Leitura dominical

Nacional-cançonetismo, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

(…) Vantagens das SMS? Ocorre-me uma: apesar de tudo, são preferíveis às formas comunicacionais que se lhes seguiram e começam a atenuar o respectivo uso. Ao que consta, 2012 foi o primeiro ano em que diminuiu a quantidade de SMS enviadas, em parte graças aos modos alternativos de as trocar, em parte graças às chamadas “redes sociais”. Comparadas com os tiques destas, as patetices das SMS deixarão saudades. O Facebook, de longe o instrumento favorito da maioria, ultrapassou o estatuto de coisinha irritante para se tornar numa espécie de celebração da toleima.

Como se não bastasse a tendência da coisa para a camaradagem postiça, dos “amigos” imaginários ao imaginário consolo dos “likes” (e a omissão dos “dislikes”), a coisa também tende para fomentar alucinações, uma dimensão alternativa que só existe nas cabeças dos utilizadores. Um exemplo recente prende-se com a reacção a certas declarações da presidente do Banco Alimentar (BA), que no Facebook geraram fúrias épicas e, nos casos terminais, o boicote aos donativos para a instituição.

Já é digno de pena o estado mental de sujeitos que, em prol dos pobres, apelam a que se mantenham os pobres à míngua. A sorte é que os estados de alma do Facebook não se repercutem no mundo a sério, onde os turbilhões emocionais de alienados dão em nada: a recente recolha de alimentos do BA atingiu os máximos de sempre, o que não sendo um bom indicativo da prosperidade do País é um indicativo razoável da sanidade da maioria dos seus habitantes. Conforme a ausência de consequências práticas do boicote virtual ao Pingo Doce já demonstrara, a histeria acumulada na internet esgota-se na internet. Resta apurar se o Facebook criou multidões de histéricos ou se apenas lhes concedeu abrigo e voz. Em qualquer das hipóteses, a indiferença é um prémio justo. (…)

2 pensamentos sobre “Leitura dominical

  1. Sebastien De Vries

    O Facebook tem uma importantíssima função: nunca tantos tiveram a opinião de tantos. Acaba-se por perceber porque chegamos à bancarrota…

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