No Fio da Navalha

 

O meu artigo de hoje para o jornal i.

Bento XVI

Com a resignação de Bento XVI, a escolha de um novo Papa está no centro das atenções. O mediatismo torna a eleição de líderes algo espectacular, mas sem conteúdo. Dos muitos que apostam quem será o novo Papa, poucos perderão um minuto que seja a tentar saber de onde vem e ao que vai. Se vivemos numa sociedade que se define como moderna e indiferente à religião, pouco mais lhe resta que o suspense de uma escolha feita à porta fechada.

Jacques Drillon referia há dias na “Nouvel Observateur”, e também sobre o Papa, que a modernidade é uma questão de perspectiva. O que é moderno hoje será passado amanhã. Esta análise leva-nos a concluir que a democracia moderna não deveria ostracizar a religião. Mais: não sobrevive sem ela. Por muito que olhemos para os crimes praticados em nome de Deus, foi por sua inspiração que a liberdade se ergueu. Não houve, nem há, liberdade sem tradição religiosa. Foi o que Max Weber percebeu descrevendo-nos a força libertadora da Europa protestante, que levou à expansão comercial, à melhoria de vida e à troca de ideias.

A liberdade que nos dizem existir sem ter por base algo que nos intrigue ao ponto de não compreendermos, é moderna e, como moderna que é, estará ultrapassada amanhã. Bento XVI foi um Papa que quis explicar a fé, o perigo do relativismo e a importância da religião como cerne da vida humana. Algo difícil, mas necessário, e que não é mais que um dos dons que Deus nos deu: o uso da razão para sermos livres.

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4 thoughts on “No Fio da Navalha

  1. migspalexpl

    “a democracia moderna não sobrevive sem religião”; “foi por inspiração de Deus que a liberdade se ergueu”; “não há liberdade sem tradição religiosa”.

    são afirmações fortes. devemos então esperar uma correlação entre a fé religiosa e liberdade/qualidade democrática das populações. O norte da europa, com as suas democracias funcionais, é certamente um estandarte da fé.

    http://en.wikipedia.org/wiki/File:Europe_belief_in_god.svg

    err, espera aí..

  2. João

    Há aí umas conclusões muito forçadas AA Amaral!

    Se a inspiração para a liberdade foi a religião, no sentido de religião organizada, então não concordo consigo. Se for no sentido de uma perspectiva deísta, então poderei estar mais inclinado a conceder. Parte dos founding fathers , responsáveis pela mais sublime constituição produzida pelo intelecto humano, eram deístas.

    Depois há-que entender o que quer dizer por democracia moderna! Democracia no sentindo de Estado providência? Ou meramente a possibilidade de escolher os nossos representantes através do voto? Se for a primeira, essa democracia é cada vez mais antitética com a liberdade. Se for a segunda, não me parece que o método de escolha dos nossos governantes esteja dependente de qualquer consideração religiosa. Alias, democracia no sentido actual, que é basicamente uma ditadura da maioria ( tipo dois lobos e uma ovelha a decidir o que vai ser para o jantar) tem pouco a ver com a liberdade. O nível de taxação a que somos sujeitos faz de nós uns autênticos servos da gleba da Idade Média com a diferença que agora tomamos mais banhinho e vestimo-nos um pouco melhor.

    As origens do libertarianismo estendem-se até à renascença com os académicos humanistas da altura. Galileu e Erasmus foram dos principais humanistas que começaram com o tipo de pensamento ligado aos direitos humanos. Como sabe, Galileu foi julgado por heresia e teve que se retractar das suas ideias científicas que desafiavam a doutrina da igreja. Este é um evento central no desenvolvimento das ideias de direitos humanos. Erasmus no seu texto ” De Libero Arbitrio Diatribe Sive Collatio” desafia Martin Luther no que respeita à sua visão limitada no que respeitava à ideia de “free will”.

    Mais ainda acrescento, que foi com a reforma e o iluminismo que tornou a haver mais uma expansão e desenvolvimento destes tópicos. Desde Thomas Hobbes, que no seu livro Leviathan contribui de uma forma enorme para o pensamento liberal e cujo pensamento teve grandes influencias dos epicureanos, até John Locke que desenvolveu a ideia lançada por Hobbes de contrato social. Locke acreditava que todos os homens tinham o direito natural (perspectiva deísta, como disse no inicio) à vida, liberdade e propriedade. Troque propriedade por “pursuit of happiness” e pasme-se temos o preambulo da constituição dos Estados Unidos da America.

    Concluindo, se me fala em religião como difusora de uma ideia de “direitos naturais” , mais uma vez numa perspectiva deísta, aceito a ligação que faz entre liberdade e religião. Religião como instituições humanas, sejam elas da corrente protestante, católica-romana ou outra qualquer, discordo.

  3. lucklucky

    Discordo. Para começar a pergunta que depois temos de fazer é: que religião? Não são todas iguais e não têm todas a mesma opinião sobre o que é a pessoa e o poder que os outros devem ter sobre ela.

  4. O colectivismo coercivo, na sua versao mais comum (democracia) e’ a nova “religiao” dos tempos modernos.
    Como todas as religioes, a democracia promete “dar” aos crentes tudo o que estes pedirem, desde que continuem a votar e a obedecer aos politicos, o “clero” da democracia. As massas obedecem e ha cada vez mais “crentes”…

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