    Do outro os recém apodados “emigrantes europeus” mesmo que no seu próprio … “ex-País”!.
    Mas alguém votou neles.

  4. Acho piada este post ter uma publicidade à Fundação Clinton, publicitando a possibilidade de quem se inscrever receber um mail do antigo presidente norte-americano, curiosamente um democrata que conseguiu equilibrar os défices brutais deixados pelos seus dois antecessores republicanos (entre eles o adorado e friedmaniano Reagan), abandonando a presidência americana com um superavit e um recorde de emprego, superavit esse rapidamente desbaratado pelo republicano que se seguiu. A ironia é tramada…

  5. Comunista

    Os charlatões sempre se fizeram acompanhar de assistentes que se passavam por provas vivas da competência do charlatão. O Passos e o Gaspar são charlatões, são médicos da treta e o Ricardo é um de seus relações públicas:

    “A dívida pública portuguesa, no final de 2012, atingiu os 203,4 mil milhões, correspondentes a 122,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Os dados foram revelados pelo Banco de Portugal e mostram que este valor ficou acima das expectativas da troika incluídas na sexta avaliação ao programa de ajustamento financeiro.”

    http://www.ionline.pt/outros/divida-publica-ultrapassa-estimativas-da-troika-atinge-1225-pib-2012

  6. Sim, claro. Só eu e o Carlos Abreu Amorim…

    Caro Comunista,
    Eu sou SEMPRE a favor de menos, estado, menos dívida estatal, menos funcionários públicos.
    Eu CRITICO o Passos Coelho é por não cumprir o que o ouvi prometer na campanha. Por exemplo esta última de pedir mais tempo, quando criticou (e bem) o Sócrates por fazê-lo!
    E naturalmente acho fraqueza dele o facto de ter deixado que a dívida pública tenha ultrapassado o acordado.
    Chama-se consistência (minha, não do Passos). Sou uma pessoa bem desinteressante, não é? Tenho sempre a mesma opinião, seja quem for a governar…

    A diferença é que o Passos, mal por mal, sempre cumpre mais que o Sócrates e o que o Seguro me parece que cumpriria no lugar dele.

  7. Comunista

    “Eu sou SEMPRE a favor de menos, estado, menos dívida estatal, menos funcionários públicos.”

    Isso diz você. Mas não é nada. Se essas polítcas que você defende resultarem em desordem pública você é a favor de mais polícias, mais guardas prisionais, mais serviços secretos de vigilância pública.

  8. Ricardo G. Francisco

    Um comunista a dizer que o outro é que quer mais “polícias, mais guardas prisionais, mais serviços secretos de vigilância pública”. Deve usar o nome “comunista” por piada, por ter asco a regimes comunistas. Só assim se entende.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.