Condições Gregas para Portugal?

O meu artigo de hoje no Diário Económico.

Benefício?

Primeiro, a questão de fundo: toda esta “austeridade” é simplesmente uma contenção do défice – ou seja, do ritmo de crescimento da dívida – estando Portugal ainda muito longe de começar a pagar 1 Euro que seja. Convém sublinhar ainda que muito desse dinheiro que nos é emprestado é depois gasto de forma não produtiva. Por exemplo, Portugal continua a gastar mais de 2% do PIB nas forças armadas – e enquanto Espanha gasta 1% do PIB, Portugal em 2013 tem orçamentados mais 19% para a Defesa. Portugal pede emprestado para pagar inúmeras despesas sem qualquer retorno e demonstra uma incapacidade preocupante de cortar 5% (ou 4.000 milhões) que seja no Orçamento.

E qual é a solução da Europa? Permitir a Portugal fazê-lo durante mais tempo. Adiar a maturidade dos empréstimos 15 anos e adiar o pagamento de juros por 10 anos. Condenar Portugal a viver neste sufoco financeiro não 3 anos mas antes 18. Incapaz de impor a Portugal reduções do défice e tendo em vista os ganhos financeiros que consequentemente t
eria, os líderes Europeus oferecem o “benefício” de podermos pagar num prazo mais dilatado. Ou seja, de andarmos a trabalhar para os credores mais tempo.

A isto eu digo não. Não podemos continuar a taxar o sector privado de todos os recursos necessários ao seu crescimento. Não podemos continuar a perpetuar a lógica dos direitos adquiridos, efectivamente convidando à emigração a “geração mais bem preparada de sempre”. Temos sim que cortar na despesa estrutural, obter superávites e começar a pagar o que devemos. Pois como conclui o relatório do FMI “Successful Austerity in the United States, Europe and Japan”, a melhor forma de reduzir o rácio Despesa/PIB é um ajustamento fiscal gradual.

Relativamente à redução de 10 pontos base das comissões pelos empréstimos do FEEF – uma poupança de mais de 300 milhões para Portugal – creio que Portugal a mereceu e gostaria que a Europa a concedesse. Era uma questão de igualdade de oportunidades, mas o meu realismo leva-me a duvidar dessa hipótese.

Ricardo Campelo de Magalhães, Consultor Financeiro

Qual é a solução da Europa? Portugal trabalhar para os credores mais tempo. A isto eu digo não. Temos sim que cortar na despesa estrutural.

– Anexo –

Successful Austerity in the United States, Europe and Japan, Conclusão na pág 32:
Thus, a gradual fiscal adjustment, with a balanced composition of cuts to expenditure and tax increases boosts the chances that the consolidation will successfully (and rapidly) translate into lower debt-to-GDP ratios. Monetary policy can likely help alleviate further the pain of fiscal withdrawal if it is used proactively via reduction in the real interest rate.

Leituras complementares: João Galamba escolhe a sua cerejaA cereja de Galamba.

4 pensamentos sobre “Condições Gregas para Portugal?

  1. tric

    ainda cita o FMI !!!??? com o caso da Argentina que lhes entrou pelos olhos adentro…deixou e até apoiou que o Estado se continuassem a endividar ainda mais…inacreditável o FMI !!!

  2. Guillaume Tell

    É muito simples: a despesa pública tem de baxar pelo até 35% do PIB. Porquê?

    Este é o nível real de receitas do Estado (o nível de impostos que os portugueses conseguem aguentar), os 7 ou 8% que restam são as receitas extraodinárias. Ou seja isto vai desaparecer do mapa um dia desses.

    Porquê que temos de descer até lá?

    Só assim temos a certeza de estabilizar a dívida pública. O BIS apresentou um estudo em 2010 que para Portugal volte a ter o rácio de dívida pública que tinha em 2007 terá de apresentar um excedente orçamental de 5,7% em 5 anos, 3,1 em 10 anos e 1,3 em 20 anos (isto admitindo que a economia cresca a 0%).

    E se declaravamos a falência, para assim não pagar juros e assim evitar de cortar na despesa social?

    Em 2013 a factura com os juros deverá rondar os 5% do PIB, ou seja continua a haver uma diferença de pelo menos 5% para a despesa chegar ao nível da verdadeira receita do Estado.

    E este tipo de cenários é acreditar que os nossos credores vão aceitar não receber nada, ora eu quero recordar-vos que em 2011 50 mil milhões de euros dívida pública portuguesa eram detidos por portugueses, cerca de 26% do total. E quem detem esse total? Os bancos, os seguros, as famílias e o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, ou seja se o Estado tinham de parar de pagar juros o que aconteceria:

    – Bancos iriam à falência ou reduziriam fortemente os empréstimos.
    – Os seguros, quando não iriam à falência, seriam obrigados a reduzir a sua oferta de prestações e a aumentar as cotizações.
    – As famílias perderiam parte das suas poupanças, seja aquela que está nos bancos ou nos certificados de aforro.
    – A Segurança Social deverá reduzir os seus encargos e aumentar as suas receitas para não ir à falência > menos pensões e apoios sociais e mais TSU

    E isto, volto a repetir, é o cenário optimista, em que os credores aceitam perder tudo, agora deixo-vos imaginar se exigirem contrapartidas (exemplo extremo, quando a Alemanha foi derrotada em 1945 no contrato das reparações de guerra foi estipulado, entre outras coisas, que 4 milhões de alemães seriam mobilizados para compensar os estragos).

    http://www1.ionline.pt/conteudo/114981-portugueses-tem-50-mil-milhoes-da-divida-publica
    http://dissidentex.wordpress.com/2012/12/04/quem-detem-a-divida-publica-portuguesa-o-cds-e-o-psd-tem-que-ir-embora/

    E que tal nacionalizar a banca?

    Ela está também endividada, e muito em 2011 a dívida externa dos bancos portugueses representavam 114% do PIB (sector privado não financeiro andava nos 34%), ou seja os nossos bancos estão fortemente endividados, e se os nacionalizavamos todos os portugueses seriam chamados a pagar aquilo. Àlias se o Estado ainda não foi à falência foi porque a banca portuguesa comprou em massa essa dívida (apenas 2% da dívida pública a curto prazo é detida pelos estrangeiros). E se eles o fizeram não foi só para beneficiar dos lucros que retiram disso (compram a 1% ao BCE e vendem a 9 ou 10), mas porque se não o fazem o Estado vai à falência, perdem o dinheiro que lhe emprestaram pelo passado e vão eles próprios à falência porque não têm activos suficientes (a nossa poupança anda pelas ruas da amargura). Ou seja a única utilidade que teriamos em nacionalizar a banca seria termos a certeza que não teriamos de pagar as suas dívidas depois.

    http://esquerda-republicana.blogspot.ch/2011/04/principal-problema-e-divida-privada.html
    http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056690.html

    E porque não monetizar a dívida, o BCE a comprar directamente?

    De uma certa forma já o anda a fazer, na Grécia nomeadamente, e o acordo com o triunvirato foi montado para transferirmos a propriedade da dívida pública para ele próprio. O problema é que isso cria riscos inflacionistas, por enquanto moderados porque essa compra feita pelo triunvirato é “legal” (a monetização da dívida é ”ilegal” porque é puramente artificial), mas com a monetização vamos criar inflação, o que é uma outra forma de cobrar impostos e reduzir despesa pública visto que tudo custa mais caro. Ou seja os efeitos são na prática iguais.
    Mas o pior é depois! Porque se o BCE decidisse comprar essas dívidas como é que faria depois para se livrar disso? É certo que os bancos centrais podem criar moeda tanto como querem para esse tipo de situação, mas se ninguém aceitar comprar o euro? Porque é muito bonito imprimir papel, mas em sí o papel não vale nada, tem de ter garantias… Pois tereis uma ideia do que é viver no Zimbabué.

    Por isso não há volta a dar, temos de baixar o mais rapidamente possível a despesa pública para cerca de 58 mil milhões de euros. Recordo-vos só que 58 mil milhões é o que gastou Guterres em 2001, e que eu saiba ninguém acusou até agora Guterres de “insensibilidade social”.

  3. Paulo Pereira

    A redução dos juros cobrados pela Troika obviamente seria benefica para Portugal.

    A moratória na cobrança de juros, com possivel e mais que provavel perdão desses juros seria benefica.

    O aumento do prazo de pagamento dos emprestimos seria benefica porque reduziria a pressão no refinanciamento da divida em 2014 em diante.

    Manter a situação actual de redução do PIB continuadamente vai deprimir o sector privado de forma extrema e isso terá consequências na capacidade de gerar receitas fiscais , cono se verificou em 2012.

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