Excerto de “Dias Contados” de Alberto Gomçalves (Diário de Notícias)
Durante a intervenção do primeiro-ministro num debate parlamentar, uma ou duas dúzias de candidatos frustrados ao Ídolos irromperam numa interpretação de Grândola, Vila Morena. Após serem escoltados para fora do edifício (e obtido o título oficioso de mártires), os ociosos explicaram aos repórteres excitados com o acontecimento: a cantoria provou que o povo é quem mais ordena. Curioso. Na minha ingenuidade, pensava que o povo não consiste num punhado de criaturas autodesignadas para falar em seu nome, mas nos milhões que se expressam nas urnas e que por acaso entregaram o poder ao referido primeiro-ministro.
O que sem dúvida ficou provado foi a valentia do dr. Passos Coelho, consagrada no momento em que, ao ser interrompido, considerou a interrupção um acto de, cito incrédulo, “bom gosto”. Bom gosto na escolha da cantiga, que até o próprio José Afonso achava esteticamente fraquinha? Bom gosto na homenagem ao artista que celebrizou a cantiga, um defensor da luta armada e da generalidade dos regimes mais sanguinários do século XX? Bom gosto na evocação do 25 de Abril, mesmo que os improvisados cançonetistas da AR desejassem e desejem o oposto daquilo que, a bem ou a mal, o golpe de Estado nos legou de melhor, leia-se a liberdade?
É difícil escolher. É fácil notar que a vontade de parecer tolerante levou o dr. Passos Coelho a quase congratular gente sem tolerância alguma e, no fundo, a abdicar perante referências de extremistas que, aqui, passam por consensuais. Digam o que disserem, não é normal que uma democracia faça permanentes vénias aos seus maiores inimigos. Porém, é normal que uma democracia assim seja a que temos.
O Primeiro-Ministro não tinha outra alternativa senão fingir uma tolerância que aqueles cretinos não mereciam. Afinal, o que se pode dizer dos que, tendo sido escoltados pela polícia para fora da Assembleia da República, dizem que “a cantoria provou que o povo é quem mais ordena” e são tão estúpidos que julgam que “o povo” que “mais ordena” são eles e não quem escolhe o Governo nas urnas (povo esse que, note-se, nunca deu a mínima hipótese a quem esses cretinos apoiam).
Fico sempre estupefacto quando um comentador político protesta intolerantemente contra a falta de tolerância das pessoas. E mais estupefacto fico quando percebo que um comentador político fala de democracia como o espaço de liberdade que permite vozes dissonantes mas chama, a essas mesmas vozes dissonantes, no parágrafo seguinte, de “ociosos”.