A Cereja de Galamba

https://i0.wp.com/www.vamworld.com/file/view/cherry.jpg/371253746/cherry.jpg

artigo de Galamba no DE motivou um artigo meu chamado “João Galamba escolhe a sua cereja” que achei que endereçava o assunto de uma forma satisfatória, mas que recebeu o seguinte comentário (ver comentário #3, do “jhb”):

Confesso que ao ler este post esperava uma refutação ao tal relatório do FMI baseada em factos ou em algum erro metodológico, mas não, parece que o relatório está errado porque não chega às conclusões certas…

Ora, eu não comentei o artigo porque eu não tenho tempo para comentar todos os artigos publicados em todos os locais, mas já que o “jhb” acha que isso é relevante, vamos lá ver o referido relatório (e a respectiva conclusão, que talvez surpreenda quem só leu o estimulador e não o relatório original).

O relatório chama-se “Successful Austerity in the United States, Europe and Japan” e tem como autores Nicoletta BatiniGiovanni Callegari e Giovanni Melina. Podem ler aqui o Resumo:

The output effects of 2009 fiscal expansions have been hotly debated. But the discussion of fiscal multipliers is even more relevant now that several European countries have had to quickly retract their stimulus measures in an effort to regain market confidence. Using regime-switching VARs we estimate the impact of fiscal adjustment on the United States, Europe and Japan allowing for fiscal multipliers to vary across recessions and booms. We also estimate ex ante probabilities of recessions derived in association with different-sized and different types of consolidation shocks (expenditure- versus tax-based). We use these estimates to understand how consolidations should be designed to be most effective in terms of permanently and rapidly reducing a country’s debt-to-GDP ratio. The main finding is that smooth and gradualconsolidations are to be preferred to frontloaded or aggressive consolidations, especially for economies in recession facing high risk premia on public debt, because sheltering growth is key to the success of fiscal consolidation in these cases.

Keywords: Fiscal consolidation, fiscal multipliers, growth-friendly fiscal policy

Críticas ao que disse o “especialista” da cafeína económica no Diário Económico:

  1. Ao contrário da ideia que fica do artigo no Diário Económico, a intenção dos autores do FMI – como pode ser lido directamente do resumo do estudo escrito pelos próprios autores – é o de estudar como reduzir o rácio dívida/PIB, e não como aumentá-lo com mais crédito.
  2. O autor do artigo no Diário Económico cita números (2.6 e 0.35) como multiplicadores de despesa que, na verdade, são os valores extremos de intervalos. Como podem facilmente consultar na página 55 do mesmo (imagem abaixo) esses são números muito escolhidos. Reparem que por exemplo o 2.6 é o valor apenas para o caso mais grave, o da França. E apenas durante recessões. E apenas durante o 1º trimestre. E sem considerar a diferença face ao valor de referência.
  3. O autor do artigo do Diário Económico ignora todos os momentos em que o estudo tem resultados contraditórios entre si e contraditórios com outros estudos, que os autores obviamente referem por todo o artigo, citando o resultado que lhe interessa e ignorando inúmeras frases que o deveriam fazer pensar. Por exemplo, reparem nestas frases:
    a) Pág 22: “Consolidations operated via cuts in spending during recessions tend to raise the real interest rate in the Euro Area, Japan and the United States. During a recession, a government spending cut (rise) puts downward pressure on prices and inflation, pushing up the real interest rate. This finding contradicts in part findings from simulated models (e.g. IMF, 2010)”
    b) Pág. 22: “Finally, for Japan, France and the euro area (in the expansion regime), a tax increase initially (and for France persistently) raises output marginally, although for Japan and the Euro Area the long-run cumulative output effect of tax hikes is negative as expected and as in other countries in our sample. One reason may be that the tax hike is accompanied by a rise in government expenditure in the short run that propels output momentarily ” [negrito dos autores]
    c) Pág. 32 (Conclusões): “Thus, a gradual fiscal adjustment, with a balanced composition of cuts to expenditure and tax increases boosts the chances that the consolidation will successfully (and rapidly) translate into lower debt-to-GDP ratios.”
  4. Em conclusão, o relatório é um artigo académico, cheio de hipóteses e resultados práticos contraditórios que não deve ser usado para debate político, muito menos assim: escolhendo números a belo prazer e ignorando as conclusões.
    Se for usado para debate político, então terão de ser referidas as conclusões que referi em 3c).
    Quem usa e abusa do relatório como o autor do artigo do DE usou deverá repensar a sua estratégia ou evitar publicá-la.

No fundo, deixar o dinheiro com o sector competitivo – que o gerou – em vez de retirá-lo e atribuí-lo a qualquer pessoa com menos jeito para o negócio mas com melhores ligações políticas… não vos parece, mesmo aos de vocês que não são economistas, que tem melhores resultados? Será que é preciso um curso de economia e longos meses de reflexão para achar que – de um ponto de vista matemático, e não considerando aqui questões sociais que talvez também fossem de considerar – mas como eu ia dizendo, de um ponto de vista matemático não vos parece que terá muito melhor resultado? Digam-me que sim, por favor.

Cherry de Galamba

Leituras complementares: João Galamba escolhe a sua cereja, Condições Gregas para Portugal?

20 pensamentos sobre “A Cereja de Galamba

  1. Sérgio

    “Em conclusão, o relatório é um artigo académico, cheio de hipóteses e resultados práticos contraditórios que não deve ser usado para debate político.” … É conhecer pouco um socialista portuga! Por amor aos nossos impostos, eles utilizam estudos académicos bem seleccionados, aplaudem-se mutuamente e seriam capazes de parecerem acreditar em qualquer mito, milagre ou cosmogonia. Tudo por amor…

  2. jhb

    Caro Ricardo Campelo de Magalhães,

    Agradeço ter-se dado ao trabalho de publicar este post com detalhes do relatório. Eu simplesmente queria dizer que não se deve, na minha opinião, menorizar um trabalho só porque concluiu em contra da maioria, sem antes escrutinar os dados e os métodos que foram utilizados. Obviamente, o facto de chegar a conclusões contrárias à da maioria coloca-o debaixo de um exame mais atento, mas mais nada.

    Em relação ao cherry-picking do Galamba, se você se refere ao facto de ele ter citado apenas um estudo, aí deve dar-lhe razão, se bem que se os outros estudos existentes (e eu obviamente não sei quais são) partem de pressupostos que não se aplicam à situação actual então não sei se serão relevantes ou não.
    No caso de o cherry-picking do Galamba ser em relação ao números dessa tabela, então não estou de acordo porque os números que ele cita (2.6 e 0.35) parecem-me que foram retirados do caso para a zona euro (razoável, porque Portugal pertence à zona euro), para o caso de uma recessão (razoável também porque nos encontramos numa) e para um horizontal temporal de um ano (um valor razoável também). Para este caso, a tabela dá os valores de -2.56 e -0.35 e admito que ele tenha arredondado para -2.6, o que não faz muita diferença porque não se altera a magnitude relativa dos dois valores.
    De resto, a tabela mostra que os cortes na despesa tem um efeito negativo, no geral, de cerca de uma ordem de magnitude mais elevado que uma subida de impostos, que me parece ser a ideia principal do artigo do João Galamba.

  3. Joaquim Amado Lopes

    Ricardo,
    Os socialistas não gostam de matemática. A “realidade” do wishful-thinking é-lhes mais agradável.

  4. jhb

    Mas a magnitude relativa entre ambos é basicamente a mesma: uma ordem de grandeza. Não se pode afirmar que haja cherry-picking neste caso, a meu ver.

  5. Manobra de Guerra Cultural:

    Ter um “especialista” em assuntos económicos que periodicamente escreve artigos cheios de erros e contradições flagrantes, que deixe os críticos entretidos a rebatê-lo, enquanto a verdadeira discussão segue em outros fóruns e focando os assuntos que realmente estão em causa.

  6. FilipeBS

    NÃO, NÃO E NÃO!!! Tirar dinheiro a quem o produziu (muitas vezes explorando o ser humano de uma forma neo-colonial), e redistribuir pela sociedade dá muito mais resultados!!! Só não vê quem não quer, òh Campelo Magalhães. Desvanece desigualdades e alavanca a economia ao estimular a procura interna. Além disso, é preciso fazer mais investimento reprodutivo, que é coisa que não se tem feito em Portugal, tal como fazer mais autoestradas para o interior e de ligação Faro-Lisboa-Porto-Braga-Vigo, mais Magalhães, mais rendimento-mínimo, mais canais temáticos da RTP (para educar o povo), mais dinheiro para o PCP, que pelo vistos está com défice há uns anos, mais dinheiro para a Fundação Mário Soares, mais estádios da bola, particularmente para Aveiro, Faro e Leiria, e um novo edifício transparente no Porto.

  7. ricardo saramago

    Independentemente dos pressupostos particulares de cada modelo, dos dados considerados, e da aderência testada à realidade passada, todos estes exercícios têm que ser utilizados com extrema honestidade intelectual e cautela ao nível das conclusões que extraímos deles.
    O sr. Galamba manifestamente não é conhecido pela honestidade e pela civilidade da argumentação.
    Se ele gosta de fazer estes números perante as plateias de fiéis e correlegionários, daí não vem mal ao mundo.
    Como disse alguém, a aplicação destes modelos ao futuro assemelha-se à condução dum automóvel olhando para a estrada pelo vidro trazeiro.

  8. jhb

    “O sr. Galamba manifestamente não é conhecido pela honestidade e pela civilidade da argumentação.”

    Ataques ad hominem também não são grande demonstração de “extrema honestidade intelectual”.

    “Como disse alguém, a aplicação destes modelos ao futuro assemelha-se à condução dum automóvel olhando para a estrada pelo vidro trazeiro.”

    Pois vá dizer isso ao FMI…

  9. Lobo Ibérico

    @jhb,

    “O sr. Galamba manifestamente não é conhecido pela honestidade e pela civilidade da argumentação.”

    Ataques ad hominem também não são grande demonstração de “extrema honestidade intelectual”.

    U DON’T SAY?

    https://oinsurgente.org/2012/11/09/se-pretendem-realmente-fazer-algo-coisa-verdadeiramente-util/

    “@jhb,

    “Vamos, vamos… Misturar “espírito científico e dúvida metódica” com Ayn Rand na mesma frase.
    Temos aqui um estudante de Engenharia Electrotécnica com um grave curto-circuito na cabeça…”

    Ad hominem, outra vez? Sim, por favor!
    Strike 3 and you’re out.

    Comentário por Lobo Ibérico — Novembro 10, 2012 @ 11:49”

    “HJB: ” em vez de insultar, tente argumentar…”
    HJB:”Temos aqui um estudante de Engenharia Electrotécnica com um grave curto-circuito na cabeça…”
    HJB: “Já cá faltava essa sociopata”

    Em conclusão, bem prega Frei Tomás, ouve o que ele diz, não faças o que ele faz.

    Comentário por Aladin — Novembro 10, 2012 @ 12:13”

    Nice try.

  10. jhb

    “@jhb,

    para quem disse que era um doutorando em Física pelo CSIC numa thread anterior…

    “Em relação à Ayan Rand, nunca a li, mas já li sobre. Sabe, não é preciso provar caracóis para saber se se gosta ou não. ”

    Hurray para o espírito científico e a dúvida metódica!
    Acho que o CSIC está a gastar dinheiro (e não deve ser pouco) com um peso-morto.”

    Comentário por Lobo Ibérico — Novembro 10, 2012 @ 11:11″

    Isto sim é cherry-picking…

  11. Lobo Ibérico

    Haha, a virar o bico ao prego.

    jhb, Relvas-style:

    “Ayn Rand? Nunca li.
    Mas leio umas coisas e mando umas broas no ‘O Insurgente’ e pedi equivalência.”

  12. Joaquim Amado Lopes

    jhb (12),
    Ricardo Saramago: “O sr. Galamba manifestamente não é conhecido pela honestidade e pela civilidade da argumentação.”
    jhb: “Ataques ad hominem também não são grande demonstração de “extrema honestidade intelectual”.”

    Desde quando é que dizer que alguém que não conhecido pela honestidade ou pela civilidade da argumentação não é conhecido pela honestidade ou pela civilidade da argumentação é desonestidade intelectual?
    Desonestidade intelectual é, p.e., (quase?) tudo o que o João Galamba diz e escreve sobre Economia.

  13. jhb

    “En lógica se conoce como argumento ad hominem (del latín, literalmente, “al hombre”) a un tipo de falacia. Consiste en decir que algo es falso, eludiendo presentar razones adecuadas para rebatir una determinada posición o conclusión. En su lugar se intenta atacar o desacreditar la persona que la defiende señalando una característica o creencia impopular de quien lo expresa”

  14. Lobo Ibérico

    “En su lugar se intenta atacar o desacreditar la persona que la defiende señalando una característica o creencia impopular de quien lo expresa”

    Grammsci para tótós.

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