Em deflação?

É possível que estejamos a entrar numa época de deflação. Os dados hoje revelados pelo INE sobre o índice de preços no consumidor (IPC) confirmam a tendência para isso, embora não possamos falar de deflação a menos que a queda do nível geral dos preços apresente uma natureza sustentada, algo que não podemos dizer ao certo que seja o caso. Os preços captados pelo IPC baixaram 1,2% em Janeiro face a Dezembro e, dissipados os efeitos da reestruturação das taxas do IVA e da subida dos preços administrados, do ano passado, a variação homóloga foi quase nula. A inflação subjacente, que desconta no índice o efeito dos preços dos produtos energéticos e alimentares não transformados, está em território negativo.

Inflação

De facto, o IPC é uma maneira rápida de obter uma indicação da variação efectiva dos preços. O deflator do PIB é a sua medida mais precisa e dessa não dispomos.

Em todo o caso, um dos erros mais grosseiros cometidos pelo Ministério das Finanças (MF), no ano passado, foi precisamente o que se prendeu com a evolução dos preços e com a projecção do deflator. O Orçamento do Estado para 2012 contou com uma subida do deflator de 1,7%. Por altura em que apresentou ao Parlamento o Orçamento para 2013, o MF reparou que tinha cometido um erro de 1,4 pontos percentuais, pelo que faltavam ao PIB do ano passado 3.000 milhões de euros, com as consequências automáticas que isso teve não só na medida da dívida e dos restantes indicadores de finanças públicas, rácios que têm no denominador o PIB a preços correntes, como também na arrecadação de impostos indirectos, função dos preços. Se a OCDE estiver correcta, de facto o erro foi maior, pois o deflator do PIB terá variado negativamente, em -0,2%, e não positivamente, em 0,3%. Em qualquer dos casos, em terreno deflacionário ou na vizinhança e em tendência para ele, a evolução do deflator foi a mais baixa desde 1963, isto é, dos últimos 49 anos.

Deflator

Foi o passado, que não foi brilhante, e o que interessa agora é o presente e o futuro. O Orçamento para este ano, algo inexplicavelmente, assume que os preços subirão, medidos pelo IPC, 0,9% e, pelo deflator, 1,3%. Como seria de esperar, nada se tendo alterado significativamente nas condições que determinam a tendência dos preços, os dados de Janeiro vêm levantar mais que fundadas dúvidas sobre (mais) este pressuposto que informa o Orçamento.

Assunto a acompanhar com atenção, pois, se estivermos a entrar em território deflacionário, as consequências são bem mais gravosas do que as referidas atrás, relativamente aos indicadores de finanças públicas. O valor real da dívida das famílias e das empresas também aumenta, como aumenta a taxa de juro a que estas se podem financiar, entre outros factor de agravamento recessivo.

15 pensamentos sobre “Em deflação?

  1. CN

    o fim de período de desinflação deve na verdade estar agora a acabar, mas se fosse mesmo deflação de preços que estivesse em causa (sem deflação de moeda), o aumento do poder de compra do consumidor tem de ir para a balança de pontos positivos/negativos como positivo, certo?

  2. Jorge Costa

    O poder de compra, sim, por definição. Sucede que, acontecendo isso, o consumidor tende a adiar despesas de consumo e investimento, e poupa, se a expectativa for de queda continuada de preços. O que pode gerar uma dinâmica perigosa, de recessão auto-alimentando-se.

  3. CN

    “o consumidor tende a adiar despesas de consumo”

    Isso não está comprovado, observam-se períodos da história com deflação benigna (resultado do crescimento, não como resultado de nenhuma crise) e nada a assinalar quanto a isso.

    E de resto essa é a sina dos produtos de tecnologia, baixa de preços, e no entanto— move-se.

    Deflação benigna
    http://mises.org.pt/posts/blog/deflacao-benigna/

    Existe um problema potencial sim quando a deflação é o resultado de problemas no sistema monetário e bancário. Aí podemos classificar a deflação de maligna (embora a origem do mal é anterior, ou seja, é uma consequência de algo, não uma causa de).

  4. Jorge Costa

    Observam-se casos de deflação «boa, má e feia», como referem Bordo e Filardo https://www.bis.org/publ/work186.pdf. Os episódios bons prendem-se, de facto, com choques de produtividade, não antecipados. Não é o nosso (possível, esperemos que não se concretize) caso, associado a uma recessão, onde de facto a deflação descontada nas expectativas pode desencadear um processo complicado de auto-reforço.

  5. Luís Lavoura

    O Jorge Costa deveria saber que neste blogue é desaconselhável falar de deflação, menos ainda mencionar os seus eventuais perigos. Neste blogue só (e sempre) a inflação é maléfica.

  6. CN

    Luís Lavoura

    Abra aí o pdf indicado pelo Jorge Costa e veja os gráficos do período de 1873 a 1896 para o caso mais claro, Reino Unido, página 39.

    Índice de Preços de 150 passa para 100. GDP passa de 70 para 100.

    A deflação é consequência do crescimento económico (redução de custos e preços).

    A deflação maligna é uma consequência da inflação quantitativa (sob a forma de crédito adicional) anterior que a torna inevitável no processo de crise.

  7. Nuno

    Concordo com o CN. Aliás, não percebo como é que numa fase de forte contracção da procura interna se pode esperar outra coisa que não a redução do nível de preços. E de que forma pode isso ser mau para as famílias. Além de que os receios de adiamento indefinido do consumo teriam de ter como reverso da medalha os receios de consumo desenfreado com inflação, mesmo reduzida.

  8. Luís Lavoura

    Jorge Costa,
    ainda recentemente um membro deste blogue saiu dele após ter publicado uns posts desaconselháveis.
    Não sei se foi aconselhado a sair ou não, mas alguns conselhos deverá ter recebido.

  9. Na verdade, se isolarmos os bens não transaccionáveis, a deflação é óbvia. Passemos para a economia real, tenho assistido a isto — inquilinos a pedir a senhorios para baixarem rendas, contratos e avenças de prestação de serviços a serem renegociados, desemprego a baixar salários, etc. O indicador da inflação foi positivo em 2012 porque importamos muito do que consumimos e acabamos por importar a inflação, especialmente a que deriva dos combustíveis fósseis.

  10. Jorge Costa

    Luís Lavoura: eu se fosse a si não falava do que, como reconhece, não sabe. E dispenso os seus conselhos sobre o que devo ou não escrever ou dizer.

  11. Jorge Costa,
    Claro. Se eu sei que os preços vão ser mais baixos na próxima semana, adio a minha fome uns dias. Deixo de comprar pão, manteiga, bifes, e entro numa dinâmica perigosa, de recessão auto-alimentando-se.

  12. Jorge Costa

    Se não for completamente distituído de raciocínio, onde puder poupar, porque as suas poupanças se estão a valorizar automaticamente, fá-lo-á. Já os seus activos reais, por exemplo, aqueles que puder vender, venderá o mais rapidamente possível, porque estão a desvalorizar-se permanentemente, etc. E de certeza que tentará com isso liquidar, tanto quanto possível, as suas dívidas, porque elas estão a aumentar. Pode até acontecer a circunstância desagradável de o processo de liquidação, a dada altura se transformar em aumento real da dívida. Se tiver interesse em resolver problemas menos elementares que o da fome, do pão e da manteiga, experimente ver como se passa. Vai ver que não tem graça nenhuma: http://fraser.stlouisfed.org/docs/meltzer/fisdeb33.pdf

  13. E com inflação, se puder gastar, gasto tudo hoje? Compro o máximo possível de activos reais? Tipo imobiliário? Já que as minhas dívidas estão a encolher… Nunca há de correr mal. Já dizia o outro, de bolha em bolha até ao estoiro final. Jorge Costa, você pode saber muita coisa, mas está muito pouco esclarecido.

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