Não vale a pena fingir que temos soluções à mão para «o» problema, porque não temos

Temos todos a noção intuitiva de que, do desemprego assustador que veio, grande parte dele é estrutural, quer dizer, não seria revertido, caso a produção efectiva voltasse a igualar a produção potencial, ou seja, se a totalidade da capacidade produtiva viesse a ser utilizada na íntegra. Todos temos a noção de que o que está em curso na economia não é um choque cíclico, mas a precipitação da destruição de uma estrutura produtiva que se foi sedimentando ao longo dos anos, de décadas, resultado da deslocação do investimento para actividades não sujeitas à concorrência externa, à medida que o câmbio forte, por um lado, e a disponibibilidade de crédito fácil para inflacionar a procura interna, por outro, iam acontonando a economia numa espécie de bunker ineficiente, destinado a morrer quando o que o alimentava deixasse naturalmente de fluir, por saturação (níveis de endividamento, público e privado, sem quaisquer precedentes e insusceptíveis de continuar a aumentar indefinidamente).

Destrinçar exactamente o que é estrutural e cíclico, para testar a intuição, não é fácil. Mas há indícios que dão uma ideia mais precisa do que pode a intuição. Se é de acelerada destruição irreversível da estrutura produtiva existente que efectivamente se trata, é muito provável que o stock total de capital líquido na economia esteja a diminuir. Está? Está.

Stock capital

Semelhante fenómeno não é observável na economia, pelo menos no último meio século, para o qual há dados. O consumo de capital anual na economia passou a ser superior ao investimento, de modo que o pouco que resta deste não chega para repor os níveis do stock. A formação líquida de capital fixo tornou-se negativa, pela primeira vez desde que há memória.

Formação Líquida de Capital Fixo

A base de dados de onde estes valores foram tirados, a Ameco, da Comissão Europeia, projecta até 2014 a continuação desta trajectória insólita.

Sem novo investimento – em capital físico mas, também, obviamente humano -, capaz de alterar de facto o perfil da economia por forma a inseri-la competitivamente na economia global não haverá reversão antecipável do desemprego capaz de alterar significativamente o efeito mais dramático deste desfazer inevitável.

As consequências do prolongamento indefinido desta trajectória podem ser, de facto, catastróficas. Fingir que há soluções, recursos em sentido lato, para apressar a mudança é estar a brincar com o fogo. O nosso principal défice, agora, é de tempo.

25 pensamentos sobre “Não vale a pena fingir que temos soluções à mão para «o» problema, porque não temos

  1. lucklucky

    Depois de décadas a penalizar quem é diferente e produz riqueza, países como Portugal nem fazem ideia do que terão de fazer para só terem o passado de volta.
    Falo só de mínima estabilidade. Não fazem ideia.
    Começa na escola e vai por aí fora.
    E vão ter de voltar a estudar as zonas francas de tempos medievais ou as chineses e já sabemos como esta gente tão pós civilizada julga qualquer desses casos…

  2. A. Dias Diogo

    Meus caros, quem produz riqueza são os trabalhadores. Os empresários investem ou fazem engenharia financeira (mais financista), não produzem nada, enriquecem!

  3. paam

    “Meus caros, quem produz riqueza são os trabalhadores. Os empresários investem ou fazem engenharia financeira (mais financista), não produzem nada, enriquecem!”

    É fácil perceber como chegámos aqui…

    Já agora, caro A. Dias Diogo, porque é que não abre uma empresa e enriquece também? Certamente que fez um voto de pobreza ou então prefere ser “explorado” por um empresário.

  4. Comunista

    paam, há empresários trabalhadores que efectivamente, no sistema vigente, geram trabalho, ou seja, é trabalho que gera trabalho que gera trabalho e há empresários parasitas dos empresários trabalhadores; estes geram também trabalhadores mas uns que são efectivamente o contingente de optimização da actividade parasítica de seus chefes – estes são aqueles cujo capital é praticamente todo ele financeiro e cujos investimentos são praticamente todos eles financeiros: não produzem um parafuso, produzem apenas meios de sacar riqueza da economia sem nela colocar quaisquer utilidades públicas. Esta é a verdadeira escória. Estes são os que efectivamente têm mais poder sobre as políticas dos Estados.

  5. lucklucky

    “Meus caros, quem produz riqueza são os trabalhadores. Os empresários investem ou fazem engenharia financeira (mais financista), não produzem nada, enriquecem!”

    É então muito estranho porque é que esses todos trabalhadores não criam empresas e nem sequer o PCP e CGTP têm programas de transformação de trabalhadores em empresários…

  6. Comunista

    “É então muito estranho porque é que esses todos trabalhadores não criam empresas (…)”

    De facto é estranho como é que o “incentivo” da precarização dos vínculos laborais tem gerado probreza e emigração em vez de riqueza e criação de empresas. É estranho como é que tendo uma maioria dos desempregados sem subsídios de desemprego a tendência não seja a de se criar empresas mas continue a ser a da falência de empresas. Os números do desemprego estão aí, sempre a aumentar, tal como o número de falências e a sua proporção em relação à criação de empresas.

    Uma situação muito generalizada onde sequer o trabalho não vai chegar para pagar as contas de uma cidadania minimanente razoável é a inércia para a que se dirige o sistema actual em Portugal. Mas como o Ulrich diz que a malta aguenta então não há crise.

  7. paam

    Comunista,

    Não estou a perceber o seu problema com os empresários que investem/arriscam o seu capital em produtos financeiros. Não sei se sabe, mas os produtos financeiros englobam o sistema bancário, absolutamente imprescindivel para a criação de novas empresas e novos postos de trabalho, e os seguros e fundos de pensões. Para ter uma ideia, o sector financeiro em Londres emprega 325.000 pessoas. Por isso não concordo que não produzam um parafuso ou que estejam a sacar riqueza da economia, muito pelo contrário, são fundamentais para criar riqueza. Se têm poder sobre as políticas do Estado isso depende da integridade dos políticos que elegemos. Lobby’s há em todos os sectores…

  8. André

    O blog tem excelentes artigos mas este não é um deles. Não é o crescimento de stock de capital da economia que elimina o desemprego, é o ajuste de precos e da estrutura produtiva. Se o stock de capital não subir sim, aí pode a crise “acabar” mas o crescimento não voltar. O resto é uma falácia.

  9. anonimo

    Não sei se sabe, mas os produtos financeiros englobam o sistema bancário, absolutamente imprescindivel para a criação de novas empresas e novos postos de trabalho, e os seguros e fundos de pensões.
    .
    Comunista deveria ,pelo seu bem , actualizarse.Viver na epoca actual.Vc nao sabe nem papa do novo capitalismo ou neocapitalismo express.

  10. Fernando S

    A. Dias Diogo — Fevereiro 15, 2013 @ 15:27 :
    “quem produz riqueza são os trabalhadores. Os empresários investem ou fazem engenharia financeira (mais financista), não produzem nada”
    .
    Retire os empresarios da equação e vai ver a enorme produção de riqueza que dali sai !!….

    Ja foi exprimentado historicamente e deu o que deu…
    Para quem quizer observar e estudar como é ha uma experiencia em laboratorio que ainda esta em curso mas que ja ha muito tempo deu os resultados todos : a Coreia do Norte !

  11. Comunista

    “Não estou a perceber o seu problema com os empresários que investem/arriscam o seu capital em produtos financeiros.”

    Paam, eu é que não percebo como é que você diz isto depois das transferências em massa de recursos públicos para “salvar” o sistema desses investimentos em produtos financeiros.

  12. paam

    Comunista,

    Com as políticas actuais haveria sempre transferências de recursos publicos. Se não se salvassem os bancos o Estado teria, de acordo com a lei, de salvaguardar os depósitos dos clientes dos bancos. O problema é que Estado intervém na economia eliminando o factor risco. E este último é a melhor garantia de um sistema financeiro, e económico, saudável.

  13. Pisca

    Oh alminhas pensem um bocadinho além dos chavões, se conseguirem. No dia em que não houver quem faça pão, extraia o leite, cultive as couves e por aí fora, vai tudo comer folhas de excell e extrectos bancários, alguns poucos têm notas de euro para o pequeno almoço, conseguem entender quem produz e quem paira babado a olhar gráficos ?

  14. Fernando S

    Pisca — Fevereiro 16, 2013 @ 11:34 : ” quem faça pão, extraia o leite, cultive as couves e por aí fora,…”

    Nada mau para quem sugere que se va “além dos chavões” !…
    Mas acho bem que se regresse aos modos de produção pré-historicos !

  15. Zé da esquina

    É isso Pisca, a solução é essa mesmo. Acho decididamente que o Português que não tiver a sua própria horta e conseguir sobreviver com base no que produz, é um parasita da sociedade. Com certeza o pisca também cultiva as suas couves e coze o seu pão, não? Ou não me diga que compra o pão na padaria?

  16. Pisca

    Como não entendem porque acham que o leite nasce nos pacotes, falo de GENTE de OFICIO que TRABALHA e PRODUZ COISAS, entendem ? Não são fulanos pasmados a olhar ecrans e imaginar realidades que nunca acontecem

  17. Pisca

    Explicando melhor, o meu Pai era Sapateiro e considerado dos melhores no sitio onde trabalhava, nunca precisou de um Gestor, Um Economista, Um Especialista em Marketing para fazer um Par de Sapatos, agora posso garantir se não houver sapateiros os atrás mencionados vão andar com os pézinhos na terra, ou acham que o sucesso de algumas exportações de calçado se deve unicamente à visão lucida e sábia de economistas e gestores ? Não haja quem meta a mão nas solas vão ver o que dá. Não é por acaso que se debatem cada vez mais com a falta de profissionais do assunto, não há equivalencias nestas coisas são anos a aprender

  18. Fernando S

    Comunista — Fevereiro 16, 2013 @ 01:32 : “[]as transferências em massa de recursos públicos para “salvar” o sistema desses investimentos em produtos financeiros.”

    1. Os “recursos publicos” não caem do céu, veem do sector privado (familias e empresas, incluindo os Bancos … privados) e seria bom e normal que de algum modo um dia para la voltassem.

    2. O dinheiro “transferido” para alguns Bancos portugueses para reforço da respectiva capitalização são empréstimos pagos com elevadas taxas de juro e que devem ser reembolsados. O dinheiro não é dos contribuintes portugueses mas sim da Troika. Como os Bancos pagam em juros ao governo portugues mais do que este deve pagar à Troika, o Estado (e indirectamente os contribuintes portugueses) até ganha dinheiro com a “transferencia”.

    3. Os “produtos financeiros” que criaram e criam dificuldades ao sistema bancario portugues são sobretudo … titulos da divida publica portuguesa que se tornaram “toxicos” por obra e graça das politicas despesistas e de endividamento dos governos !…

    4. No dia em que estas politicas deixarem de acontecer talvez então estas “transferencias” para “salvar” “o sistema” (de crédito à economia, desculpem a insignificancia !…) deixem de ser necessarias !

  19. Comunista

    “Os “produtos financeiros” que criaram e criam dificuldades ao sistema bancario portugues são sobretudo … titulos da divida publica portuguesa que se tornaram “toxicos” por obra e graça das politicas despesistas e de endividamento dos governos !…”

    – Isto não é verdade. Portanto, que você venha com isto mim já é suficiente para perceber que você está aqui só a fazer propaganda. Os bancos portugueses continuam com interesse nos títulos de dívida portuguesa – isto deveria ser suficiente para o sr. pensar duas vezes nessa sua tese.

  20. Fernando S

    Comunista,

    Claro que para um comunista uma opinião diferente é necessariamente “propaganda” !… Tudo como dantes no quartel general de Abrantes !

    Quanto à minha “tese” ….
    Os Bancos, portugueses ou outros, teem sempre interesse na compra de produtos financeiros que estejam baratos e cujos preços tenham perspectivas de crescimento.
    Neste momento é o caso dos titulos da divida portuguesa, cujo preço caiu a pique a partir de 2010 e atingiu um minimo em 2011 (pelo que os Bancos portugueses que tinham quantidades importantes registaram menos valias e perdas contabilisticas muito grandes) mas que, entretanto, graças ao programa da Troika, à politica de austeridade, e à melhoria geral na Zona Euro, tem vindo a subir (pelo que os mesmos Bancos teem registado mais valias e melhorias dos respectivos resultados) e tudo aponte para que continue.

  21. lucklucky

    “De facto é estranho como é que o “incentivo” da precarização dos vínculos laborais tem gerado probreza e emigração em vez de riqueza e criação de empresas. É estranho como é que tendo uma maioria dos desempregados sem subsídios de desemprego a tendência não seja a de se criar empresas mas continue a ser a da falência de empresas. Os números do desemprego estão aí, sempre a aumentar, tal como o número de falências e a sua proporção em relação à criação de empresas.”

    Orwelliano. Você e o seu partido ataca os empresários e depois chora porque não existem empresas ou vão à falência…

    Talvez deva pensar na Escola Publica do Kremlin da 5 de Outubro de que tanto gosta. Ou aos jornais sempre a a protegerem o PCP.
    Ou a pessoas como você que quer difcultar a vida de qualquer empresa, como bom comunista sempre a favor de com aumentos de impostos, mais leis , mais burocratas e mais empregos no Estado.

    – Isto não é verdade. Portanto, que você venha com isto mim já é suficiente para perceber que você está aqui só a fazer propaganda. Os bancos portugueses continuam com interesse nos títulos de dívida portuguesa – isto deveria ser suficiente para o sr. pensar duas vezes nessa sua tese.

    Heheh. O Pravda está bem vivo. Defendem que não se pague a Dívida e depois dizem que os títulos da Dívida não são “tóxicos”…

  22. economista

    POIS É , POIS É , o incompetente do PPC e seus muchachos já desperdiçaram 2 anos !…
    Só os tolos acreditam que vamos pagar a Divida !… Quando é que a de PPC é maior do que a de Sócrates ? (bem a de Cavaco + PPC já é superior à de Sócrates …)
    ??? Confessa-te Bandarra … Estou curioso !…

  23. Fernando S

    economista — Fevereiro 16, 2013 @ 23:47 : “Quando é que a [Divida] de PPC é maior do que a de Sócrates ?”

    Enquanto o Orçamento for deficitario a divida tem forçosamente de aumentar …

    PPC “apenas” reduziu os déficits de Socrates para metade (em % do Pib)…
    Apesar de o estar a fazer num contexto recessivo, nacional e europeu …
    Apesar de estar a pagar os custos duma crise que foi criada por governos anteriores e agravada pelos disparates dos governos de Socrates …
    Apesar de estar a pagar os juros do endividamento anterior acumulado, incluindo o muito que foi ecrescentado nos anos Socrates …
    Apesar de ter tido de pagar dividas aos fornecedores do SNS contraidas no tempo dos governos de Socrates …

    PPC podia ter feito ainda melhor, podia ter anulado os déficits orçamentais e começado a reembolsar a divida publica ?..
    Cortando ainda mais nas despesas publicas e aumentando ainda mais os impostos ?!…

    O que é espantoso é ver … os mesmos que durante décadas defenderam que o Estado deveria gastar mais, mesmo que para tal tivesse de aumentar impostos e endividar-se, e que, mesmo agora, com um Estado falido, acham que a austeridade não é necessaria,… virem agora preocupar-se com o aumento da divida publica !!…

    O piromano que aparece no local do incendio a criticar o trabalho dos bombeiros !!

  24. Pingback: Austeridades e a ovelha ronhosa | O Insurgente

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