Leitura dominical

Os pontos do vigário, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

Foi com algum atraso que soube da vigília em prol da Praça da Alegria. Em países menos exóticos, organizam-se vigílias pelas vítimas de massacres ou calamidades naturais no Terceiro Mundo. Aqui, o sentimento converge quase inteirinho para os conteúdos da RTP. Antes, houve o pesar face ao extermínio do Câmara Clara. Agora, temos a mágoa suscitada pelo êxodo do referido programa de variedades, forçado a mudar-se do Porto rumo à malévola capital. De tragédia humana em tragédia humana, os defensores do “serviço público” não se limitam a exigi-lo: reivindicam uma geografia específica para cada produto.

Espantosamente ou se calhar nem por isso, a vigília em questão juntou, segundo as notícias, diversas, e supostas, celebridades. Todas inconsoláveis, claro. O bispo emérito de Setúbal, Manuel Martins, confessou “sentir uma raiva muito grande”, aliás o seu estado natural, e acusou o Governo de “esvaziar a voz do povo”. Um cozinheiro aparentemente famoso, Hélio Loureiro, assegurou que “deslocalizar um programa que representa uma grande fatia dos nossos emigrantes é perder um pouco da nossa cultura”. Emocionado, rezam os relatos, o apresentador da Praça da Alegria, Jorge Gabriel, lembrou os “milhares de idosos solitários que nos assumem como a sua única família”.

Perceberam? Eu também não. Se um programa passa a ser realizado em Lisboa por troca com o “Porto” (na verdade, Vila Nova de Gaia), o povo perde o pio? Os emigrantes são incapazes de sintonizar emissões lisboetas? Só existem idosos acima do Douro? E, aproveito para sugerir, não se convoca uma vigília pelos velhinhos cuja família se resume a uma sucessão hertziana de “rubricas” de aconselhamento (digamos), conversa fiada e as cruéis cantorias do padre Borga ou similares? Como já aconteceu com boa parte da nossa classe política, o alegado Norte continua a exportar porcarias para o Terreiro do Paço e, misteriosamente, não festeja a proeza.

Eu, que sou do Norte a sério (na perspectiva de um transmontano, o Monte da Virgem situa-se praticamente na Mauritânia), não me ofendo nada com a transferência daPraça da Alegria e a supressão da RTP Porto. Embora reconheça que a perfeição implicaria o fim da RTP em geral. É possível que alguns ainda a chorassem. Mas ninguém ficaria a rir-se – excepto os contribuintes.

Um pensamento sobre “Leitura dominical

  1. Nuno

    Como portuense não me preocupa minimamente a transferência da Praça nem o corte no orçamento da Casa da Música. Aliás, as perspectivas de poupança na factura fiscal são para mim muito mais importantes que qualquer afirmação da região patrocinada pelo Estado. Mas esta deslocalização toca fundo porque tem um contexto, um centralismo profundo, uma abordagem ao desenvolvimento económico-social em spill-over a partir da capital que não só é profundamente falhada como é desrespeitadora dos princípios do localismo e do não dirigismo estatal

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