Pedro Lains provoca “ataque cardíaco”

Pedro Lains citou e disponibilizou no seu blog um trabalho de Stéphane Sorbe, intitulado “Portugal – Assessing the Risks Around the Speed of fiscal Consolidation in an Uncertain Environment”.

Alguns comentários:

1. Trata-se de um “working paper” publicado pelo OECD Economics Departament Working Papers, não, como Lains afirma, um trabalho vindo “do coração da disciplina de Economia”. Não é, portanto, um relatório oficial daquela instituição mas isso não deve ser razão para, a priori, descartar quaisquer conclusões do autor. Vamos lá então!

2. Do referido paper, excerto do resumo (pag. 2):

This paper illustrates possible trade-offs between two different fiscal consolidation strategies in Portugal: sticking to the nominal fiscal targets in the EU-IMF programme or allowing automatic stabilisers to work, while sticking to the structural primary deficit targets implied by the programme.

Estamos, deste modo, perante um exercício sobre duas alternativas políticas de consolidação orçamental: i) atingir os limites nominais do défice negociados com a troika ou ii) permitir que os “estabilizadores automáticos” funcionem, enquanto se efectuam as reformas estruturais implícitas no Memorando de Entendimento.

3. Da seguinte conclusão (pag. 24):

Under most assumptions tested, a clear trade-off appears between sticking to nominal deficit targets or letting automatic stabilisers play. Both strategies would in most cases allow regaining control over public debt dynamics, but both entail risks, albeit of a different nature. Sticking to nominal targets implies risks of high unemployment. In contrast, letting automatic stabilisers play implies risks of spiralling public debt and high interest rates. Sensitivity analyses show that under either fiscal policy strategy, these risks would be reduced if the fiscal consolidation instruments less damaging for growth are chosen and if potential growth is stimulated through structural reforms.

Lains retira o seguinte:

O risco ou cai para o lado dos credores ou para o lado dos cidadãos. Mas, notem, não são os custos, a desconfiança, ou outras coisas negativas. É o risco. (…) E o que é que isto interessa? Interessa porque, ao se dar espaço aos estabilizadores automáticos, não são necessários ajustamentos selvagens como o que está em curso, nem a tal “reforma do Estado” dos 4 mil milhões.

No mínimo, um pouco falacioso! Como se viu no resumo acima, “dar espaço aos estabilizadores automático” não significa parar com a reforma estrututal do Estado. Não sendo as propostas de corte temporárias, julgo que a intenção (boa ou má) é realizar, como afirma o Governo, uma alteração na própria estrutura do Estado Social.

3. Além de se ler o resumo e conclusão é, também importante perceber a metodologia usada pelo autor (pag. 7):

The model has neoclassical foundations, in the sense that real GDP is anchored to its potential in the long-term, but incorporates Keynesian effects in the short-term, notably a negative impact of fiscal consolidation on activity.

O que isso significa? O autor explica (pag. 8/9):

The fiscal multiplier, i.e. the direct impact on growth of a 1% of GDP change in the structural primary balance (NLGXU), is assumed to be one. (…) A multiplier of one is rather high relative to estimates available in the literature. (…) Given the substantial uncertainties about the value of the multiplier, this paper presents results for alternative multipliers. The relatively high multiplier assumed in the baseline reflects the view that the depressed domestic demand and tight credit conditions that now characterise Portugal are likely to amplify the impact of fiscal consolidation.

Ou seja, no cenário-base o autor assume que uma descida  do balanço primário em 1% do PIB, tem equivalente movimento no PIB.

Será tal impacto realista? Lains – se efectivamente leu o estudo e não apenas o resumo e conclusão – quer fazer acreditar os seus leitores que sim.

Mas o Governo defende que os cortes serão efectuados nas “gorduras” e ineficiências do Estado. Se assim for, então o multiplicador para este tipo de despesas teria de ser, claramente, inferior a 1. Ora, o autor também realizou cálculos para esse cenário (pag. 20):

Sensitivity to the fiscal multiplier

Simulation results obtained with fiscal multiplier of respectively 0.5 and 1.5 are presented in Figures 6 and 7. The results suggest that the lower the multiplier, the lower the risk that sticking to nominal deficit targets will result in a deep recession and thus the more favourable this strategy appears. Indeed, with a multiplier of 0.5, the difference between the two fiscal policy strategies in terms of unemployment is relatively limited, while the debt dynamics are clearly more favourable in the “nominal targets” strategy.

Face ao exposto, cabe então ao Pedro Lains uma dupla tarefa: justificar porque devem os cortes propostos ser considerados “estimuladores automáticos” (i.e. multiplicador igual ou superior a um) e, ainda, porque devem aquelas medidas não ser consideradas como “structural primary deficit targets implied by the programme” [cenário ii) do ponto 2. acima].

7 pensamentos sobre “Pedro Lains provoca “ataque cardíaco”

  1. O multiplicador fiscal é mais um proxy para um conjunto de agregados que esconde a natureza da despesa. Se for investimento público produtivo, o multiplicador tem um efeito maior do que em investimento público improdutivo. O multiplicador fiscal que decorre de um investimento num porto de mercadorias ou numa auto-estrada Beja-Évora não é o mesmo. Da mesma forma, depende dos beneficiários das transferências fiscais.

    O que é curioso é que usando as próprias armas do Lains — princípios Keynesianos e o modelo do Mundell-Flemming — é imediato perceber que numa pequena economia aberta o multiplicador fiscal é muito abaixo de 1, até porque Portugal é um país com uma balança comercial desequilibrada que importa muito. Portanto, para além do crowding out do setor privado que decorre de expansão fiscal, há ainda o flowing out para comprar mais uns carros.

    Por fim, e usando ainda a terminologia keynesiana, a propensão marginal para o consumo em Portugal é atualmente baixa (por alterações das preferências inter-temporais de consumo dos agentes) e a propensão marginal para as importações baixou mas é estruturalmente elevada, o que reduz o valor do multiplicador fiscal.

    Espremendo bem, a única coisa que daqui decorre é que o aumento dos impostos foi prejudicial, porque anula o efeito de parte dos estabilizadores automáticos. Mas isso parece-me consensual.

  2. vivendipt

    Dados que contam:

    É extraordinário
    O Passos Coelho conseguir num ano em que corta 2700M€ na despesa pública conseguir um resultado económico melhor que o Sócrates conseguiu num ano em que aumentou a despesa pública em 6800M€.
    E disse no Parlamento o meu colega Teixeira dos Santos que o Sócrates (e ele) é que tinha rumo e era um génio da governação.
    Um génio do mal.

    Artigo a ler no económico-financeiro: http://economicofinanceiro.blogspot.com/2013/01/o-multiplicador-da-despesa-publica-no.html

  3. Parece que algum “liberal” insurgente decidiu censurar o meu comentrio anterior (presumo que seja proibido fazer referências à “qualidade” dos escritos do tal Campelo de Magalhães).

    Em relação à genialidade do autor do post, que parece considerar que o multiplicador adequado para uma economia em forte recessão é 0,5:
    “The main finding, based on data for 28 economies, is that the multipliers used in generating growth forecasts have been systematically too low since the start of the Great Recession, by 0.4 to 1.2, depending on the forecast source and the specifics of the estimation approach. Informal evidence suggests that the multipliers implicitly used to generate these forecasts are about 0.5. So actual multipliers may be higher, in the range of 0.9 to 1.7.”

    Fonte: http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2012/02/pdf/c1.pdf, página 41. Boas leituras!

  4. Sérgio Pinto, obrigado. Assim que tiver tempo vou ler a publicação sugerida.

    Entretanto queira reler com mais atenção o que escrevi, especialmente o seguinte:
    “Mas o Governo defende que os cortes serão efectuados nas “gorduras” e ineficiências do Estado. Se assim for, então o multiplicador para este tipo de despesas teria de ser, claramente, inferior a 1.”

  5. BZ, eu li com atenção o que você escreveu.

    1) Acho muito engraçado que, de repente, tome a voz “opressiva” do Estado como confiável. Se o governo diz, é porque é verdade, certo? Até porque, como sabemos, é impossível apanhar o PM em qualquer espécie de aldrabice. E, de qualquer forma, aqueles subsídios de desemprego e RSI’s são, evidentemente, gorduras (“aquela cambada de preguiçosos quer é não fazer nenhum, pá!”); tal como cortes na saúde, por exemplo – afinal, se morrerem uns quantos de entre os mais fracos, isso só serve para eliminar os maus genes.

    2) Acho extraordinário que você ignore (propositadamente?) que há boas razões para que o multiplicador dependa da conjuntura, e que tenderá a ser maior numa situação de recessão e consolidação fiscal a ocorrer simultaneamente em diversos países do que, por exemplo, no pico de uma expansão.

  6. Miguel Noronha

    “Parece que algum “liberal” insurgente decidiu censurar o meu comentrio anterior (presumo que seja proibido fazer referências à “qualidade” dos escritos do tal Campelo de Magalhães).”
    Esse tipo de atanques pessoais não são tolerados e serão sempre apagados. Se sentir grande necessidade de os fazer reserve-os para outro local. Excusa de me respomder.

  7. Miguel Noronha

    Caro Sérgio Pinto, como já deve ter reparado o seu novo comentário foi apagado.Continua a insistir e passa para pré-aprovação. Mais uma vez. Se quiser fazer comentários acerca de outras pessoas reserve-os para outros locais. Para o seu blog, por exemplo.

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