uma batalha

“Jorge Moreira da Silva afirmou hoje que a emissão de dívida de longo prazo, prevista para amanhã, bem como o pedido de alargamento dos prazos de pagamento da dívida, resultam de uma estratégia acertada implementada pelo Governo português”, no Negócios online.

O dia de amanhã (ou de hoje, dependendo da hora a que publicar este post), confirmando-se o regresso aos mercados para uma emissão a 5 anos, representa seguramente uma vitória da equipa coordenada pelo ministro Vítor Gaspar. Parabéns, pois, a toda a equipa (ao ministro, aos secretários de Estado e ao IGCP, também incluídos). A emissão surge num momento em que a aversão mundial ao risco está em patamares muitíssimo baixos, em que os mercados de acções e sobretudo os mercados de dívida denominada de “high yield” (ou junk bonds, dependendo do pedigree da terminologia) vivem novamente dias de relativa euforia. É certo que o grande motor de toda esta euforia têm sido os bancos centrais, eles próprios eufóricos com os seus programas de emissão monetária, mas o Governo português tem o seu mérito, pelo que, não vale a pena refutá-lo. Pelo contrário, como bons patriotas, devemos enaltecê-lo.

Isto dito, o regresso aos mercados é mais simbólico do que outra coisa qualquer. Note-se que a emissão deverá pagar um juro de sensivelmente 5%, o que numa economia que nem cresce nem dá mostras de vir a crescer no futuro próximo continua a ser um aspecto negativo. Assim, este juro de 5%, mesmo que significativamente inferior aos juros exigidos por altura do pedido de socorro financeiro, continua a ser insustentável, pois encontra-se bastante acima da taxa de crescimento nominal (e potencial) do PIB – a regra que habitualmente define a sustentabilidade da dívida pública. Ou seja, do ponto de vista financeiro, teria sido preferível manter o recurso a emissões de curtíssimo prazo, como se tem feito até aqui, nas quais a República Portuguesa paga hoje taxas residuais. Na verdade, o único atractivo de enveredar por uma emissão de maturidade mais longa tem a ver com a credibilidade externa da República e, sobretudo, com a possibilidade de o BCE passar a ser ainda mais generoso em relação a Portugal.

Na verdade, o grande acontecimento de hoje foi a notícia do reescalonamento da dívida pública devida ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira. É certo que essa parcela é minoritária no conjunto de toda a dívida pública, porém, é o começo de um processo que Portugal terá de prosseguir a fim de criar espaço orçamental para a redução futura dos impostos directos sobre a actividade produtiva. A grande questão é mesmo se este alongamento dos prazos, ao qual se seguirá em conversas futuras o pedido de um período de carência de juros, será ou não alargado aos restantes credores da República Portuguesa, designadamente aos credores privados de emissões de médio e longo prazo cujo reembolso estará fortemente concentrado em 2014, 2015 e 2016. Será, pois, curioso observar o leilão de amanhã para perceber se a nova emissão a 5 anos ficará nas mãos de estrangeiros ou se maioritariamente nas mãos dos bancos portugueses…

Em todo o caso, sem prejuízo da vitória de hoje, os fundamentais da economia portuguesa não melhoraram ainda de forma estrutural, e os golpes de magia dos banqueiros centrais podem não passar disso mesmo…de golpes. Em suma, eu permaneço céptico, embora um bocadinho menos.

4 pensamentos sobre “uma batalha

  1. Miguel P

    E parabéns aos portugueses, que nas próximas eleições hão de muito possivelmente votar nos mesmos que nos puseram em bancarrota 🙂

  2. Pingback: uma batalha (2) « O Insurgente

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