Demagogias e populismos

O interesse recente das “elites” (?) do Norte pelo programa “Praça da Alegria” ou pela polémica da Casa da Música é algo de fascinante. Não me interpretem mal: tanto quanto tenho lido, a decisão de cancelar o programa e trazê-lo para Lisboa faz pouco sentido, já que o “Praça da Alegria” será bastante rentável, pelo que percebo a indignação dos visados. A Casa da Música, por seu lado, é um problema desde a sua fundação, pelos mal entendidos que sempre existiram sobre o papel do financiamento público e privado da instituição, numa época de vacas magras, para o Estado e para os próprios mecenas, tornando a discussão mais complexa. A razão do meu espanto prende-se, sobretudo, com o tipo de bandeiras que se escolhem, e as prioridades seleccionadas para combater o centralismo. Havendo tantas alarvidades – relevantes – levadas a cabo pelos Poderes Centrais – públicos e privados – as bandeiras escolhidas para denunciar a macrocefalia ajudam a explicar porque razão o Norte do país tem vindo a perder peso político e o interesse e apoio, até, dos próprios cidadãos a Norte, que não se revêem neste tipo de vipes dos seus supostos representantes regionais. Numa região fustigada pela pobreza, pela degradação da habitação, pelo impacto no emprego das falências e da insuportável carga fiscal, ver que o que acordou os políticos a Norte foi a deslocalização de um programa bem sucedido que entretém reformados e donas de casa, e as discussões e demissões na Casa da Música, com todo o respeito que os envolvidos merecem pelo bom trabalho desenvolvido, é deprimente.

12 pensamentos sobre “Demagogias e populismos

  1. Alexandre Carvalho da Silveira

    Por alguma razão o Porto foi durante muitos anos chamado (injustamente, na minha opinião), pelo petit nom de “aldeia da ponte nova”. E no tempo em que o Porto era a cidade europeia com mais Lamborghinis por mil habitantes. Há tiques que nunca se perdem!

  2. lucklucky

    Como sempre com o “Norte” é só encenação. Dêem-nos umas batatinhas que nós nos calamos já a seguir.

  3. Rui Cepêda

    Não me parece nada que Paulo Rangel prefira o aumento de impostos à migração de um programa de televisão ou às dificuldades da casa da música. Sucede que estes dois aspectos menores são de natureza regional e mobilizam mais fàcilmente o descontentamento, exactamente por se tratar de assuntos locais, particularmente quando não se conhecem correspondentes dificuldades no CCB. De resto é injusto criticar Paulo Rangel neste domínio, dado saber-se da sua “guerra” pela manutenção da ANA no Porto separada da Portela.

  4. José António Salcedo

    Visto de longe, Portugal é muito pequenino. No entanto, sugeria que terminassem com aberrações como o financiamento público de muitas fundações que servem exclusivamente interesses privados. A de Mário Soares, por exemplo.

  5. Caro Rui Cepêda, este texto não é sobre Paulo Rangel, em específico, embora realmente as suas recentes afirmações o coloquem no perímetro das críticas. O post escrevi-o por haver uma tendência e um movimento de gente do qual Paulo Rangel é o mais recente defensor, mas talvez até do que menos merece críticas, pois tem posições sobre outras matérias da política a Norte com maior relevância, como é o caso da ANA, e outras. Quando quero criticar pessoas em concreto, em geral, coloco os nomes. Dito isto, não deixo de considerar um disparate a forma exagerada como se mostra indignação no tema do Praça da Alegria.

  6. Nogueira da Costa

    Honestamente não lhe reconheço razão na “parolização” do assunto.
    Sabe muito bem que as questões mais importantes são quase sempre coisas com pouco impacto mediático, que por muito “doutor” e político que apareça a falar no assunto, a iliteracia económica geral impede que o que é importante cause revolta na população. Daí que a situação da praça da alegria – e como esta, a menos mediática situação da red bull air race – deva ser aproveitada como bandeira. Porque é uma boa bandeira no sentido prático da coisa, visto reformados e donas de casa constituírem uma grande fatia da população votante!

  7. Orlando

    Acho fascinante quando se tenta abordar os assuntos com ligeireza, esquecendo-se do problema fundamental.

    Nao perceber que a submissao do AFSC aos planos para a Portela que deriva nesta privatizacao em bloco (unica na Europa), de forma a justificar grandes obras em Lisboa (a Vinci agradece), a criacao de uma holding para os portos, submetendo Leixoes, um exemplo de gestao e sempre em crescendo, a financiar os portos deficitarios mais a sul e ficar sujeito aos ditames estratégicos de quem ise sentar nos escritorios da holding com vista para o Tejo, o desinvestimento na CM, onde apesar de arrecadar mais receitas, mais publico, ter uma projecçao internacional superior que o CCB, tem um corte muito superior, sintimatico do desejod de instalar o deserto cultural a norte, e a Praca da Alegria que o fim representa nao a perda pelo programa em si, mas que tal significa o abandono da RTP Porto e o fechar total do centralismo do espaco mediatico.

    Em resumo, submeter a infrasestruturas vitais e espaços mediatico-culturais de referencia da Regiao mais populosa do Pais, a que mais exporta e a que tem um superavit economico aos ditames da corte que gravita em torno do Terreiro do Paco, sujeitando a Regiao Norte a um futuro negro, sem argumentos para competir economicamente, com gravissimas consequencias na coesao nacional.

    Quem nao percebe isto ou é ignorante ou é beneficiario desta politica criminosa.

  8. Orlando, subscrevo grande parte dos comentários. Ou seja, perceberia uma reacção em massa ao que se passa com a ANA, ou com Leixões. Acho um parolismo que seja um programa como a Praça da Alegria, ou a Casa da Música, a despoletar o protesto.

  9. Rui Cepêda

    Caro Rodrigo Adão da Fonseca

    Tem razão. Efectivamente não identificou ninguém em especial como destinatário(s) do seu post. As minhas desculpas. A conjugação da leitura apressada e do assunto tratado há pouco na televisão por Paulo Rangel, traíram-me. Daqui decorre que nunca me passou pela cabeça duvidar da sua frontalidade.
    Quanto ao assunto propriamente dito, mantenho a minha opinião. Naturalmente que há outros e mais importantes temas que podem, devem e têm sido tratados por Paulo Rangel, como por Rui Moreira e outros, poucos é verdade.
    Como sabe não há muito mais gente capaz que se disponha a lutar por esta causa.
    De resto como creio que também sabe, a política no Porto não é muito bem vista. Como raramente foi, com excepção de algumas capelinhas que se detestam e fazem da política um mero exercício intelectual, que não se traduz em mais do que a projeção dos seus dilatados egos.
    A casa da música de cuja arquitectura não gosto, não tem só relevância local.
    E não devemos esquecer as “praças da alegria” de que muitos reformados e donas de casa gostam, têm esse direito e ainda por cima votam e quando se trata de mobilizar são muito mais eficazes. De resto por detrás do fim deste programa a Norte, o ex-libris da RTP Porto, (o resto no geral sendo pior que mau, pode melhorar muito), estará a preparação do fecho das emissões locais.
    E aqui reside a verdadeira essência da questão.
    A descentralização independentemente da forma que possa revestir é o que no fundo se pretende, como única forma de contrariar a cada vez maior força centrípeta de Lisboa. Estes casos não são mais do que a gota de água que os casos da ANA, porto de Leixões, fundos do CREN e outros provocaram.
    Por último não acompanho aqueles que acham terem os Governos a intenção deliberada de prejudicar o Porto. Isso já é “nortada”. Não, a tentação é a de centralizar para melhor controlar o poder, e por isso mesmo é necessário pensar a sua prudente reorganização.

    Melhores cumprimentos
    Rui Cepêda

  10. lucklucky

    Então que digam que os impostos pagos pelo Porto fiquem no Porto. O resto é tudo João Jardinices. Ou se quisermos à escala Europeia Portuguesices.

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