Próximos da depressão

Dos primeiros dados a serem divulgados pelo INE sobre a evolução da economia em 2012:

a) o último trimestre de 2012 foi muitíssimo pior do que o esperado (pelas instâncias oficiais): a contracção do produto, em cadeia (face ao trimestre anterior), foi de 1,8%, uma taxa anualizada de 7% (isto é: se a economia mantivesse a tendência, o ano à frente terminaria com uma recessão dessa magnitude). A Comissão Europeia, por exemplo, previa ainda no Outono uma queda de 0,7%: foi bastante superior ao dobro do previsto, pelo que temos razões de sobra para duvidar que estejamos a ser adequadamente monitorizados. Se a Comissão Europeia falha a escassos dois meses da concretização do resultado desta maneira, é legítimo perguntarmo-nos para que servem as suas previsões. Falhando a previsão da evolução em cadeia, falhou tudo o mais e, de acordo com as estimativas preliminares, a economia terá contraído em termos anuais 3,2%.

b) o último trimestre de 2012 foi o segundo pior deste ciclo recessivo, só superado pelo primeiro de 2009, em pleno olho do furacão. A primeira estimativa rápida não fornece ainda detalhe sobre a composição do produto, mas o INE refere que «o contributo positivo da procura externa líquida diminuiu significativamente no 4º trimestre», algo que não supreende.

c) do pico ao mínimo, a economia acumulou, na variação trimestral, uma queda do PIB de 8,2%, algo completamente desproporcionado com qualquer episódio recessivo anterior para o qual disponhamos de memória em dados comparáveis. A tendência visível é claramente de agravamento. Costuma distinguir-se a noção de depressão da de recessão pela duração e magnitude da contração da economia: quando ela atinge os 10%. Em termos de variação intratrimestral do produto, não estamos longe disso. A duração da crise já excede e não há absolutamente nenhuma razão para antever no curto prazo uma inversão da trajectória. As previsões a olhar para o retrovisor não são a melhor maneira de tomar o pulso ao que vai acontecer, mas o facto é que a envolvente externa não favorece nada o futuro imediato e, sem ela, o resto é o que se sabe.

O ano está a começar com notícias bastante alarmantes e tenho para mim que a probabilidade de ser ele um momento de confronto do país com a sua realidade e as suas possibilidades é muito elevada. A forma como estão nestes dados imbricados problemas estruturais – que as hostes socialistas, do mais variado sortido, gostariam de ignorar para toda a eternidade – com precipitadores conjunturais é isso mesmo que suegere. Os anestesiantes keynesianos não estão disponíveis, pelo que não será de estranhar que nos tenhamos de haver, por fim, com os problemas.

PIB Quarto trimestre de 2012

26 pensamentos sobre “Próximos da depressão

  1. Soviet Dacha

    Ali em 2009-2010!!! a recuperação económica estava nas nossas mãos. Depois, bem… depois entraram os conservadores e só fizeram porcaria. Este gráfico é tão bom como o da Inglaterra. Ambos conservadores e ambos derrotados pela realidade. O único problema estrutural é o desmantelamento do sector financeiro.

  2. Jorge Costa

    Ali em 2009 e 2010 tivemos défices orçamentais de 10% do PIB. So você acredita nisso, só lhe posso garantir que está irremdiavelmente louco.

  3. Soviet Dacha

    Défices de 10% que mantinham postos de trabalho. Se você somar todos os défices decorrentes desta política de cortes já terá muito mais de 10% de défice orçamental e do desemprego de massas convém nem dizer nada não vão as pessoas começar a perceber que nunca mais terão emprego (como certos opinadores da praça fazem questão de sublinhar) e começar uma revolta. Uma coisa é certa: Eu vou estar cá para ver os grupos/partidos políticos assumirem o contrato financeiro que assinaram com os credores até ao fim. E quero que assumam que esta política de cortes é um desastre, que nós estamos já tão longe dos objectivos traçados que só um louco é que alguma vez pode pensar que vai haver pagamento do empréstimo.

  4. Jorge Costa

    Se calhar não deu por isso, mas deixou a dada altura de ser possível ter défices de 10%, ou quaisquer outros. Foi quando Portugal foi enxotado dos mercados, pela razão simples de que quem emprestava a preços comportáveis deixou de o fazer. Nem toda a gente é completa e irremediavelmente tarada. Depois de 37 anos a acumular défices e chegados aos 10% foi natural que assim fosse.

  5. Soviet Dacha

    A questão de enxotar ou não enxotar tem muito que se lhe diga. Há uns que têm défices muito maiores que o nosso e o mercado nunca se fechou. Mas isso é porque têm bancos centrais com utilidade.

  6. Soviet Dacha

    E claro, não inscreveram coisa absurdas na constituição como défices de 0,5% e endividamentos de 60% do PIB que condicionam acesso a fundos estruturais. Aos partidos que assinaram esses 2 items também vou cá estar para os ver assumir o falhanço desse contrato.

  7. Jorge Costa

    Se tem muito que se lhe diga e qualquer relação com a realidade concreta, diga. Se não, não vejo a utlidade de lhe responder.

  8. Pingback: Quem enjoa mais? « O Insurgente

  9. Miguel Noronha

    Ainda me recordo dos malabarismos que nos últimos tempos do governo Sócrates se fizeram para colocar as últimas emissões de dívida. Sabe-se lá em que condições.

  10. APC

    “A questão de enxotar ou não enxotar tem muito que se lhe diga. Há uns que têm défices muito maiores que o nosso e o mercado nunca se fechou. Mas isso é porque têm bancos centrais com utilidade.”

    O Japão faz isso e é um exemplo de progresso económico… A Argentina também tem jeito para a coisa, segundo consta, acho que têm tido umas chatices…e não esqueçamos o baluarte do desenvolvimento que é a Venezuela com o seu “Bolívar Fuerte”, a moeda com o nome mais irónico de que há memória.

  11. Observador

    Meus amigos. É sempre a mesma coisa. Mas eu só pergunto com um país meio parado, com um indice de desemprego elevadissimo, com a economia a regredir todos os dias, com empresas a fechar continuamente, com o consumo a cair todos os dias, o PIB tem que cair por falta de tudo e mais alguma coisa. Quando parte importante do país, desempregados jovens e não jovens, milhares e milhares de pessoas com o SMN ou até inferior, com a insuportável carga fiscal a vergar a capacidade de consumo, com muita gente a passar fome ou dependente das cantinas sociais ou da caridadezinha, o PIB tem que cair. Quando a politica do caos seguida por este governo e que deu em 2012 os resultados que deu, como é que um governo insiste na mesma receita, mas ainda mais agravada? Insiste no caos, só pode ser.

  12. lucklucky

    “Ali em 2009-2010!!! a recuperação económica estava nas nossas mãos.”

    Um louco. Só pode. Diga-lá aí qual foram os extraordinários resultados da última década. Em que só nos últimos 4 anos de Socrates pediu emprestado mais de 90 mil milhões de Euros.

  13. Carlos

    Observador,
    por que não continuou até ao fim com o seu comentário? O amigo não ia sugerir o regresso do Sócrates? Ou a eleição do Seguro? Ou apenas ia terminar como já vi várias vezes: volta Caetano que estás perdoado? Diga à gente o que sugere.

  14. Observador

    Começo por lhe dizer que não tenho nada a ver com qualquer partido politico. Só contribuo para eles através do Orçamento da Assembleia da Rapública. Sendo assim só há uma solução. Matar à fome ou por falta de assistência metade dos portugueses. Depois os outros ficam todos bem. É uma teoria bonita.

  15. lucklucky

    Observador você bate o record…

    Com o Orçamento do Ano 2000 você hoje tem superavite e é possível baixar impostos. Morríamos à fome na altura?

  16. Pingback: Nuvens Escuras no Horizonte « O Insurgente

  17. Observador

    Não. Não estou a desconversar. Toda a gente sabe que o governo anterior fez muitos disparates. E os outros anteriores? Veja que as PPP, que nos estão a endividar todos os dias, começaram com o cavaco na Ponte Vasco da Gama. Veja os comboios de dinheiro que nesse tempo vinham todos os dias da CEE para serem distribuidos pelos amigos dos grandes jipes e dos montes alentejanos. E claro com os amigos do BPN. (NOVE MIL MILHÕES, mais coisa menos coisa.) E depois foi sempre a seguir. Já lhe disse que o governo anterior, como todos os outros fez muito disparate. E este já procurou tomar medidas para acabar com esses disparates? Parou a obra do Marão, é certo. E porque e que não paraou a A13 entre Tomar e Coimbra? Aquilo faz alguma falta? Era só terem acabado aquilo como IC3 como estava no programa e chegava muito bem. Agora são três autoestradas a concorrerem entre si para Coimbra. A A1, a A8 e a A13. Acha que o país pode com tudo isto? E o que é que este governo já fez para controlar a economia paralela? São mais de 43 MIL MILHões anuais segundo o “I” de 8 de Fevereiro. Mas querem pôr os pequenos a fiscalizar os cafés, os restaurantes, os barbeiros e as oficinas de automóveis pometendo-lhes multas se não pedirem as facturas? E então porque é que não fazem o mesmo com os supermertcados, com as petroliferas, com as telecomunicações, etc.?? Porque não interessa mexer no peixe graúdo? É isso. E as subvenções vitalicias porque é que não acabam com elas? Porque agradam a todos os partidos? Pois, é! E os orçamentos da AR e da PR porque é que não são cortados como estão a cortar nos vencimentos e acima de tudo nas pensões dos reformados? Porque estes últimos já não voz activa? Talvez se venham a enganar. Como vê. não estou a desconversar e apontei factos concretos.

  18. murphy

    Que admiração dos media generalistas com o desemprego… fizessem o trabalho de casa nos últimos 20 anos e informassem os portugueses do rumo que estava a ser seguido!
    Enquanto nos emprestaram dinheiro, foi possível manter empregos atapetando o país de auto-estradas, plantando eólicas em cada monte, etc., até era possível ocultar desempregados em cursos das novas oportunidades…

    Actualmente, para além de termos que pagar os juros da dívida originada por esse crédito fácil, o Estado ainda enfrenta a redução na arrecadação de impostos e uma maior despesa social.

    Os empregos só podem ser criados em actividades rentáveis. Pensar que o modelo do País se transforma da noite para o dia…

    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/01/isto-revolta-me-e-nao-ha-titulo.html

  19. asrl

    Adoro quando faço um dislike num comentário Insurgente para que automaticamente conte também como like. Qual milagre da multiplicação dos peixes!

    http://www.ecb.int/ecb/shared/pdf/crisis/081115_g20_summit_declaration_en.pdfG20
    G20, 2008, ponto 7
    ‘use fiscal measures to stimulate domestic demand’ A subida do déficit público português de 3 para 10% teve orientação do G20. Claro que se pode discutir a eficácia dessas medidas, mas não enquadra-las num num contexto de críse e orientação internacional é argumentar por omissão.

  20. asrl

    O mesmo se aplica ao inicio da era de austeridade. Mas aqui por orientação europeia (que não soube conter o problema grego em 2010).
    Mas claro, fica mais fácil atirar pedras internas..

  21. Carlos

    Observador,
    Se bem entendi, o amigo gostaria de concluir assim: estamos lixados. E tinha muita gente a aplaudir, acredito.

  22. Observador

    Sr. Carlos
    Não percebi. Como é que chegou a essa brilhante conclusão? Não ponha na minha escrita as suas conclusões.

  23. André

    Ainda não perceberam que o obrservador e o Sacha até em casa vivem do dinheiro dos pais?

    Quem fala como eles, de certeza que não tem contas para pagar nem recebe do trabalho.

    Porque se o fazem, não gastam mais do aquilo que têm. Não têm défices familiares anuais na casa dos 10% (espero eu!).

    Se o fazem isso em casa, porque não deve um país fazer?

    Não me digam que o vosso banco central, aka vossos pais, vos vai emprestando dinheiro para pagarem a renda, depois de terem “investido” no vosso desenvolvimento a comprar IPADS ou um carro novo de 2 em 2 anos!

    É viver com a realidade meus amigos, e vocês ainda não perceberam a realidade!

    O resto é conversa, e se querem mandar areia para os olhos das pessoas, aqui não é certamente o lugar certo!

    Talvez em vossa casa!!

  24. Pingback: Atrás da curva? « O Insurgente

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