Um pedinte à deriva num universo paralelo (a quadratura do círculo)

Sinceramenrte, não acho que o Pacheco Pereira seja, vá, idiota chapado. Sem ironias. A questão não é essa. É mesmo da situação inédita, insólita, em que vivemos e da forma como ela alterou tudo, todos os dados de todas as questões (é provável que o cérebro de Pacheco Pereira acuse lesões, tal foi o choque e, assim, não é, porque nunca o foi, um idiota consumado; está simplesmente combalido). Queixa-se da falta de política no documento do PS. O que seria a política, segundo Pacheco Pereira? Seria o PS dizer que descontinuaria esta, mais aquela, ou aqueloutra, opção fundamental do governo de Portugal vertida nos acordos com os credores – por exemplo:  garantir ao mundo que, em sendo governo, anularia quaisquer «cortes sociais» que este governo venha a fazer, no âmbito dos 4.000 milhões que tem de cortar. Segundo Pacheco Pereira, se o PS tivesse guts para o fazer, a troika metia o rabo entre as pernas e, cito, «pararia». Este pedinte ainda não se convenceu que pedintes não escolhem. E de pedintes destes está o país comentador a abarrotar. Mas é mais. Sob influência da troika ou sem ela, qualquer governo não tem como não os fazer. De outra forma não é possível inverter a trajectória explosiva da dívida (não estou a dizer que com eles, e só por eles, a trajectória explosiva da dívida é invertida; estou simplesmente a dizer que, sem eles não é possível, e estou a dizer que, sem eles, agora, não é possível; não amanhã, ou depois, ou daqui a cinco anos, ou quando calhar). António Costa, mil vezes mais político do que Pacheco Pereira sonha na sua arrogância patética, passou ao lado e não lhe deu réplica. O que há de instinto político sólido em António Costa nem sequer terá equacionado a ideia de lhe responder ao desvario. Pacheco vai continuar a perorar para o resto dos seus dias como comentador, e esperemos que algum dia recupere o juízo. Mas António Costa não é exactamente tótó e conserva um mínimo de intimação da realidade. Antes assim. Cada macaco no seu galho.

15 pensamentos sobre “Um pedinte à deriva num universo paralelo (a quadratura do círculo)

  1. lucklucky

    Pacheco Pereira é uma pessoa inteligente… no seu bunker. Um bom exemplo daqueles que ficaram presos na lógica do sistema. Nenhuma informação nova entra ali.
    Ainda não compreendeu que coisas que não podem continuar para sempre não continuam.
    A questão talvez também tenha que ver com as suas origens políticas: para a extrema esquerda tudo é política, julgam que política tudo pode mudar e ignorar tudo o que está fora da política, mesmo a aritmética.

  2. JP Ribeiro

    Bom post porque nos lembra que Pacheco Pereira é como todos aqueles que julgam que os problemas económicos se resolvem com mais blablabla. Em Portugal são milhões a pensar assim, daí o seu sucesso.
    .
    Lamento não termos tido há um ano e pico trás a coragem de deixar isto rebentar, não haver dinheiro para pagar salários no fim desse mês nem nos seguintes, e talvez entretanto pudessemos ter aberto os olhos. Andamos de mão estendida e nem nos damos conta disso. Poer exemplo, o blogue mádespesapublica tem hoje um post sobre a NAV (empresa publica de navegação aerea de Portugal) mais uma empresa publica que não se sabe o que faz, que é totalmente inutil e que “empregava” 972 pessoas em 2011 (sim, reduziu três elementos nesse ano). E é assim, continua a ser assim por todo o lado, e apesar dos sorrisos de felicidade do Relvas e seus compinchas, vai infelizmente continuar a ser assim com estes ou com outros. O povo aguenta, isso já percebemos todos, não era preciso nenhum banqueiro vir lembra-lo.

  3. Miguel Noronha

    Ou regressou à extrema-esquerda ou a capacidade de raciocínio de JPP está claramente toldada.
    Aquela tipo de argumentos é indistinguível de um qualquer comunista (ou cripto-comunista). Até António Costa parece aperceber-se disso

  4. tina

    “Pacheco vai continuar a perorar para o resto dos seus dias como comentador, e esperemos que algum dia recupere o juízo”

    Não vai nunca. Ele sofre da síndrome do político ressabiado e esta gente volta à direita e à esquerda conforme der mais jeito na altura, não tem que ver com juízo. Por exemplo, Pacheco Pereira foi daqueles que primeiro alertou para a insustentabilidade do modelo social europeu. Como pode ele agora ser contra a racionalização de custos? Ou seja, reconhece que é insustentável, mas defende que deve continuar assim? Pode ser uma pessoa inteligente mas sucumbiu ao seu próprio ego e deixou-se envolver em jogos de poder. Outros políticos que sofrem do mesmo síndrome são Mário Soares e Freitas do Amaral.

  5. tina

    “A universalidade e gratuitidade deste tipo de serviços – saúde, educação e segurança social -, é exactamente aquilo que é insustentável. É a ideia do modelo social europeu. É completamente insustentável”. Pacheco Pereira, balanço de 2007 para o Expresso.

  6. tina

    Se virmos bem, são táticas terroristas, que não ajudariam ninguém. Os terroristas são assim, o profundo ressabiamento leva-os à destruição.

  7. JP Ribeiro

    Nunes, a NAV gere o trafego aereo, a Prevenção Rodoviaria gere a prevenção rodoviaria, o Instituto do sangue gere o sangue, etc e tal. Isso não é argumento, é tautologia.
    Mas como é evidente o assunto trata-se assim: o ministro tal ameaça privatizar a NAV (ou outra empresa do Estado), é convidado para almoçar, sai do almoço com n argumentos para não privatizar a NAV, vai para a imprensa dizer que afinal fica tudo para o ano, e assim sucessivamente, tudo feliz tudo contente. E como a NAV há mil, que digo eu 10 mil.

  8. Comunista

    É mais interessante sacar o que o autor do post realmente está a dizer. Isto pode-se fazer em 2 tempos:

    1º: para J Costa basicamente, o governo não consegue fazer nada pela recuperação do país e a oposição, por seu turno, também não sabe o que fazer.

    2º: logo, é melhor deixar o governo continuar a fazer o que está a fazer – apesar de não conseguir fazer nada pela recuperação do país.

  9. Jorge Costa

    Nada, Comunista, é um exagero. Tudo é que não pode. Os problemas do país são passivos de décadas. E estão a pagar-se dramaticamente.

  10. Comunista

    J. Costa, o endividamento é o motor do capitalismo. A diferença marxista entre capitalista e proletário tornou-se na diferença entre credor e devedor; como antes o capitalismo presumia a diferença entre capital e proletariado agora presume a diferença entre credor e devedor, o que é dizer que vai haver sempre uma maioria de devedores face a uma minoria de credores. O acesso de Portugal aos mercados não o liberta de continuar a ser devedor mas é antes a diferença entre um proletário com emprego e um proletário sem emprego. Um país sem acesso à dívida é, no capitalismo, como um desempregado, se quisermos até, como um sem-abrigo.

    Portugal, no capitalismo, é um país proletário e portanto os seus capitalistas como são também proletários, são muito mais capatazes do que agências criativas e dinamizadoras; por isso chegámos também ao ponto onde da esfera do governo e seus apoiantes emerge um desprezo enorme pelas ditas ciências humanas, enfim, o que já era na prática quotidiana torna-se linha política. Em países mais desenvolvidos isto não acontece, neles extrai-se valor destas ciências, um valor que não é de curto prazo, é verdade, mas que por isso mesmo assinala o seu desenvolvimento, ou seja, são investem na sustentação a curto prazo, diária, mensal, anual até, de mecanismos de geração de valor concretizável apenas a médio ou longo prazo – esta concretização dá-se, por exemplo, na criação de discípulos. Portugal é um eterno discípulo das ciências teóricas de outros países e portanto é consistentemente uma espera de instruções e de instrução. É esta espera, elevada a identidade nacional, por seu turno, que significa ser atrasado.

    A sua posição no post, portanto, é em grande medida isto: não façamos nada, esperemos instruções de fora.

  11. El Mariachi

    Acho bizarro que um comunista acuse Portugal de ser um mero discípulo de ideias importadas, sem demonstrar interesse em adaptar estes pensamentos importados à realidade nacional. Vindo de um comunista, ou seja, de um sujeito que defende uma ideologia que permanece igual desde o primeiro segundo em que Marx e Engels editaram o Manifesto Comunista, e cuja única tentativa de desenvolvimento (o eurocomunismo) e adaptação foi destruída pela própria ideologia mãe e pelos naturais entraves que se colocam diante de tal trabalho, tenho dificuldade em identificar a legitimidade do argumento.

    Se não querem que Portugal continue algemado a entidades externas, não endividem o país nem defendam modelos económicos baseados em extorquir do contribuinte quase todo o dinheiro que ele, com dificuldade, aufere. A vossa ideologia, se pensarmos bem nos seus conceitos nucleares, só é possível de existir, ou melhor, de ser ponderada como alternativa a qualquer outro modelo económico, enquanto o ser humano permitir que uma entidade como o Estado tem o direito de lhe cobrar uma parte dos seus rendimentos.

    “não façamos nada, esperemos instruções de fora.”

    Para quem professa a sua ideologia, é positivo que este governo falsamente liberal continue assim. Se quem está no governo e assume ser liberal se comportasse como tal, certamente que Portugal não estaria como está presentemente.

  12. tina

    “Portugal, no capitalismo, é um país proletário e portanto os seus capitalistas como são também proletários, são muito mais capatazes do que agências criativas e dinamizadoras”

    Quando um dia conseguirem manter um argumento sem atirar a culpa para os outros, então valerá a pena ler tudo até ao fim.

  13. Comunista

    #14:”Quando um dia conseguirem manter um argumento sem atirar a culpa para os outros, então valerá a pena ler tudo até ao fim.”

    – espere aí um pouco para eu me deitar no chão e rebolar a rir. Leia o insurgente e leia os seus comentários. Ninguém se queixa mais dos outros do que você(s).

    #13:”Vindo de um comunista, ou seja, de um sujeito que defende uma ideologia que permanece igual desde o primeiro segundo em que Marx e Engels editaram o Manifesto Comunista”

    – isto seria um bom argumento se fosse verdade. No entanto revela apenas que você não faz ideia do que é o programa do PCP.

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