Da “elite” de sempre

A carta dos 70, por Adolfo Mesquita Nunes.

(…) Eles é que sabem, os 70. Não foram eleitos, os 70; não foram a votos, os 70; não pediram mandato, os 70; nem receberam procuração, os 70. Mas isso são pormenores: eles é que sabem. Porque sim. Talvez por serem de esquerda.

Note-se, em segundo lugar, o desprezo, porque é disso que se trata, com que os signatários tratam a Constituição e, já agora, os portugueses (sim, os portugueses).

A Constituição tem regras sobre a nomeação e demissão do governo – regras que os signatários deviam conhecer, até porque andam sempre com a Constituição no verbo – e que de forma alguma autorizam uma espécie de conselho de sábios a arrogar-se o direito ou dever ou poder de determinar o momento a partir do qual um governo deve ser demitido ou pedir a sua demissão.

E essas regras pressupõem, basta lê–las, a democracia parlamentar. É o parlamento que representa, para o que ora nos interessa, a vontade popular. E é no parlamento que se formam as maiorias necessárias para manter ou não um governo.

Aquilo que os signatários da carta demonstram pelo parlamento e, por isso, pelos portugueses que o elegeram, não é outra coisa senão desprezo, como se o parlamento não servisse para nada ou, pior, como se o parlamento não representasse a vontade popular.

Serei só eu a considerar grave que haja deputados (sim, há deputados entre os signatários) a querer, através desta carta, obter algo que, negado nas urnas, nem sequer tentaram no parlamento?

Note-se, enfim, a displicência dos signatários.

Críticas, é só lê-las espalhadas pelos parágrafos da carta. Soluções alternativas, daquelas que se podem propor no parlamento, estilo faça-se x ou legisle-se no sentido y, é que está quieto. Mande-se abaixo o governo, porque sim e porque não é de esquerda. Para fazer o quê é que não se sabe. Parece que não é preciso e que basta dizer crescimento, crescimento, crescimento.

Esta carta, no consenso que arrogantemente pretende iludir e no espelho que procura ser da elite portuguesa, funciona afinal como paradoxo. (…)

8 pensamentos sobre “Da “elite” de sempre

  1. mggomes

    “Aquilo que os signatários da carta demonstram pelo parlamento e, por isso, pelos portugueses que o elegeram, não é outra coisa senão desprezo, como se o parlamento não servisse para nada ou, pior, como se o parlamento não representasse a vontade popular.”

    Interessante esta frase.
    Será que este nefelibata acha que nós esquecemos o voto favorável no orçamento?

    É que a frase transcrita poderia, com toda a propriedade, ser adaptada para:

    “Aquilo que os deputados do CDS demonstram pelos portugueses que os elegeram, não é outra coisa senão desprezo, como se o parlamento não servisse para nada ou, pior, como se o parlamento não representasse a vontade popular.”

    Bardamerda!

  2. jhb

    E eu que pensava que os liberais defendiam a liberdade de expressão… e também pensava que esta constituição socialista não servia para nada… Mas afinal parece que:

    a) Há que calar e aguentar que a liberdade de expressão é só para alguns (aqueles que pedem que se acabe com o estado, por exemplo)
    b) A constituição proíbe os cidadãos de pedir a queda do governo a não ser no momento certo, ou seja, quando o governo deve cair.

  3. jhb

    “A Constituição tem regras sobre a nomeação e demissão do governo […] e que de forma alguma autorizam uma espécie de conselho de sábios a arrogar-se o direito ou dever ou poder de determinar o momento a partir do qual um governo deve ser demitido ou pedir a sua demissão.”

    Parece-me bastante claro…

  4. Paulo Pereira

    Acho que dão demasiada importância à opinião legitima de 70 pessoas ou mesmo 1000 pessoas.

    O pior de tudo não é a incompetência do governo, é o abandono dos programas eleitorais por parte do PSD e do CDS.

  5. “é o abandono dos programas eleitorais por parte do PSD e do CDS.”

    O Paulo julga que uma mentira repetida 1000 vezes se torna verdade. Em cada socialista, há um soviete escondido.

  6. jojoratazana

    O programa eleitoral do PSD, é aquele que o governo implementou?
    Pronto lá fui enganado outra vez, afinal os votantes do PSD e CDS tiveram acesso ao programa eleitoral que acabou por ser pdsto em prática.
    Lá andei eu mil vezes a repetir mentiras.
    Soviete escondido eu, já agora a senhora é o quê?
    Uma semifusa?

  7. NTS

    Liberal que se preze, só quer que este governo caia depressa, e que os deputados tachistas (como o AMN) sejam corridos.
    Se a carta dos 70 servir para isso… Óptimo !

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