uma batalha (2)

“Na conferência de imprensa para apresentar os resultados da operação, Maria Luís Albuquerque adiantou que 93% da emissão foi absorvida por investidores estrangeiros e apenas 7% por portugueses. EUA e Reino Unido dominaram ficando, cada um, com uma fatia de 30%. Investidores da Alemanha, Áustria e Suíça ficaram com 9% e outros 9% foram colocados junto de investidores asiáticos. Em relação ao tipo de investidor, a secretária de Estado do Tesouro avançou que 60% do valor colocado ficou nas mãos de gestores de fundos, 22% nas carteiras de ‘hedge funds’, 9% nos balanços dos bancos e 4% em seguradoras e fundo de pensões.” (via Diário Económico)

Ontem, num post anterior, tinha mencionado que seria curioso analisar o “breakdown” dos investidores que ficassem com a emissão de hoje. Pois bem, o facto de terem sido esmagadoramente investidores estrangeiros a ficar com a emissão é muito positivo, e revelador de que o recente “roadshow” foi bem organizado. Contudo, o facto de mais de 80% da emissão ter sido absorvida por fundos obrigacionistas (60%) e por hedge funds (22%) evidencia que Portugal está, sobretudo, a beneficiar do chamado “hot money” que, por sua vez, a boa conjuntura nos mercados internacionais de dívida está a permitir captar. Ou seja, como os títulos de dívida (soberanos e “corporates”) têm estado em alta desde meados do ano passado, as subscrições de fundos de dívida também têm aumentado, obrigando os respectivos gestores a colocar o dinheiro em algum lado. Ora, depois do “rally” dos últimos seis meses, as emissões soberanas das economias maduras pagam abaixo da inflação, as emissões das principais companhias mundiais estão ao nível da inflação, logo, é natural que o dinheiro fresco, o tal “hot money”, esteja a ser colocado em títulos um pouco mais arriscados (como os títulos portugueses) que beneficiam de taxas um pouco superiores às demais e superiores à taxa de inflação. Isto relativamente aos fundos convencionais de obrigações. Quanto aos “hedge funds”, esses vão genericamente a reboque das tendências de mercado e a reboque do que outros “hedge funds” vão também fazendo, no que se chama de “peer pressure” e “chasing performance”.

O problema com estes dois tipos de investidores é que, ao mesmo tempo que trazem o “hot money”, trazem também as “weak hands”. E, portanto, quando as subscrições se transformarem em resgates – e note-se que em termos dos spreads associados à dívida especulativa já estamos novamente ao nível de 2007! -, os gestores sentirão a pressão inversa àquela que sentem hoje, isto é, terão de gerar liquidez, vendendo títulos menos promissores ou mais arriscados. Quanto aos “hedge funds”, como dizia o personagem de Jeremy Irons num recente filme sobre “Wall Street”, “the music will stop”, e num ápice estarão todos a vender – o stock existente e o não existente através de apostas curtas – o que antes tinham comprado. E todos venderão tanto mais rapidamente e mais agressivamente quanto mais tarde tenham antes comprado.

Moral da história, esta emissão de hoje resulta do mérito associado à correcção do défice externo para valores próximos do equilíbrio, resulta da habilidade das pessoas que hoje lideram o Tesouro e o IGCP cuja experiência no mercado de capitais – em particular de Moreira Rato do IGCP – está a revelar-se especialmente preciosa, mas resulta sobretudo da euforia que se vive nos mercados internacionais de dívida. Assim, eu não colocaria demasiado ênfase no sucesso desta emissão, pois não fomos nós que vendemos a dívida, foram outros que a compraram (coisa distinta). Diria apenas que o sucesso nesta emissão, para já pontual, dará margem de manobra ao BCE para nos ajudar ainda mais ao abrigo do seu programa de compra de dívida soberana, para o qual, como se sabe, é necessário ser “bom aluno”. E como todo este movimento especulativo tem sido gerado pela acção dos bancos centrais, talvez essa renovada acção possa produzir novos e ainda mais espectaculares efeitos. Mas, enfim, isto é tudo psicológico, porque, bem lá no fundo, os portugueses sabem que estruturalmente pouco ou nada mudou. E a “morte lenta” que nos últimos meses tinha acelerado acentuadamente, pode simplesmente voltar a ser mais lenta.

4 pensamentos sobre “uma batalha (2)

  1. Guillaume Tell

    Outra moral:

    Os portugueses não querem gastar dinheiro deles no Estado “social” português.

  2. Pingback: Sobre o Regresso aos Mercados « O Insurgente

  3. Pingback: Eu não percebo nada de mercados – Aventar

  4. Pingback: Anónimo

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