Farsas

Mais uma vez toda esta situação foi, na minha opinião, um grande tiro no pé do governo, que demonstra (mais uma vez) a sua inaptidão para conduzir este género de processos.

Em primeiro lugar, a farsa da “sociedade civil” como organizadora do evento: um evento curiosamente aberto por um secretário de estado, com a participação de outros, e encerrada pelo primeiro ministro. As circunstâncias que rodearam esta iniciativa permitem levantar uma questão: é legítimo ao governo impor em eventos público organizados por si regras de limitação à liberdade de expressão e condicionadoras da possibilidade de cada um dos presentes relatar como bem entender o que lá se passou? Quando supostamente pretende fomentar a discussão pública e deseja que a “sociedade civil” participe no processo? Ou afinal confirma-se que essa vontade foi expressa com reserva mental?

É que se afinal tudo não passou de uma reunião privada do governo com consultores e conselheiros escolhidos por este, que se faça à porta fechada e com o recato que o governo quiser – como está ao seu alcance e já as faz, vinculando os participantes às condições que entender (e a que estes admitam submeter-se), e não convide jornalistas. Caso contrário, caso entenda fazê-las em público, parece-me válida a tomada de posição dos jornalistas em abandonar o local no exacto momento em que essas restrições passariam a entrar em vigor.

Assim como o governo entendeu marcar uma posição sobre a questão, é perfeitamente legítimo que os jornalistas também queiram marcar a sua, nomeadamente a de que não são a central de comunicações do governo, uma cadeia de transmissão de informação formatada ou parte do séquito do governo, de que este pode por e dispor como lhe aprouver nas suas iniciativas públicas.

Na minha opinião, o que os jornalistas deveriam ter feito era ficar e relatar posteriormente integralmente o sucedido, recorrendo aos meios que achassem convenientes – por exemplo gravações e filmagens ocultas, ignorando liminarmente as restrições à citação, e enfrentando as possíveis repercussões (que seriam limitadas – sequer existindo – a possível limitação do acesso a eventos posteriores). De qualquer forma, o abandono do local também me parece uma resposta proporcional. Uma pena que não tivessem estendido a sua iniciativa a não transmitir nada em relação ao evento, nomeadamente em relação às intervenções inicial e final.

O jornalismo e os jornalistas portugueses são fracos, e são muito culpados da displicência e sobranceria com que são tratados, e na maneira como se deixam conduzir pelo Poder. Mas isso não justifica nem elimina a possibilidade e a justiça de criticar farsas destas promovidas pelo governo.

9 pensamentos sobre “Farsas

  1. Jose

    “possibilidade de cada um dos presentes relatar como bem entender o que lá se passou”

    “O jornalismo e os jornalistas portugueses são fracos, e são muito culpados da displicência e sobranceria com que são tratados, e na maneira como se deixam conduzir pelo Poder. Mas isso não justifica nem elimina a possibilidade e a justiça de criticar farsas destas promovidas pelo governo.”

    Sim, justifica. A manipulação diária da informação, a interpretação abusiva por parte de um largo sector da informação, a intencionalidade descarada de certas notícias pró esquerda, são por si só justificação para a limitação de direitos. Já de pequenos os pais ensinam a portar-se bem se se quer receber um prémio.

    Doa a quem doer, a liberdade e o respeito ganham-se e merecem-se, (ou não).

  2. JoaoMiranda

    Quem organiza uma conferência tem o direito de definir as regras. Sendo a participação voluntária e as regras conhecidas a priori, a violação dessas regras é uma violação de contrato. As regras até eram bastante adequadas ao evento em causa e ao ambiente de destruição do debate que se vive em Portugal.

  3. Conhecidas a priori às 19.21 da véspera, uma hora em que a agenda de qualquer redacção está mais que feita, nos diários se anda a fechar a edição e pelos vistos só num semanário repararam e até gostaram.
    Mas sem dúvida que quem organiza manda. O código deontológico dos jornalistas também.
    Qualquer editor que se preze, na posse atempada destes elementos só teria que mandar o repórter fazer jornalismo onde não servisse de pé de microfone. Porque quem quer debater sozinho que o faça sozinho, embora se recomende que organizem os debates num local mais sossegado. A China, por exemplo. Sei de uma empresa de electricidade que empresta as instalações.

  4. “Quem organiza uma conferência tem o direito de definir as regras.”

    Depende. Se for um privado, num evento privado na sua propriedade sem dúvida. Mas quando se trata de um evento organizado publicamente (e acho que não vale a pena entrarmos em polémicas sobre esse ponto), onde participam titulares de cargos públicos em exercício dos mesmos, pagos pelo dinheiro dos meus impostos e utilizando recursos do estado não, não acho que tenham esse direito.

    Aliás, é curioso ser o próprio estado o principal entrave a que os privados possam estabelecer esse tipo de regras, e agora querer ser um beneficiário dessa prerrogativa.

    Além disso, o conhecimento dessas regras não implica tacitamente a aceitação delas e a existência de alguma forma de contrato. Os jornalistas que lá se deslocaram podem pura e simplesmente ter tido o entendimento de que estas eram nulas e que não tinham de nenhuma forma de se vincular a estas.

  5. “A manipulação diária da informação, a interpretação abusiva por parte de um largo sector da informação, a intencionalidade descarada de certas notícias pró esquerda, são por si só justificação para a limitação de direitos. Já de pequenos os pais ensinam a portar-se bem se se quer receber um prémio.”

    Estas duas frases são todo um manifesto…

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