A Factura (a sua)

Estou certo de que, neste momento, você já se indignou  com os “fiscais da factura”. Já arremessou o comando ao televisor, já se juntou ao tal grupo do facebook que pede a demissão da classe política e, num acto de rebeldia nata, já fez estremecer o café berrando indecências contra a progenitora do Ministro. Mas você, caro Leitor, é uma besta. E eu vou-me abster de lhe pedir para que não se ofenda. Eu quero que se sinta ofendido. Porque você, caro Leitor, é um idiota chapado.

Onde estava o meu amigo quando, fim de semana atrás de fim de semana, os mesmos agentes que nunca o impediram de ser roubado, cercaram as zonas de diversão nocturna incomodando quem quer que se faça passear numa viatura ? Provavelmente até concorda. Provavelmente até aplaude as vistorias aos popós, que se vêm tornando frequentes e escreve belas monografias enaltecendo a segurança, como se cada condutor fosse um perigoso terrorista à espera de rebentar. Provavelmente você viu aquele bar ser encerrado porque um artista se lembrou de acender um cigarro e aquela loja de conveniência fechar pelo simples facto de estar rodeada de bares e não ousou abrir a boca.

Sim, você que ejacula com as ASAEs e o seu fascismo gastronómico, para depois ir ao tasco da esquina queixando-se – e com razão – que as bifanas já não têm o sabor de antigamente. Você que quer limpar os bolos das escolas e arredores e meter as crianças a comer verduras no almoço e bananas no café da manhã. Você que branqueia os espancamentos nas esquadras e as rusgas nos subúrbios, que defende sem se questionar os gorilas de farda azul, legitimando que quem mora num bairro social – ahh, esse antro de bandidos e marginais – seja sujeito ao mesmo procedimento que um check-in de aeroporto. E por falar em aeroporto, já se sente mais seguro com por saber que o tipo que se senta ao seu lado só tem uma garrafinha de água ?

Você que pretende inspeccionar quem fuma com os filhos no carro ou com a empregada doméstica em casa. Você que acha que esses ladrões desses empresários devem ser constantemente incomodados para não fugirem às suas obrigações, que quer o Estado a inspeccionar as contas bancárias dos banqueiros e dos políticos, que festeja com as escutas da PJ ao Presidente do clube adversário. Você que que vibra com as rusgas aos feirantes, com o encerramento das Smartshops, que consentiu o assédio à restauração até entrarem no seu café, que consentiu o assédio aos agricultores até entrarem no seu quintal, que aplaudiu o assédio ao comércio até chegar ao supermercado e perceber que o produto que queria comprar tinha sido apreendido.

Hoje, observando o culminar da tirania que tem defendido, sente-se incomodado. Chega mesmo a sentir que o Estado se está a intrometer na sua vida. Chega ao ponto de, na sua inocência, citar chavões dos tais extremistas, dos mesmo anarquistas que tem vindo a insultar no café, no facebook e nas caixas de comentários dos blogues que lê. Mas você perdeu a guerra no dia em que deixou o Estado entrar na casa do seu vizinho. Abriu o precedente –  a caixa de pandora – para que ele um dia entrasse na sua. E esse dia chegou.

Agora sente-se, relaxe, beba um copinho de maduro tinto, acenda um cigarro e desfrute. Porque mais tarde ou mais cedo o Estado também o privará desses pequenos prazeres com tons de pecados. Por razões de saúde, por razões de segurança, por razões que o próprio imbecíl que fizer essa lei desconhecerá. Mesmo que isso implique entrar em sua casa, mesmo que isso implique a sua detenção por resistir à autoridade suprema dos fascistas que o governam. Como se diz em bom português, você fez merda, caro Leitor. Agora aguente-se à bronca. Aqui tem a factura do que pediu.

PS: Por cá o Carlos, a Maria João e o Ricardo (o outro) e no Estado Sentido o João Quaresma, o Samuel, o Fernando Melro dos Santos e o José Maria Barcia já escreveram sobre o assunto. Vale a pena uma vista de olhos.

8 pensamentos sobre “A Factura (a sua)

  1. JPT

    O comentário acima diz tudo. Como se poder ter toda a razão e perdê-la toda, tentando equivaler alhos com bogalhos e o bebé e a água do banho, e perdendo de vista a mais leve noção de bom senso e de justa medida. Como diz o seu colega de blog, mais abaixo: “Sinceramente, não acho que [..] seja, vá, idiota chapado […] está simplesmente combalido.” O problema é que o Pacheco está combalido com o ódio ao Passos e a diminuição do seu orçamento para livros, enquanto o meu caro está combalido com o Século XXI, como aqueles tontinhos com que o Jon Steward nos diverte 4 dias em cada 5 e que, coitados, nem têm a noção que são tontinhos. Bom fim-de-semana e votos de melhoras!

  2. FV

    Esta aparente contradição da opinião pública contra o abuso de poder é facilmente explicável pelo facto dos portugueses adorarem comer. O que está aqui em causa não é o abuso de poder em si, é a perturbação de um ritual sagrado que consiste na frequência de um estabelecimento de restauração. Quase tudo o resto é secundário.

  3. Jose

    Agora pensem lá, mais liberdade afinal era antes ou agora? Ahh pois, esquecia-me, como agora até podemos dizer mal à vontade, e escolher quem nos f*** através de eleições, então não estamos numa ditadura. (ou estamos?)

  4. economista

    “ TOMAR NO CU “
    Caro PAULO NÚNCIO (M.D. SEAF e dono de uma Sociedade de Advogados) , queria apenas avisar que não penso pagar as tuas iluminadas “multas” , não porque não tenha dinheiro , mas porque fui sempre rebelde perante as desproporcionadas violações das liberdades , direitos e garantias fundamentais dos cidadãos . Cometeste um verdadeiro atentado à intimidade privada ! E não vais para a prisão ? E ainda violaste o segredo comercial de Veiga Beirão (1888) o qual até a Ditadura de Salazar respeitou e não ousou lhe tocar !… Será que tão iluminada imaginação não encontra alternativas noutras formas infinitamente mais eficazes de combater a evasão fiscal que aliás está dentro das tuas portas e não onde “esgravatas” ?
    Facturas só as solicitarei quando comprar “camisas de venus” e “vaselina” e que para reembolso do respectivo IVA te as enviarei “NIFadas” … E se assim o impuseres ditadorialmente
    também não me importo de te enviar a “vaselina” para quando alguém aí “tomar no cu” …
    E começo a meditar perante tão fútil imaginação por ti revelada,
    que me surge a duvida se fazes parte daquela “geração rasca”
    que foi para Direito por nunca ter conseguido aprender a “tabuada”?
    Elevaste o IVA da “restauração” para 23% !… Como consequência
    este negócio afundou e o desemprego aumentou !…E os custos sociais dispararam e as receitas fiscais diminuiram definitivamente.
    A final , saldo negativo !… Inteligente !… E vieste então a publico informar que este IVA aumentara 109% !…Mais do dobro !…Não querias dizer +9% resultante do aumento da taxa visto que a matéria colectável diminuiu ?
    Toda a gente sabe que as receitas fiscais diminuiram . Vieste à Assembleia da Republica enganar os ignorantes Deputados ,
    dizendo-lhes que o IVA agora havia aumentado 106% !… Outra vez mais do dobro !… Não querias dizer + 6% ? E ainda mais a “calinada”
    demagógica de que o IRS é pago na quase totalidade pelo último
    escalão . Será que este último escalão “de facto” existe ?
    Não obstante o teu danoso espírito associativo , junta-te ao teu
    confrade Miguel Relvas , e , A Bem da Nação , vão os dois para a
    Escola estudar não só para eliminar a vossa iliteracia numérica,
    económico-financeira e social , como também aprender algumas regras de civilidade i.e. não enganar nem roubar o próximo .
    Votos de uma boa e rápida tão necessária aprendizagem …
    Como Miguel Relvas é gêmeo siamês de Pedro Passos Coelho ,
    terás o doloroso encargo de levar também este embuste de
    “Zé Camarinha”, tão nebuloso como o seu Passado e tão perigoso quanto o nosso Futuro ….
    Post Scriptum
    Hesito agora se pedirei todas as facturas como já há muito tempo é exigido pela Lei , mas então logo as destruirei dentro do próprio estabelecimento como a Lei o permite , pois não é obrigatória a sua conservação…
    “Castigat Ridendo Mores”
    https://oinsurgente.org/2013/02/14/ate-quando-vamos-suportar-o-insuportavel/

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